BBC e sua inclinação anticatólica

Seu diretor Mark Thompson defende postura da emissora

Por Edward Pentin

ROMA, quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010 (ZENIT.org).- A British Broadcasting Corporation (BBC) não é conhecida precisamente por seu grande amor à Igreja Católica.

Ainda que tenha reputação mundial pela alta qualidade de sua programação, essa rede financiada principalmente pelo Estado é muitas vezes acusada de tratar da Igreja e da fé católica, no melhor dos casos, de modo injusto.

Essa acusação pode se sustentar em muitos exemplos, começando por alguns programas dos últimos dez anos que são blasfemos e altamente ofensivos para os católicos.

Em 2003, a BBC transmitiu -com grande audiência internacional- um documentário intitulado “O Sexo e a Cidade Santa”, que desfigurava intencionalmente a Igreja e seus ensinamentos sobre preservativos e Aids. Dois anos depois, transmitiu “Jerry Springer the Opera”, um programa blasfemo e muito ofensivo que ridicularizava Jesus e a fé.

Pouco antes, a BBC gastou dois milhões de libras (3,3 milhões de dólares) em um programa chamado “Popetown” – uma série animada sobre o Vaticano que ridicularizava a Igreja e continha cenas de difamação. Devido aos protestos, o programa foi proibido na Grã-Bretanha, mas continuou em DVD.

A BBC também tem sido acusada de cometer erros em outras áreas quando se trata do catolicismo. A perseguição de católicos no Oriente Médio ou Ásia, raramente recebe sua cobertura ou uma atenção adequada. O bom e imenso trabalho dos sacerdotes, religiosos ou leigos católicos feito pelo mundo é normalmente ignorado; e a inestimável contribuição da Igreja à cultura ocidental tende-se a desacreditar, centrando-se nos pecados do passado dos membros da Igreja.

Também se culpa a BBC de ser tendenciosamente anticatólica nos temas mais sutis. As mesas de debate, as informações das notícias e os artigos em seu website tendem a focar no sensacionalismo; habitualmente incluem também contribuições de figuras laicas ou de católicos dissidentes, mas são raras as ocasiões de católicos praticantes que explicariam adequadamente os ensinamentos da Igreja.

O tratamento do clero por parte da emissora implica com não pouca frequência perguntas de apresentadores que mostram desprezo e desdém e que parecem considerá-los culpados até que se prove o contrário. Stephen Glover, colunista de jornais britânico e não católico, descreveu como um entrevistador televisivo da BBC, submetendo a interrogatório em 2007 o arcebispo inglês Vicent Nichols, “o tratava como um membro de alguma seita extrema, interrompendo-o continuamente, e se dirigia a ele como se pensasse que fosse tolo”.

Preconceito tendencioso

A maior parte desse espírito tendencioso é atribuída ao modo do pensamento predominantemente laico na emissora, que abraça ou simpatiza com a cultura da morte, seja o aborto, o feminismo radical, a agenda homossexual, a eutanásia ou a ciência imoral como a pesquisa com células tronco embrionárias.

“A BBC”, escreveu uma vez Glover, “representa um consenso materialista e mecânico, que rejeitou Deus, e se ilude que a ciência é capaz de fornecer uma explicação completa da existência”.

Mesmo um dos jornalistas mais conhecidos da BBC, Andrew Marr, admitiu a dificuldade que a emissora tem na hora de fazer uma cobertura não tendenciosa.

“A BBC não é imparcial ou neutra”, dizia em uma reunião secreta de executivos da BBC em 2006. “É uma organização urbana financiada com dinheiro do público, com um número anormalmente grande de pessoas jovens, minorias étnicas e gays. Tem uma tendência liberal e nem tanto uma tendência política liberal. Pode ser melhor expressa como uma tendência cultural liberal”.

Na mesma reunião, um executivo veterano da BBC, segundo citava a imprensa britânica, disse que havia “um reconhecimento generalizado de que temos ido longe de mais em relação ao politicamente correto” e que a maior parte dessa mentalidade está “tão profundamente enraizada na cultura da BBC que é muito difícil mudar”.

