Homo sapiens sapiens (primeira parte)

Muitas vezes nos perguntamos o porquê do estudo. Para muitos é a coisa mais chata que existe, no entanto, desde que se entendem por gente estão nessa “coisa chata”. Imaginam o dia da formatura como o dia da libertação da escravatura.

Ou então, pensam nas férias como a grande oportunidade de serem felizes durante o ano porque, afinal de contas, quase todo o ano é feito de penosa fadiga. Mas se diminuirmos ainda mais o ângulo da visão, vemos pessoas que anseiam desde segunda-feira que se chegue a sexta e, o pior, sofrem desde sexta porque vai chegar a segunda. Ou então, olhando bem de pertinho, o dia é dividido entre a parte legal, no caso a tarde e a noite pra quem estuda pela manhã, e a parte chata, a manhã ou vice-versa pra quem estuda à tarde.

Mas ainda se pode haver uma subdivisão muito interessante: ir à escola é muito legal, eu vejo os meus amigos, as pessoas que eu gosto, paquero, namoro, jogo conversa fora, jogo bola, faço um monte de coisa legal. Só não é melhor porque tem aquela parte chata: a aula!

Bom, com certeza muitos jovens se encontram em quase tudo o que eu escrevi acima. Talvez não todos ou não tão exagerado assim, mas o drama é quase geral.

Logo de cara gostaria de dizer que a pergunta à qual me referi no inicio é muito justa, alias, justíssima.

Sem uma motivação suficiente o homem não é capaz de agir.

Isso mesmo, somos movidos por motivações. Desde as ações mais primitivas às mais sublimes. Nesse sentido perguntar pra que estudar é uma busca de motivação. Não tem coisa mais chata que fazer uma coisa sem querer e sem para quê. Muitas vezes a motivação não é nem física nem psicológica, por exemplo (considerando que eu estou escrevendo para um jovem do Shalom): você acha sempre super legal rezar? Se sim, me diz o segredo pelo amor de Deus!!! Mas se não (parabéns, você é normal!) por que devo rezar sempre? Porque a motivação não se encontra no meu organismo físico nem nos meus movimentos psicológicos, mas sim em outra coisa que vai além, mais forte do que isso: a incrível força impulsionadora do amor, mas isso é um outro assunto…

Voltando à motivação, o que pode-se dizer é que ela é mais que fundamental, é essencial para se estudar bem.

A principal motivação, a que considero mais importante de todas é: aprender. Isso mesmo, se estuda para aprender. Essa talvez seja a redundância mais pleonástica (sic![1]) que se possa dizer a respeito do estudo, mas precisa ser dita. Eu estudo porque tenho curiosidade de saber, de aprender. O conhecimento por si mesmo é já um valor imenso. Nos dignifica, nos faz crescer. É como descobrir o mundo, explorar a natureza, desvendar os mistérios da criação de Deus. Se vemos por esse lado, biologia, química, física, matemática, geografia etc., não é outra coisa que mergulhar na maravilhosa criação de Deus. Literatura, arte, poesia, psicologia etc., é mergulhar na incrível capacidade que Deus colocou no homem de abstrair, de criar, de apaixonar-se pela beleza e pela bondade das coisas, de descobrir a si mesmo, coisa que um gato não pode fazer, coloque-o diante de um espelho e veja o que ele faz. Mas o homem não, ele se reconhece e conhece o mundo exterior como diferente de si mesmo. [2] Quanta maravilha podemos encontrar. Aprender para nós poderia se tornar em um bom vício, que em outras palavras é virtude.

Muitos poderiam me responder assim: lindo, muito legal, eu gosto muito de aprender, mas meu problema é que eu não gosto de estudar!

Bom, aqui existe outro problema: não sabemos estudar, estudamos sem método. Estudar com método significa descobrir o prazer de estudar.[3] O método é a estrada para se atingir a meta. Se a estrada é boa, limpa, eu chego logo e bem, se não, eu não chego bem, chego tarde ou até nem chego. Não serve estudar uma “montanha” se não estudo com método. Você pode chegar de Fortaleza a São Paulo (muito distante!) passando por Manaus a pé ou pegando um avião sem escalas. Você quem sabe. A distancia é a mesma (entre Fortaleza e São Paulo).

Estudar com método significa que eu me dou as regras do jogo. Não são as circunstâncias que determinam a minha capacidade mas sou eu que domino a parada, se liga?

Previsão

A primeira coisa é a previsão do tempo, se vai chover ou não (brincadeirinha… J), previsão do tempo que eu tenho a disposição em relação ao objetivo que eu devo atingir. Devo também prever o material que disponho (livros, material de pesquisa), e avaliar os custos e os benefícios. Se eu tenho tudo isso na cabeça já tenho um excelente ponto de partida porque eu sei muito bem que não posso deixar pra estudar 10 capítulos de um livro de literatura a partir das 10h da noite do domingo que antecede a primeira aula da segunda-feira (prova de literatura!). Ah, já ia me esquecendo de dizer que o dito cujo que se programou com esse largo tempo de antecedência, esqueceu que tinha emprestado o livro a um amigo duas semanas atrás e ele não lhe devolveu. Como esse amigo já tinha estudado tudo, foi para a Serra de Guaramiranga com a família, o celular dele não pega lá, na casa onde ele está não tem telefone e ele vai chegar direto de Guaramiranga para a prova às 8h da manhã (ele, como é muito prevenido, levou a farda). Os outros colegas da turma, os seus melhores amigos, claro, estão estudando porque se programaram da mesma forma, não, errei, eles estão ainda assistindo o Fantástico, só vão começar a estudar depois do programa que vem depois do Fantástico (como é mesmo o nome?…).

