Homo sapiens sapiens (segunda parte)

A motivação para estudar

“A motivação é o empurrão que anima e sustenta uma ação ou um comportamento, para satisfazer as próprias necessidades. Uma forte motivação estimula um comportamento decisivo e direto ao objetivo, enquanto uma motivação fraca produz um comportamento incerto e confuso. Uma forte motivação coloca no estudo um forte interesse, uma intensa vontade de aprender, uma sólida tenacidade diante das dificuldades. Enfim, uma forte motivação torna mais provável o sucesso e a gratificação no estudo.

A motivação determina aquilo que se deve lembrar e aquilo que se pode esquecer. Lembra-se mais facilmente aquilo que se interessa, ou seja, que se gosta, aquilo que é útil. Se esquece mais facilmente aquilo que é chato, que não se gosta, que é inútil. Em outros termos, esquece-se facilmente quanto não se é motivado a lembrar, porque, em tal caso, as informações aprendidas perdem importância e relevo e vão acabar no fundo da nossa memória”[1]

Bom, como se pode ver, a motivação é algo FUNDAMENTAL. Desde o início do texto que eu falo sobre ela. Ela é o motor que vai fazer funcionar o carro. Uma forte motivação leva com velocidade a atingir o objetivo e o contrário é também verdadeiro, sem motivação adequada, muito fraca ou inexistente, não se sai do canto.

As motivações podem ser intrínsecas ou extrínsecas, ou seja, internas ou externas. As motivações internas são as mais fortes e mais eficazes, mas podemos nos aproveitar tanto de umas como das outras.

Exemplos de motivações internas:

Prazer de aprender

Curiosidade de descobrir

Auto-realização

Exemplos de motivações externas:

Reconhecimento

Incentivos

Gratificações

Evitar reprovação

Evitar punição

Agradar outros

“Uma forte motivação é indispensável, sobretudo quando se encontram obstáculos, dificuldades e frustrações. As dificuldades no estudo são inevitáveis, porque o estudo implica fadiga, empenho e esforço. Para afrontar tais dificuldades se pode agir em duas direções: melhorar o próprio método de estudo e acender a motivação ou a vontade de estudar.”[2]

Em outras palavras – isso é muito importante – não são as dificuldades que impedem de atingir o objetivo, seja ele qual for, mas é a baixa estima de nós mesmos. Uma pessoa com uma adequada auto-estima usa das dificuldades para se projetar ainda mais, é um desafio que o impulsiona. Um atleta por exemplo, sempre quer ir mais longe e quanto mais difícil mais ele se sente atraído. Eu tenho uma teoria pessoal (nada de original) que nós somos capazes de qualquer coisa possível e até aquelas aparentemente impossíveis, basta que a queiramos com proporcionada paixão e ajamos com a intensidade que amamos e queremos aquilo. Por exemplo, os grandes homens, os grandes cientistas, os descobridores, e sobretudo os santos, mostram para nós – que somos homens iguais a eles – que não existe o impossível quando se ama muito e se quer muito uma coisa. Se eu quisesse conhecer Galápagos, desvendar todos os segredos das tartarugas marinhas e ser um grande biólogo, poderia sê-lo se meu esforço apaixonado fosse proporcional à minha vontade. A maior força motivadora do ser humano é justamente aquilo que o faz humano: o amor. Veja o caso de Joseph Cliver! uahiauhaiuahiauhaiuhaiauhiauha

Algumas indicações para automotivar-se para o estudo

Cuidar da auto-estima. Deixar de lado aquelas frases que podemos dizer a nós mesmos: “eu não sou capaz”, “ não vou conseguir”, “sou um incompetente”. Se olharmos bem, isso é até pecado.

Visualizar-se positivamente: imaginar a satisfação que terei quando conseguir um bom resultado, uma boa nota, ou dominar o assunto.

Valorizar o estudo. Repito aqui o que já foi dito: o saber tem um valor em si mesmo, o conhecimento é uma riqueza imensa, um grande privilégio que infelizmente poucos ainda no mundo podem usufruir. Você é um privilegiado, pense que a maioria dos brasileiros não têm acesso à informação e à cultura que você tem.