Também se informou de que “quase todos” naquele encontro estavam de acordo em que a Bíblia poderia ser jogada em uma lixeira durante uma comédia televisiva, mas não o Alcorão, por medo de ofender os muçulmanos.

A resposta de seu diretor

Os diretores da BBC, em público, rejeitaram a maior parte das denúncias sobre seu viés anticatolicismo. Há algumas semanas, Mark Thompson, diretor geral da emissora – na prática, seu redator chefe – deu uma palestra na Universidade Pontíficia da Santa Cruz, em Roma, sobre o tema “Transmissão e sociedade civil”.

Foi decepcionante e, talvez, revelador que seu discurso não mencionava de modo algum a religião, mas o foco foi a atuação da BBC como uma emissora estatal e independente, e como uma futura adaptação promete oferecer programas de melhor qualidade.

Mas durante a sessão posterior, de perguntas e respostas, admitiu que “pode acontecer” de um certo preconceito anticatólico em relação a cobertura de notícias, ainda que a BBC procure passar uma “imagem adequada”.

Em seguida, deu alguns exemplos de documentários da BBC e da cobertura ao vivo da Igreja, desde o funeral do cardeal Basil Hume, antigo arcebispo de Westminster, até a exposição na Grã-Bretanha das relíquias de Santa Teresa de Lisieux.

Perguntaram se ele acredita que a BBC tende a favorecer uma ideologia oposta à doutrina da Igreja, e respondeu: Não, de verdade não”, e recordou outro programa, dessa vez sobre a Paixão de Cristo, na Páscoa de 2008.

A advertência de sua mãe

Essa não é a primeira vez que ele enfrentou essas críticas. Falando sobre o tema das transmissões religiosas em uma conferência em Londres em 2008, Thompson, que é católico, recordava que sua mãe mexeu a cabeça quando foi dito que seu filho havia sido nomeado diretor geral. “A BBC é anticatólica e anti-Deus”, disse ela com palavras claras.

Mas tais etiquetas anti-Deus, explicou em sua audiência em Londres, “não são muito comuns, inclusive não são inteiramente verdadeiras”. Ele afirmou que, naturalmente, dentro da BBC há muita gente “que tem um ponto de vista bastante cético a respeito da religião”, mas também se podem encontrar “milhares de pessoas para quem a religião tem um papel central na vida”. Ele defendeu uma cobertura religião como “fé e experiência de vida” e não como uma história ou tema “incomum”.

Mas mesmo sob sua direção, caiu a cobertura televisiva dada pela BBC aos assuntos religiosos, das 177 horas em 1987-88 para 155 horas em 2007-08. O órgão do governo da Igreja da Inglaterra, o Sínodo Geral, recentemente debateu se a BBC marginaliza o cristianismo, tratando-o como uma espécie de “show anormal” ou uma “espécie rara” para se estudar em um programa sobre a natureza.

Marginalização

Em sua conferência em Roma, Thompson afirmava que não abordava a religião especificamente porque não queria colocá-la em uma categoria especial, preferindo, pelo contrário, incluir a religião em seus comentários de história, conhecimento e cultura. Ainda assim, essa posição corre o risco de deixar a religião ainda mais de lado. E talvez seja essa uma das razões da BBC raramente emitir programas sobre uma fé em particular. Em vez disso, faz um agrupamento das religiões em uma confusão relativista.

Um sacerdote, depois de ouvir a conferência de Thompson, perguntou: “Por que não há programas dedicados a cada religião, por exemplo, um formado por um grupo de teólogos católicos discutindo o papel das obras na justificação, um outro de muçulmanos discutindo sobre a interpretação do Alcorão?”.

Falando depois com ZENIT, Thompson parecia aberto a ter um diálogo honesto com a Igreja e escutar as ideias para melhorar a programação. O principal propósito de sua visita era se encontrar com o Santo Padre e com representantes do Vaticano para falar sobre a visita do Papa à Grã-Bretanha no final deste ano”.