Projetação

Voltando ao assunto, depois que eu analiso, faço a previsão, passo à segunda etapa que é a projetação: estabelecer as prioridades, planejar o tempo, o material, o procedimento.[4] Depois falaremos detalhadamente sobre algumas dessas coisas.

Digamos que a prevenção é observar os recursos, o material que tenho para construir a casa e a projetação é o desenho arquitetônico.

O “auto-monitorar-se”

Em outras palavras significa auto-examinar-se e auto-controlar-se. Em prática, é far-se constantemente a pergunta: como? Como é mesmo? O que? Tipo assim, feito doido… calma! Eu explico. É assim: você tem que saber se o que está estudando tá entrando na sua caraminchola[5] ou tá saindo do outro lado do separador de orelhas, se ligou agora? Isso ajuda a manter a atenção e a não se distrair. É normal que você comece a estudar as propriedades do complexo de golgi e acabe pensando se aquela camisa super 10, irada, que você viu no shopping vai dar certo pra você comprar em suaves 12 prestações de R$ 49,99 sem juros… (que Deus te livre de cair em tal tentação!).

Na “auto monitoração” eu posso me questionar não só se estou entendendo o que eu estou lendo, mas também posso fazer uma série de outras perguntas a mim mesmo como:

  • Como vai minha motivação?
  • Este ambiente é favorável?
  • Quanto falta para eu acabar de estudar essa matéria?
  • Eu conheço bem ou mal essa disciplina?
  • Eu gosto dessa matéria?
  • Preciso melhorar?
  • Eu conheço bem a terminologia?

E tantas outras perguntas que você mesmo pode aplicar à sua realidade. Claro que em Fortaleza você não vai perguntar-se se o quarto precisa de mais aquecimento…

É obvio que você não vai ficar falando sozinho feito maluco a cada 5 min essas frases! Mas deve ser como um fundo motivacional, de autocontrole.

Um excelente teste que você pode fazer é tentar explicar a matéria para alguém, de preferência uma pessoa real, um familiar, um colega (mas se não achar pode ser também uma situação imaginária).

Revisão

O passo seguinte é a revisão. Imediatamente após estudar uma matéria eu devo verificar e avaliar o resultado atingido.[6] Essa avaliação consiste em julgar o próprio trabalho, os resultados, o ritmo, o empenho, as próprias habilidades, os próprios limites, os próprios materiais (resumos, mapas, esquemas etc.)

Quando se consegue haver uma boa avaliação, significa que você cresceu no aprendizado, e a sua auto-estima cresce. Você se sente mais capaz, perde o complexo do “eu sou burro mesmo, não consigo nada” e começa a acreditar nas capacidades que Deus lhe deu. Motivado assim, você consegue ter resultados melhores e sua auto-estima se mantém boa. É um ciclo virtuoso, mas cuidado pra não cair no orgulho sabichão![7] Afinal, como cristãos sabemos que tudo é dom e devemos agradecer a Deus que nos deu as capacidades naturais. Desenvolver as capacidades naturais é um modo de louvar o Criador que no-las deu.

Um conselho que deixo como sugestão (pessoalmente eu não faço) é ter um caderno de auto-avaliação. Nesse caderno você pode escrever as suas observações a respeito do seu método de estudo a cada dia, avaliando o que precisa melhorar e o que deve evitar.[8]

Na próxima carta falarei mais sobre as motivações e algumas dicas para auto motivar-se.

Um grande abraço e Deus vos abençoe.


[1] Para os queridos ignorantes do assunto, “sic!” se diz quando uma coisa parece absurda no texto mas você quer deixar como está, normalmente quando se cita um outro autor e encontra-se uma coisa absurda.

[2] Teve um amigo meu que disse que não concorda porque quando está diante do espelho ele se reconhece! Vocês conhecem mas eu não vou dizer quem é a criatura energúmena escalafobética que se acha o gato(se alguém tiver a curiosidade de procurar “energúmeno” no dicionário, saiba que a minha intenção foi de dizer o significado 2).

[3] POLITO, Mario. Guida allo studio, il metodo. Ed Riuniti, Roma, 2002, p. 3. (tradução própria). Diga-se logo de início que muito do que vou colocar aqui será pesquisado em algum livro desse autor, principalmente o citado acima. Farei a referência somente à página daqui por diante, a não ser que mude o livro ou o autor.

[4] Op. Cit., p. 18

[5] Nem procure saber se caraminchola é com CH ou com X porque não tem no dicionário, ao menos no meu Houaiss, não.

[6] Op. Cit., p. 22

[7] Essa sim, tem no dicionário, e é com CH mesmo!

[8] Op. Cit., p. 25

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