Modelos de sacerdotes

CIDADE DO VATICANO, quarta-feira, 28 de abril de 2010 (ZENIT.org).- Apresentamos, a seguir, a catequese dirigida pelo Papa aos grupos de peregrinos do mundo inteiro, reunidos na Praça de São Pedro para a audiência geral.

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Queridos irmãos e irmãs:

Estamos nos aproximando da conclusão do Ano Sacerdotal e, nesta última quarta-feira de abril, eu gostaria de falar de dois grandes santos sacerdotes, exemplares em sua doação a Deus e no testemunho de caridade, vivida na Igreja e para a Igreja, com os irmãos mais necessitados: São Leonardo Murialdo e São José Benedito Cottolengo. Do primeiro, recordamos os 110 anos de morte e os 40 de sua canonização; do segundo, começaram as celebrações do 2º centenário de sua ordenação sacerdotal.

Murialdo nasceu em Turim, no dia 26 de outubro de 1828: é a Turim de São João Bosco, do próprio Cottolengo, terra fecundada por muitos exemplos de santidade de fiéis leigos e sacerdotes. Leonardo é o oitavo filho de uma família simples. Quando criança, junto com seu irmão, entrou no colégio dos Padres Escolápios de Savona para o Ensino Fundamental, Médio e Superior; lá encontrou educadores preparados, em um clima de religiosidade fundado em uma séria catequese, com práticas de piedade regulares.

Durante a adolescência, viveu, no entanto, uma profunda crise existencial e espiritual que o levou a antecipar a volta à família e a concluir seus estudos em Turim, matriculando-se no biênio de filosofia. A “volta à luz” aconteceu – como ele relata – após alguns meses, com a graça de uma confissão geral, na qual redescobriu a imensa misericórdia de Deus; amadureceu, então, aos seus 17 anos, a decisão de tornar-se sacerdote, como resposta de amor a Deus, que o havia seduzido com seu amor.

Ele foi ordenado no dia 20 de setembro de 1851. Precisamente naquele período, como catequista do Oratório do Anjo da Guarda, foi conhecido e estimado por Dom Bosco, que o convenceu a aceitar a direção do novo Oratório de São Luiz em Porta Nuova, exercida até 1865. Lá, entrou em contato também com os graves problemas dos mais pobres, visitou suas casas, amadurecendo uma profunda sensibilidade social, educativa e apostólica que o levou a dedicar-se de forma autônoma a múltiplas iniciativas a favor da juventude. Catequese, escola, atividades recreativas foram os fundamentos do seu método educativo no Oratório. Dom Bosco o quis junto a ele por ocasião da audiência que lhe foi concedida pelo beato Pio IX em 1858.

Em 1873, fundou a Congregação de São José, cujo fim apostólico foi, desde o começo, a formação da juventude, especialmente a mais pobre e abandonada. O ambiente de Turim nessa época foi marcado pelo intenso florescimento de obras e atividades caritativas promovidas por Murialdo até sua morte, ocorrida no dia 30 de março de 1900.

Quero sublinhar que o núcleo central da espiritualidade de Murialdo é a convicção do amor misericordioso de Deus: um Pai sempre bom, paciente e generoso, que revela a grandeza e imensidade da sua misericórdia com o perdão. Esta realidade foi experimentada por São Leonardo não no âmbito intelectual, mas existencial, mediante o encontro vivo com o Senhor.

Ele sempre se considerou um homem agraciado por Deus misericordioso: por isso viveu o sentido alegre da gratuidade ao Senhor, a serena consciência dos seus próprios limites, o desejo ardente de penitência, o compromisso constante e generoso de conversão.Ele via toda a sua existência na infinita misericórdia de Deus. Escreveu em seu Testamento Espiritual: “Tua misericórdia me cerca, ó Senhor (…). Como Deus está sempre e em todos os lugares, assim é amor sempre e em todos os lugares, é misericórdia sempre e em todos os lugares”.