Um sinal de esperança, ainda que restem muitas dúvidas sobre até que ponto a diretoria da BBC leve genuinamente a sério a Igreja.

Se algum leitor deseja propor ideias a Mark Thompson sobre como melhorar a cobertura da Igreja por parte da BBC, pode me enviar um e-mail que darei as indicações para lhe fazer chegar (epentin@zenit.org).

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Processo contra o filme 2012

Qua, 24 Fev, 06h04

Por Redação Yahoo! Brasil

Destruir o Cristo Redentor no filme “2012” foi considerado um atentado contra a Igreja pela Arquidiocese do Rio de Janeiro, que cobra da Columbia Pictures o pagamento de uma indenização por uso indevido de imagens.

O filme do diretor alemão Roland Emmerich, o mesmo de “O dia depois de amanhã” e “Independence Day”, narra a história do fim do mundo – que parece ser uma grande obsessão para Emmerich, a julgar por sua filmografia. “2012” é estrelado por John Cusack, Thandie Newton, Amanda Peet e Woody Harrelson. Vários monumentos são destruídos por computação gráfica, inclusive o Cristo Redentor.

A Arquidiocese do Rio não pode cobrar pelo uso da imagem do Cristo, mas tem poder de veto, com a justificativa de que se trata de um símbolo religioso e que deve ser preservado. O escritório da Columbia já foi notificado e os advogados da empresa em Los Angeles estão cuidando do caso.

A advogada Claudine Dutra, responsável pelo departamento jurídico da Arquidiocese, afirma que a Columbia procurou a entidade na fase de pré-produção e o pedido de autorização foi negado. Ela explicou que ainda não há um valor estipulado para a indenização.

O filme “2012” já não está mais em cartaz.

Bento XVI: Quaresma, tempo de renovação espiritual

Comentário ao Evangelho do primeiro domingo deste tempo litúrgico

CIDADE DO VATICANO, domingo, 21 de fevereiro de 2010 (ZENIT.org).- Apresentamos a intervenção de Bento XVI durante a oração mariana do Angelus no primeiro domingo da Quaresma.

* * *

Caros irmãos e irmãs!

Quarta-feira passada, com o rito penitencial das Cinzas, demos início à Quaresma, tempo de renovação espiritual que nos prepara para a celebração anual da Páscoa. Mas o que significa entrar no itinerário quaresmal? Isso nos ilustra o Evangelho deste primeiro domingo, com o relato das tentações de Jesus no deserto.

Narra o Evangelista São Lucas que Jesus, após ter recebido o batismo de João, “pleno do Espírito Santo, distanciou-se do Jordão, e era guiado pelo Espírito Santo no deserto, por quarenta dias, tentado pelo demônio” (Lc 4,1-2).

É evidente a insistência sobre o fato de que as tentações não foram um acidente de percurso, mas a consequência da escolha de Jesus de seguir na missão confiada pelo Pai, de viver até o fim sua realidade de Filho amado, que confia totalmente Nele. Cristo veio ao mundo para liberatar-nos do pecado e do ambíguo fascínio de conceber nossa vida prescindindo a Deus. Ele o fez não com aclamações altissonantes, mas lutando em primeira pessoa contra o Tentador, até a cruz. Este exemplo vale para todos: melhora-se o mundo começando por si mesmo, mudando, com a graça de Deus, aquilo que não está bem na própria vida.