Planejar as atividades de estudo. Muito importante aqui analisar as prioridades, fixar objetivos realísticos e elaborar estratégias para cumpri-los. Por exemplo, dentre tudo o que eu tenho para estudar, qual é a matéria em que tenho maior dificuldade ou qual é aquela que tem maior conteúdo? Qual a matéria que tenho menos tempo para preparar-me para as provas? Se eu tenho 50 páginas para estudar (que leva mais tempo que simplesmente ler!) e tenho 5 dias para fazer isso, quantas páginas eu devo estudar por dia? 10? Errado! 12, porque no último dia eu tenho que revisar tudo!

Auto monitorar-se. Quando você se auto-avalia, pode ter a agradável sensação de estar aprendendo, de verificar os seus progressos. Quanto mais você percebe que está progredindo, mais motivado você fica para continuar a estudar. Se na auto-avaliação você verifica que não está aprendendo bem, é lucro porque você tem tempo para mudar o método, procurar reforço, dedicar mais tempo àquela matéria entre outras coisas.

Auto reforçar-se. Parece estranho mas é como uma auto premiação. Um “que massa, eu já sei isso!” ou então “agora que eu consegui estudar e entender isso, posso me premiar com tal coisa que eu gosto”. Essa premiação deve ser feita passo por passo, a cada matéria estudada um pequeno prêmio que você estabeleceu em contrato com você mesmo. No final de tudo, no final da sessão de provas, por exemplo, você pode dar-se o luxo de uma auto premiação maior. Mas cuidado para que essa premiação não seja desproporcional ao sucesso, porque senão vai ser um desastre. Se a cada duas folhas que você estudar você se premiar com duas horas de internet, onde você imagina que vai parar? Um “auto prêmio” pode ser somente a satisfação de estar conseguindo entender uma coisa que você achava muito difícil. Isso já é bastante satisfatório.

Com relação a isso é muito importante colocar em primeiro lugar o esforço depois o prêmio. Não existe vitória por antecipação. Primeiro se faz o que é mais sacrifício, depois aquilo que é mais prazeroso. Primeiro eu estudo, depois eu me divirto, nunca coloque o carro adiante dos bois, porque você vai se divertir pensando que tem que terminar de estudar e acaba não dando tempo, é um caos! Ao contrario, se você sai pra se divertir tendo a agradável sensação de já ter estudado tudo, é um alívio.

O conflito entre motivações opostas[3]

Você já viu aqueles desenhos animados que tem um anjinho aconselhando o cara a fazer o bem e um demoniozinho tentando o cara pra fazer o mal? É mais ou menos isso. Pode existir dentro de nós um conflito entre motivações opostas, prevalecerá a mais forte. Tem uma outra história que diz mais ou menos a mesma coisa de modo mais espiritual: dentro de nós existe um cão violento, pronto a destruir tudo ao redor. Nós não podemos dominá-lo totalmente, mas podemos simplesmente NÃO ALIMENTÁ-LO. Ou usando uma outra parábola com sabor de padremarqueanês: a nossa alma é um campo, as ervas daninhas crescem sem que ninguém ágüe[4], as plantas frutíferas precisam ser adubadas e irrigadas. Em suma, vai crescer quem você der de comer.

Use a “discussão democrática interior”

O que eu quero? O que eu quero de verdade? O que eu quero mais? O que vale a pena agora? É um modo de trazer você mesmo para a sã razão e não deixar-se levar pelos instintos. Conversando calmamente com você mesmo, se convença que o mais lógico, o melhor no momento é cumprir com os seus compromissos e depois fazer aquela coisa que lhe dá prazer, como jogar bola com os amigos, como um prêmio.

Eu detesto essa matéria!

Quem já ouviu essa frase um “zilhão” de vezes levante a mão. Todo mundo! As causas porquê uma matéria é simpática ou antipática dependem muito. Tantas vezes fui eu que cismei com a cara do professor, às vezes a cisma foi tão grande que eu “invoquei” com a bendita matéria pro resto da vida (é já um trauma!). Outras vezes é uma antipatia por falta de motivação. Um insucesso no início pode causar a sensação de que eu nunca vou conseguir, que não sou chegado para aquele tipo de coisa, que não tenho jeito para aquela área de estudos, por exemplo. Repito, aquelas frases contaminadas que a gente ouve ou repete para nós mesmos: “eu sou burro, sou tapado, não tenho jeito pra isso” e por aí vai…[5]

Bom, a cura para esse tipo de bloqueio é andar no sentido inverso. Claro que a coisa não é sempre simples. Às vezes precisa-se de um grande esforço para curar a antipatia a uma matéria. Usar todos os métodos para estudá-la bem e, principalmente, esquecer que ela é “difícil” e que “você não é capaz” ajuda muito. Em alguns casos mais enraizados, talvez a ajuda de um outro professor, ou até mesmo um psicólogo seria muito bom.