Recordando o momento de crise que teve em sua juventude, anotava: “Eis aqui que o bom Deus queria fazer resplandecer mais uma vez sua bondade e generosidade de forma totalmente singular. Não só me admitiu novamente à sua amizade, mas me chamou para uma escolha de predileção: chamou-me ao sacerdócio, e isso apenas poucos meses depois da minha volta a Ele”.

São Leonardo viveu, por isso, a vocação sacerdotal como dom gratuito da misericórdia de Deus, com senso de reconhecimento, alegria e amor. Escreveu também: “Deus me escolheu! Ele me chamou, inclusive me obrigou à honra, à glória, à felicidade inefável de ser seu ministro, de ser ‘outro Cristo’… E onde estava eu quando me buscavas, meu Deus? No fundo do abismo! Eu estava lá, e até lá foi Deus para me buscar; lá, Ele me fez compreender sua voz…”

Sublinhando a grandeza da missão do sacerdote, que deve “continuar a obra da redenção, a grande obra de Jesus Cristo, a obra do Salvador do mundo”, isto é, a de “salvar as almas”, São Leonardo recordava sempre, a si mesmo e aos irmãos, a responsabilidade de uma vida coerente com o sacramento recebido. Amor de Deus e amor a Deus: foi esta a força do seu caminho de santidade, a lei do seu sacerdócio, o significado mais profundo do seu apostolado entre os jovens pobres e a fonte da sua oração.

São Leonardo Murialdo se abandonou com confiança nas mãos da Providência, realizando generosamente a vontade divina, no contato com Deus e dedicando-se aos jovens pobres. Dessa forma, ele uniu o silêncio contemplativo ao ardor incansável da ação; a fidelidade aos deveres de cada dia à genialidade das iniciativas; a força nas dificuldades à serenidade do espírito. Este é o seu caminho de santidade para viver o mandamento do amor a Deus e ao próximo.

Com o mesmo espírito de caridade, viveu – 40 anos antes de Murialdo – São José Benedito Cottolengo, fundador da obra chamada por ele mesmo de “Pequena Casa da Divina Providência”, conhecida hoje também como “Cottolengo”. No próximo domingo, em minha visita pastoral a Turim, venerarei as relíquias deste santo e visitarei os hóspedes da “Pequena Casa”.

José Benedito Cottolengo nasceu em Bra, pequena cidade da província de Cuneo, no dia 3 de maio de 1786. Primogênito de 12 filhos, dos quais 6 morreram na infância, mostrou desde pequeno grande sensibilidade pelos pobres. Abraçou o caminho do sacerdócio, imitado também por dois dos seus irmãos.

Os anos da sua juventude foram os da aventura napoleônica e dos conseguintes mal-estares no campo religioso e social. Cottolengo se converteu em um bom sacerdote, procurado por muitos penitentes e, na Turim dessa época, pregador de exercícios espirituais e conferências entre os estudantes universitários, onde colhia sempre um êxito notável.

Aos 32 anos, foi nomeado cônego da Santíssima Trindade, uma congregação de sacerdotes que tinha a tarefa de celebrar na igreja do Corpus Domini e de dar decoro às celebrações religiosas da cidade, mas naquele cargo ele se sentia inquieto. Deus o estava preparando para uma missão particular e, precisamente com um encontro inesperado e decisivo, deu-lhe a entender qual seria seu futuro destino no exercício do seu ministério.

O Senhor sempre coloca sinais em nosso caminho para guiar-nos, segundo sua vontade, ao verdadeiro bem. Para Cottolengo, isso aconteceu de forma dramática, na manhã de domingo do dia 2 de setembro de 1827. Chegou a Turim, procedente de Milão, a diligência, cheia como nunca de gente, na qual se apertava uma família francesa inteira, na qual a mulher, com cinco filhos, estava no final de uma gravidez e com febre alta. Após ter vagado por vários hospitais, essa família encontrou alojamento em um dormitório público, mas a situação da mulher continuou agravando-se e alguns começaram a procurar uma cura.