Das três tentações de Satanás a Jesus, a primeira tem origem na fome, isto é, na necessidade material: “Se és Filho de Deus, diga a esta pedra que se torne pão”. Mas Jesus responde com a Sagrada Escritura: “Nem só de pão vive o homem” (Lc 4,3-4; cfr Dt 8,3). Em seguida, o diabo mostra a Jesus todos os reinos da terra e diz: tudo será teu, se, prostrando-te diante de mim, me adorares. É a sedução pelo poder, e Jesus desmascara esta investida dizendo: “Ao Senhor, teu Deus, adorarás, e apenas a Ele renderás culto” (cfr Lc 4,5-8; Dt 6,13). Não adoração ao poder, mas somente a Deus, à verdade e ao amor. Finalmente, o Tentador propõe a Jesus que faça um milagre espetacular: que se atire do alto das muralhas do Templo e se faça salvar pelos anjos, e assim todos acreditarão nele. Mas Jesus responde que a Deus não se coloca jamais à prova (cfr Dt 6,16). Não podemos “fazer um experimento” no qual Deus deve responder e mostrar-se Deus: devemos crer Nele! Não devemos fazer de Deus “material” de “nosso experimento”!

Referindo-se sempre à Sagrada Escritura, Jesus contrapõe aos critérios humanos o único critério autêntico: a obediência, a conformidade com a vontade de Deus, que é o fundamento de nosso ser. Também este é um ensinamento fundamental para nós: se portarmos na mente e no coração a Palavra de Deus, se esta adentra em nossa vida, se tivermos confiança em Deus, podemos refutar todo o tipo de trapaça do Tentador. Ademais, de toda a narrativa emerge claramente a imagem de Cristo como o novo Adão, Filho de Deus humilde e obediente ao Pai, à diferença de Adão e Eva que, no jardim do Éden, cederam às seduções do espírito do mal de serem imortais, sem Deus.

A Quaresma é como um longo “retiro”, durante o qual reentramos em nós mesmos e ouvimos a voz de Deus, para vencer as tentações do Maligno e encontrar a verdade de nosso ser. Um tempo, podemos dizer, de “vigor” espiritual a ser vivido junto a Jesus, não com orgulho ou presunção, mas usando as armas da fé, que são a oração, o ouvir a Palavra de Deus e a penitência. Desse modo poderemos celebrar a Páscoa na verdade, prontos para renovar as promessas de nosso Batismo. Que nos ajude a Virgem Maria para que, guiados pelo Espírito Santo, vivamos com alegria e com fruto este tempo de graça. Que interceda particularmente por mim e por meus colaboradores da Cúria Romana, que nesta tarde iniciarão comigo os Exercícios Espirituais.
[Traduzido por Zenit]

ESTADO LAICO?

Esse comentário de um amigo meu (Átila Martins) ao post sobre a retirada dos crucifixos dos locais públicos está tão bom, que vale a pena colocar como post.

Confira:


Bem, supondo que eu seja ateu e concorde com a retirada de símbolos religiosos dos prédios públicos. Algumas coisas teriam que ser revistas:

1. Retirar a estátua da deusa Thêmis (da mitologia grega) da frente do STF. Afinal de contas é um símbolo religioso não é? Alguns podem dizer: Aaah não! Nesse caso, é um símbolo da justiça, que é cega e tem uma balança para medir bem as coisas. A cruz, o crucifixo, de um ponto de vista ateu até, também são símbolos de sacrifício, de justiça, de entrega. Não creio que a presença de um crucifixo induza ninguém ao catolicismo somente pelo fato de estar ali. Não violenta ninguém.

2. Qual calendário utilizar meu Deus? (Ah, meu Deus, não, esqueci que estou supondo que sou ateu). Estamos em 2009 depois de Cristo. O calendário judaico é religioso, não pode. Será que o calendário Juliano é apropriado? Não, ele informava as festas religiosas do Império Romano. O calendário persa surgiu a partir do calendário zoroastriano (religioso!). Não sei.

3. Cristo Redentor, no Rio de Janeiro. Ainda que se permita a continuação da estátua lá, não deveria mais se chamar Redentor. Tem que mudar o nome porque pode ofender outros segmentos religiosos. Tem os que não acreditam na necessidade de redenção e tem os que acreditam em outros caminhos de redenção.

4. Deve-se proibir festas de Halloween nas escolas públicas. O Halloween é um misto de festa celta pagã (muito celebrado entre os praticantes da Wicca – Samhain) e festa católica (Vigília de Todos os Santos – All Hallowed Eve).