Para acabar, gostaria de dizer que se você chegou até esse ponto do texto, você comprovou que estudar não é difícil, é um prazer. Na verdade esse não é um texto espiritual, ou uma historinha em quadrinhos e se você seguiu com interesse até aqui é porque você estava motivado. Isso pode acontecer com qualquer matéria.

Motivar-se significa dar um valor àquilo que se faz. Se não se está motivado, é melhor não estudar. É necessário elaborar uma boa motivação antes de estudar.[6]

Gostaria de concluir com uma motivação importantíssima para um jovem que teve uma experiência com Deus: estudar para a glória de Deus. Estudar por amor a Deus, estudar para dar testemunho, para evangelizar melhor e com maior eficácia. Estudar para vencer os desafios que a sociedade anticristã coloca a cada dia diante de nós. Estudar para ser um bom profissional no futuro, para ser como cristão luz no mundo do trabalho e na sociedade. Estudar para, quem sabe, ser um bom missionário como sacerdote ou como leigo consagrado. Um maravilhoso testemunho para os outros jovens é mostrar que, mesmo colocando Deus no centro da nossa vida, isso não nos impede de sermos bons alunos, pelo contrário, qual é a conseqüência na minha vida estudantil depois de uma noite de vigília e de uma noite de farra? Com certeza, o jovem que “perde” uma noite em uma vigília tem um ideal, um objetivo, uma razão de vida que o faz vencedor. Um jovem que teve uma experiência de Deus sabe o valor de palavras como sacrifício, renúncia, coisas absolutamente indispensáveis para ser um bom estudante.

Vocês não imaginam o quanto as pessoas aqui na Europa me questionam sobre geografia, política, sociologia, história, enfim todo tipo de argumento, principalmente sobre o Brasil. Isso é muitas vezes motivo para que eu possa entrar em diálogo e evangelizar. As pessoas que me perguntam esse tipo de coisas são as pessoas normais, simples.

No Brasil a gente está muito acostumado com os privilégios. Existem no nosso país dois mundos: o mundo dos que têm dinheiro e têm acesso à cultura e o mundo dos que estão trancados nos calabouços da ignorância. Aqui nos países mais civilizados não é assim. Outro dia eu passei uma tarde discutindo política internacional, problemas de emigração e conflitos religiosos-culturais com um pedreiro. Parece brincadeira mas é a pura verdade. Os jovens aqui entendem de arte, sabem quem é por exemplo Rodan, Picasso, Caravaggio e conhecem uma gama de coisas (como filosofia, latim, grego, astronomia) que nós ficamos distante anos-luz, porque o que nos interessa é saber os macetes e decorar fórmulas para passar no vestibular.

Mas eu não vou cansar muito vocês. Na próxima carta eu vou dar algumas dicas práticas preciosas. Por enquanto vai essa: leiam, leiam e peçam a Deus o vício de ler. Leiam até bula de remédio. E ensinem, conversem com os outros sobre as coisas que vocês aprenderam. Vai dar certo.

Deus os abençoe.


[1] Op. Cit., p. 27. Quiz traduzir quase toda a página porque achei muito importante esses conceitos. Eles devem ser levados em muita consideração.

[2] Op. Cit., p. 31

[3] Op. cit. pp. 38-40.

[4] Bom, confesso que, como certamente você também, eu não sabia que esse verbo se escrevia dessa forma.

[5] Eu coloquei várias vezes nesses textos palavras como “prá” e “pro” (= para o); eu sei que isso não existe, mas digamos que essa é uma carta entre amigos e não um texto de escola, ok?

[6] Op. cit. p. 45.

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2 pensamentos sobre “Homo sapiens sapiens (segunda parte)

  1. Pe. Léo!
    Sou teu fã mah! gosto muito de ler oq vc escreve, já tinha lido o homo spiens mais gostei de ler esse e os outros artigos, me ajudou a me dar força de estudar mais!
    um grande abraço, obrigado pela sua amizade! (hauhauhau gostei da foto na estante ao lado do PC!)

    Vitor

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