Por um misterioso desígnio, cruzaram com Cottolengo e foi precisamente ele, com o coração angustiado, quem acompanhou a morte dessa jovem mãe, em meio à dor de toda a família. Após ter concluído este doloroso dever, com o sofrimento no coração, inclinou-se diante do Santíssimo Sacramento e rezou: “Meu Deus, por quê? Por que me escolheste como testemunha? O que queres de mim? Preciso fazer alguma coisa!”.

Levantando-se, tocou todos os sinos, acendeu as velas e, acolhendo os curiosos na igreja, disse: “A graça aconteceu! A graça aconteceu!”. A partir daquele momento, Cottolengo se transformou: todas as suas capacidades, especialmente sua habilidade econômica e organizativa, foram utilizadas para dar vida a iniciativas de apoio aos mais necessitados.

Ele soube envolver em sua empresa dezenas e dezenas de colaboradores e voluntários. Mudando-se para a periferia de Turim para expandir sua obra, criou uma espécie de povoado, no qual cada edifício que conseguiu construir recebeu um nome significativo: “casa da fé”, “casa da esperança”, “casa da caridade”. Pôs em andamento o estilo das “famílias”, constituindo verdadeiras e próprias comunidades de pessoas, voluntários e voluntárias, homens e mulheres, religiosos e leigos, unidos para enfrentar e superar juntos as dificuldades que se apresentavam.

Cada um, nessa Pequena Casa da Divina Providência, tinha uma tarefa específica: uns trabalhavam, outros rezavam, uns serviam, outros lecionavam, alguns administravam. Sãos e doentes compartilhavam juntos o mesmo peso do dia a dia.

Também a vida religiosa se especificou no tempo, segundo as necessidades e exigências particulares. Ele pensou inclusive em um seminário próprio, para uma formação específica dos sacerdotes da Obra. Esteve sempre disposto a seguir a Divina Providência, nunca a questioná-la. Dizia: “Eu não sou bom em nada e nem sequer sei o que estou fazendo. A Divina Providência, no entanto, sabe certamente o que quer. Cabe a mim apenas segui-la. Adiante, in Domino“. Para os seus pobres e os mais necessitados, ele foi definido sempre como “o ajudante da Divina Providência”.

Junto às pequenas cidades, ele quis fundar também 5 mosteiros de religiosas contemplativas e um de eremitas, e os considerou entre as realizações mais importantes: uma espécie de “coração” que deveria bater para sustentar toda a Obra.

Cottolengo morreu no dia 30 de abril de 1842, pronunciando estas palavras: “Misericordia, Domine; Misericordia, Domine. Boa e Santa Providência (…). Virgem Santa, agora é a sua vez”. Sua vida, como escreveu um jornal da sua época, foi “uma intensa jornada de amor”.

Queridos amigos, estes dois santos sacerdotes, dos quais apresentei algumas características, viveram seu ministério em um dom total da vida aos mais pobres, aos mais necessitados, aos últimos, encontrando sempre a raiz profunda, a fonte inextinguível da sua ação na relação com Deus, bebendo do seu amor, na convicção profunda de que não é possível exercer a caridade sem viver em Cristo e na Igreja.

Que sua intercessão e seu exemplo continuem iluminando o ministério de tantos sacerdotes que se consomem com generosidade por Deus e pelo rebanho a eles confiado, e que ajudem cada um a entregar-se com alegria e generosidade a Deus e ao próximo.

[No final da audiência, o Papa cumprimentou os peregrinos em vários idiomas. Em português, disse:]

Queridos irmãos e irmãs:

Houve dois santos sacerdotes no século XIX que viveram o seu ministério na dedicação total aos mais pobres. A raiz profunda e a fonte inexaurível da sua atividade estavam na sua relação com Deus, conscientes de que não existe caridade sem viver em Cristo e na Igreja. O primeiro, São Leonardo Murialdo, experimentou a Misericórdia de Deus após uma crise existencial e espiritual na adolescência, e sentiu-se chamado ao sacerdócio, dedicando-se à juventude mais abandonada. Sabendo que a missão do sacerdote é “continuar a obra da redenção, a grande obra de Jesus”, não cessava de recordar a si mesmo e aos seus confrades a coerência com o sacramento recebido. O segundo, São José Cottolengo, foi chamado para dar os últimos sacramentos a uma jovem mulher grávida que morria por falta de cuidados adequados. Foi um sinal de Deus no seu caminho que o transformou: doravante será “o ajudante da divina Providência” ao serviço dos mais necessitados. Nascia, assim, a Pequena Casa da Divina Providência, cujo coração pulsante eram os mosteiros de religiosas contemplativas que ele fundara.