5, Alguns municípios têm nomes de santos católicos ou nomes que exaltam a cultura religiosa. Que ofensa ao dito Estado Laico! Aqui no Ceará: São Benedito, São Gonçalo do Amarante, Cruz, Bela Cruz, Milagres, Missão Velha, Pentecoste, Santa Quitéria, Santana do Acaraú, Santana do Cariri, São João do Jaguaribe, São Luis do Curu e… Fortaleza de Nossa Senhora da Assunção. Sugiro trocar o nome da capital para Lúcifer (calma: o nome significa “portador de luz”, aqui não é a terra da luz?).

6. Retirar os santos e santas que ficam na entrada das cidades. Aproveitar e retirar também os símbolos maçônicos, as estátuas de esquerdistas (o comunismo também é uma religião) e de direitistas (o capitalismo também). Eu digo como São João Bosco: “em matéria de política não sou de ninguém”. Ah, desculpem-me, sou ateu hehehe.

7. Reformular a Economia. Afinal de contas ela nasceu entre os professores (leigos e sacerdotes) da Universidade de Salamanca (católica), na Espanha. Reformular a Astronomia (o Vaticano é um dos maiores financiadores de estudos astronômicos do mundo).

8. Acabar com Missas na Televisão. Todos os canais televisivos são concessão pública (no rádio também). Podia aproveitar e acabar os programas protestantes. Nas novelas nada de insinuações da igreja universal (Record), nem do espiritismo (Globo), nem de qualquer coisa que tenha raiz religiosa. Aliás, a população deve esquecer que existe Religião, afinal ela pertence ao âmbito privado, não é verdade?

Ufa! Concluindo… estado laico não é estado ateu. O ateísmo é também uma religião porque se posiciona sobre a existência ou não de Deus e sobre a conduta moral do ser humano em relação a essa existência ou não-existência. A imposição do ateísmo é inconstitucional porque privilegia uma corrente religiosa (ateísmo) em detrimento das demais. Além disso, pra existir respeito, tem que existir convivência. É a convivência entre as mais variadas religiões e os que não professam nenhuma fé, que o respeito à identidade de cada um pode existir. Também não é uniformizar os credos, mas este é outro assunto.

Tempo de conversão

Pessoal, pensei em escrever um texto sobre o dia de hoje, mas nada melhor que as palavras do Papa…

De qualquer forma, durante a quaresma pretendo colocar vários textos de minha autoria. Aguardem.

CIDADE DO VATICANO, quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010 (ZENIT.org).- Apresentamos, a seguir, a catequese dirigida pelo Papa aos grupos de peregrinos do mundo inteiro, reunidos na Sala Paulo VI para a audiência geral.

* * *

Queridos irmãos e irmãs:

Iniciamos hoje, Quarta-Feira de Cinzas, o caminho quaresmal: um caminho que se estende durante quarenta dias e que nos leva à alegria da Páscoa do Senhor. Neste itinerário espiritual, não estamos sozinhos, porque a Igreja nos acompanha e nos sustenta desde o começo com a Palavra de Deus – que engloba um programa de vida espiritual e de compromisso penitencial – e com a graça dos sacramentos.

São as palavras do apóstolo Paulo que nos oferecem uma indicação precisa: “Nós vos exortamos a que não recebais em vão a sua graça. Porque Ele diz: ‘No tempo favorável, eu te ouvi; no dia da salvação, vim em teu auxílio’. Este é o tempo favorável, este é o dia da salvação” (2 Cor 6,1-2). Na verdade, na visão cristã da vida, cada momento é favorável e cada dia deve ser chamado de dia de salvação, mas a liturgia da Igreja refere estas palavras de modo muito particular ao tempo da Quaresma. E que os quarenta dias de preparação da Páscoa sejam um tempo favorável e de graça podemos entender precisamente no convite que o austero rito da imposição das cinzas nos dirige e que se expressa, na liturgia, com duas fórmulas: “Convertei-vos e crede no Evangelho” e “Lembra-te de que és pó e ao pó hás de voltar”.