Uma saudação cordial aos peregrinos vindos do Brasil e demais países de língua portuguesa, contando com as vossas orações por todos os sacerdotes para que se dediquem sempre com mais generosidade a Deus e ao rebanho a eles confiado. E que Deus vos abençoe a vós e as vossas famílias. Ide em paz!

[Tradução: Aline Banchieri

©Libreria Editrice Vaticana]

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Médico, advogado, professor

Um médico, um advogado, um professor.

Três profissões maravilhosas. Pelo bem que fazem à sociedade, são às vezes equiparadas à uma vocação sobrenatural, um chamado divino.

Imagino um jovem que se decide pela medicina. Cheio de garra, de vontade de fazer o bem aos outros, de curar, de socorrer os mais fracos, de lutar pela justiça nos setores públicos… até sonha em achar a cura de uma doença como o câncer, a AIDS…

Um outro que acabou de fazer, com tantas lutas e sacrifícios, todas as etapas para ser aprovado na OAB, que sonha em defender grandes causas, colocar na cadeia criminoso e sanar grandes injustiças.

Talvez ainda mais lindo e menos reconhecido de todos é aquele que adentra pela área do magistério. O sonho de moldar uma criança e fazê-la cidadã do mundo, construir as mentalidades para uma nova sociedade, ser modelo para os jovens e para as novas gerações um referencial.

Acho que, em diversas áreas, quase todo jovem se identifica aqui nessas palavras acima citadas. Até um vocacionado ao sacerdócio, um jovem padre.

Mas… sim, tem que haver um “porém”, as coisas não continuam exatamente assim como sonhamos na juventude. Muitas vezes as contradições, os desafios, as lutas para realizar os mais lindos sonhos parecem maiores do que nós. Vem, para a maioria dos casos nas três profissões acima, o casamento, a mulher/o marido, os filhos, as contas a pagar, a rotina… Os desejos de conforto, segurança, bem intencionados até. Os sonhos “financeiros”, as decepções com colegas, com as empresas, com o governo que nunca muda…

Então, aquele plantão no hospital com falta de remédios e com uma equipe enfadonha já não é o que se possa dizer “que legal!”; aqueles alunos barulhentos, mimados, com pais que fazem tudo o que eles querem, com diretores que olham mais para o carnê de mensalidades que para o boletim, não é exatamente a “construção de uma sociedade democrática”. Juízes corruptos, colegas gananciosos, leis que nunca se aplicam a quem não pode pagar bem vão torrando até o último grama de paciência e de desejo de dedicação.

Os anos vão passando, e os nossos três heróis já não têm 25 anos, mas sim 39, 45… cabelos brancos, calvície, barriguinha protuberante pela cervejinha do final de semana, filhos adolescentes exigindo as últimas invenções do Jobs ou do Gates ou de quem quer que esteja na moda… e nada mudou! Não, na verdade, mudou sim, mudou a disposição, o alento, a garra, o sonho esvaneceu.

Mas, o que pode substituir o sonho? Como colocar algo no lugar da realização de minha juventude? Fácil pensar, na verdade, não se pensa, as coisas acontecem naturalmente. De repente, lá está nosso ex-jovem defendendo um culpado no tribunal só porque ele lhe paga muito bem; passando informações na sala de aula só porque o colégio exige excelência, na verdade, exige que sejam repassados todas as dicas, os “bizus” para o vestibular, não importando minimamente se aquilo forma realmente um cidadão. Lá está nosso doutor preferindo as clínicas ricas, e fazendo todo tipo de jogo de cintura para escapar daquilo que custaria sacrifício para salvar vidas, afinal, sempre foi assim, quem se importa? Mais um, menos um não faz diferença…

Puxa vida, que pessimismo! Sim, caríssimos, graças a Deus que isso não é tão generalizado assim. Talvez você tenha até ficado revoltado em pensar em tantos bons professores, dedicados e doados aos alunos como se fossem filhos; tantos bons advogados que favorecem sempre os pobres e não permitem que as injustiças se perpetuem no nosso tão sofrido Brasil; tantos médicos que se consomem para que outros tenham um atendimento cheio de respeito, mesmo que sejam pobres, sujos, ignorantes… Seria uma injustiça generalizar, não é? Seria muito sério falar mal dessas três profissões por causa de alguns que se corrompem. Seria terrível dizer que os professores de educação física são pedófilos porque há vários casos nessa área, ou que os médicos são uns assassinos porque há alguns sem escrúpulos e por aí vai…

Já perceberam onde eu quero chegar? Obvio. Assim como nessas lindas e maravilhosas “vocações” há quem se perca no caminho, quem abandone seus sonhos, quem não consegue mais olhar para trás e ver de onde tudo isso partiu e que alento o levou a enfrentar tantos sacrifícios para se formar e obter o título tão honroso de médico, professor, advogado… etc., a mesma coisa pode acontecer, e acontece, infelizmente, com o padre.

Ele pode esquecer o seu primeiro chamado, os seus sonhos de seminarista. Pode aposentar o seu breviário (livro de orações) porque, afinal, há muitas reuniões a serem conduzidas. Ele pode deixar mofar os seus livros de espiritualidade, de teologia. Pode empolgar-se (por que não?) com coisas que não deveriam ofuscar a sua mente como o dinheiro, o conforto, as relações sociais favoráveis. Sim, ele, como todo ser humano pode se corromper, como qualquer um, na solidão da paróquia, no perder-se em coisas que realmente não fazem parte dos sonhos de sua juventude.

Quando, para qualquer um, se perde a esperança, se abandona os sonhos, só resta a amargura de entregar-se aos prazeres passageiros. Aí vem à tona aquilo que a graça de Deus, alimentada na oração e no amor, já havia há muito derrotado. Vem à tona os instintos mais baixos, porque afinal, o celibato, a fidelidade, não faz mais sentido. Nada muda, todos são iguais, etc.

É triste. Pode acontecer. Acontece. Mas não é a maioria. E não podemos desistir de lutar, não podemos querem acabar com as maravilhosas carreiras, profissões e funções que tanto bem fazem à sociedade, mesmo que existam advogados, professores, médicos e… padres, que nos envergonhem, podemos e devemos renovar as nossas forças e fincar com mais coragem e empenho a bandeira da justiça, da verdade e do amor ao próximo que defendemos.

Para concluir, vou contar um testemunho pessoal. Quando eu era adolescente, as coisa não eram diferentes. No mundo haviam santos e pecadores, honestos e injustos, trigo e joio, e, como todo jovem, eu começava a perceber isso. Eu tinha um grande amigo de escola que era protestante, ele queria ser pastor e eu queria ser padre, mas éramos muito amigos. Um dia eu disse a ele que, quando mais eu descobria ou via coisas erradas, coisas com as quais eu não concordava, padres que para mim não eram modelo, mais eu queria ser padre. Os maus exemplos alimentaram minha vocação! Sim, eu queria ainda mais ser padre para poder ser diferente daquilo que eu não gostava.

Hoje eu digo para os meus filhos espirituais (são muitíssimos!): quero ser para vocês aquilo que eu gostaria de ter tido quando eu era o que vocês são.

Pensem nisso.

Deus os abençoe.