O primeiro convite é à conversão, palavra que é preciso considerar em sua extraordinária seriedade, descobrindo a surpreendente novidade que engloba. O convite à conversão, de fato, revela e denuncia a fácil superficialidade que caracteriza frequentemente nossa maneira de viver. Converter-se significa mudar de direção no caminho da vida: mas não para um pequeno ajuste, e sim como uma verdadeira e total inversão de rumo. Conversão é ir contra a corrente, onde a “corrente” é o estilo de vida superficial, incoerente e ilusório, que frequentemente nos arrasta, nos domina e nos torna escravos do mal ou pelo menos prisioneiros da mediocridade moral. Com a conversão, no entanto, indica-se a medida alta da vida cristã e nos é confiado o Evangelho vivo e pessoal, que é Cristo Jesus. Sua pessoa é a meta final e o sentido profundo da conversão; Ele é o caminho que estamos chamados a percorrer na vida, deixando-nos iluminar pela sua luz e sustentar pela sua força, que move nossos passos. Dessa forma, a conversão manifesta seu rosto mais esplêndido e fascinante: não é uma simples decisão moral, que retifica nossa conduta de vida, mas uma decisão de fé, que nos envolve inteiramente na comunhão íntima com a pessoa viva e concreta de Jesus.

Converter-se e crer no Evangelho não são duas coisas diferentes ou, de alguma forma, somente próximas entre si: elas expressam a mesma realidade. A conversão é o “sim” total de quem entrega sua própria existência ao Evangelho, respondendo livremente a Cristo, quem primeiramente se ofereceu ao homem como caminho, verdade e vida, como Aquele que o liberta e o salva. Precisamente este é o sentido das primeiras palavras com que, segundo o evangelista Marcos, Jesus abre a pregação do “Evangelho de Deus”: “Cumpriu-se o tempo e o Reino de Deus está próximo. Arrependei-vos e crede no Evangelho” (Mc 1,15).

O “convertei-vos e crede no Evangelho” não está somente no início da vida cristã, mas acompanha todos os seus passos, permanece renovando-se e se difunde ramificando-se em todas as suas expressões. Cada dia é momento favorável de graça, porque cada dia nos convida a nos entregarmos a Jesus, a ter confiança n’Ele, a permanecer n’Ele, a compartilhar seu estilo de vida, a aprender d’Ele o amor verdadeiro, a segui-lo no cumprimento cotidiano da vontade do Pai, a única grande lei de vida. Cada dia, ainda quando há muitas dificuldades e fadigas, cansaços e quedas, ainda quando estamos tentados a abandonar o caminho de seguimento de Cristo e de fechar-nos em nós mesmos, em nosso egoísmo, sem percebermos a necessidade que temos de abrir-nos ao amor de Deus em Cristo, para viver a mesma lógica de justiça e de amor. Na recente Mensagem para a Quaresma, eu quis recordar que “é necessário humildade para aceitar que se precisa que um Outro me liberte do ‘meu’, para me dar gratuitamente o ‘seu’. Isto acontece particularmente nos sacramentos da Penitência e da Eucaristia. Graças à ação de Cristo, nós podemos entrar na justiça ‘maior’, que é aquela do amor (cf. Rom 13,8-10), a justiça de quem se sente em todo o caso sempre mais devedor do que credor, porque recebeu mais do que aquilo que poderia esperar”.

O momento favorável e de graça da Quaresma nos mostra o próprio significado espiritual também através da antiga fórmula: “Lembra-te de que és pó e ao pó hás de voltar”, que o sacerdote pronuncia quando impõe sobre a nossa cabeça um pouco de cinzas. Somos assim remetidos aos inícios da história humana, quando o Senhor disse a Adão após a culpa das origens: “Com o suor de teu rosto comerás teu pão até que retornes ao solo, pois dele foste tirado. Pois tu és pó e ao pó hás de voltar” (Gn 3, 19). Aqui, a palavra de Deus nos recorda nossa fragilidade, inclusive nossa morte, que é sua forma extrema, frente ao inato medo do fim; ainda mais no contexto de uma cultura que de tantas formas tende a censurar a realidade e a experiência humana do morrer, a liturgia quaresmal, por um lado, recorda-nos sempre a morte, convidando-nos ao realismo e à sabedoria; mas, por outro lado, ela nos conduz sobretudo a acolher e viver a novidade inesperada de que a fé cristã liberta da realidade da própria morte.

O homem é pó e ao pó voltará, mas é pó precioso aos olhos de Deus, porque Deus criou o homem destinando-o à imortalidade. Assim, a fórmula litúrgica “Lembra-te de que és pó e ao pó hás de voltar” encontra a plenitude do seu significado em referência ao novo Adão, Cristo. Também o Senhor Jesus quis livremente compartilhar com cada homem o destino da fragilidade, em particular através da sua morte na cruz; mas precisamente esta morte, repleta do seu amor pelo Pai e pela humanidade, foi o caminho para a ressurreição gloriosa, através da qual Cristo se converteu em fonte de uma graça dada àqueles que creem n’Ele e se tornam partícipes da mesma vida divina. Esta vida que não terá fim já está presente na fase terrena da nossa existência, mas será levada a cumprimento após a “ressurreição da carne”. O pequeno gesto da imposição das cinzas nos revela a singular riqueza do seu significado: é um convite a percorrer o tempo da Quaresma como um mergulho mais consciente e mais intenso no mistério pascal de Cristo, em sua morte e sua ressurreição, mediante a participação na Eucaristia e na vida de caridade, que nasce da Eucaristia e nela encontra seu cumprimento. Com a imposição das cinzas, renovamos nosso compromisso de seguir Jesus, de deixar-nos transformar pelo seu mistério pascal, para vencer o mal e fazer o bem, para fazer morrer nosso “homem velho”, ligado ao pecado, e fazer nascer o “homem novo”, transformado pela graça de Deus.

Queridos amigos: enquanto nos apressamos para empreender o austero caminho quaresmal, queremos invocar com particular confiança a proteção de Nossa Senhora. Que Ela, a primeira que acreditou em Cristo, seja quem nos acompanhe nestes quarenta dias de intensa oração e de sincera penitência, para chegar a celebrar, purificados e completamente renovados na mente e no espírito, o grande mistério da Páscoa do seu Filho.

[No final da audiência, o Papa cumprimentou os peregrinos em vários idiomas. Em português, disse:]

Queridos irmãos e irmãs:

Hoje tem início o caminho da quaresma que nos conduzirá à alegria da Páscoa do Senhor. Recebendo as cinzas sobre a cabeça, renovamos o nosso compromisso de seguir Jesus, de nos deixarmos transformar pelo seu mistério pascal para vencer o mal e fazer o bem, para morrer para o nosso “homem velho” ligado ao pecado e fazer nascer o “homem novo” transformado pela graça de Deus.

Saúdo com particular afeto o grupo de fiéis do Patriarcado de Lisboa, peregrinos com o seu bem-amado Pastor, Cardeal Dom José Policarpo, em romaria de fé e gratidão pelas sendas do Venerável Servo de Deus Papa João Paulo II, que vos conquistou para Cristo, no Parque Eduardo VII da vossa cidade, há 28 anos. Ver-vos hoje aqui traz à mente aquele seu último pensamento para os jovens: “Andei à vossa procura. Agora viestes ter comigo. Eu vos agradeço”. Queria-vos a todos com Cristo. Que este nosso encontro suscite em vós e em todos peregrinos presentes de língua portuguesa, com suas famílias e comunidades cristãs, uma renovada vitalidade espiritual na fiel e generosa adesão a Cristo e à Igreja. Olhai o futuro com esperança e não vos canseis de trabalhar na vinha do Senhor. Uma santa Quaresma para todos!

[Tradução: Aline Banchieri

©Libreria Editrice Vaticana]