Lembrar-se ininterruptamente de Deus

Quem quiser purificar o coração, não cesse, portanto, de abrasá-lo pele lembrança de Jesus. Que seja o seu único exercício e seu trabalho ininterrupto. Quando se quer eliminar a própria podridão, não há momento de orar e momento de não orar; é necessário consagrar-se sempre à oração, guardando o intelecto, mesmo estando fora da casa de oração. Quem purifica o minério de ouro tem apenas de deixar baixar, por algum tempo, o fogo da fornalha, e a matéria que queria purificar volta à sua dureza. Do mesmo modo, quem se lembra de Deus em alguns momentos, noutros não, perde pela interrupção o que crê obter pela oração. O homem que ama a virtude é aquele que não cessa de eliminar do coração do elemento terreno, através da lembrança de Deus; assim, pouco a pouco, o mal se dissipa à lembrança do bem e a alma volta com perfeição e seu esplendor natural e glorioso.

(Diádoco de Fótico, Bispo do século V)

Papa aos Sacerdotes

CIDADE DO VATICANO, quarta-feira, 14 de abril de 2010 (ZENIT.org).- Apresentamos, a seguir, a catequese dirigida pelo Papa aos grupos de peregrinos do mundo inteiro, reunidos na Praça de São Pedro para a audiência geral.


Queridos irmãos e irmãs:

Neste período pascal, que nos conduz a Pentecostes e que nos encaminha também às celebrações de encerramento do Ano Sacerdotal, programadas para os dias 9, 10 e 11 de junho, quero dedicar ainda algumas reflexões ao tema do ministério ordenado, detendo-me na realidade fecunda da configuração do sacerdote com Cristo Cabeça, no exercício dos tria munera que recebe, isto é, das três funções de ensinar, santificar e governar.

Para compreender o que significa agir in persona Christi Capitis – na pessoa de Cristo Cabeça – por parte do sacerdote, e para entender também que consequências derivam da tarefa de representar o Senhor, especialmente no exercício destas três funções, é necessário esclarecer antes de mais nada o que se entende por “representação”.

O sacerdote representa Cristo. O que quer dizer “representar” alguém? No senso comum, quer dizer, geralmente, receber uma delegação de uma pessoa para estar presente em seu lugar, falar e agir em seu lugar, porque aquele que é representado está ausente da ação concreta. Nós nos perguntamos: o sacerdote representa o Senhor da mesma forma? A resposta é não, porque, na Igreja, Cristo nunca está ausente, a Igreja é seu corpo vivo e a Cabeça da Igreja é Ele, presente e operante nela. Cristo nunca está ausente; pelo contrário, está presente de uma forma totalmente livre dos limites do espaço e do tempo, graças ao acontecimento da Ressurreição, que contemplamos de modo especial neste tempo da Páscoa.

Portanto, o sacerdote que age in persona Christi Capitis e em representação do Senhor; não age nunca em nome de um ausente, mas na própria pessoa de Cristo Ressuscitado, que se faz presente com sua ação realmente eficaz. Age realmente e realiza o que o sacerdote não poderia fazer: a consagração do vinho e do pão, para que sejam realmente presença do Senhor, a absolvição dos pecados. O Senhor faz presente sua própria ação na pessoa que realiza estes gestos.

Estas três funções do sacerdote – que a Tradição identificou nas diferentes palavras de missão do Senhor: ensinar, santificar e governar -, em sua distinção e profunda unidade, são uma especificação desta representação eficaz. Estas são, na verdade, as três ações do Cristo ressuscitado, o mesmo que hoje, na Igreja e no mundo, ensina e, assim, cria fé, reúne seu povo, cria presença da verdade e constrói realmente a comunhão da Igreja universal, santifica e guia.

A primeira função sobre a qual eu gostaria de falar hoje é o munus docendi, isto é, a tarefa de ensinar. Hoje, em plena emergência educativa, o munus docendi da Igreja, exercido concretamente por meio do ministério de cada sacerdote, é particularmente importante. Vivemos em uma grande confusão sobre as escolhas fundamentais da nossa vida e os interrogantes sobre o que é o mundo, de onde vem, para onde vamos, o que temos que fazer para realizar o bem, como temos que viver, quais são os valores realmente pertinentes. Em relação a tudo isso, existem muitas filosofias opostas, que nascem e desaparecem, criando uma confusão sobre as decisões fundamentais, como viver, porque já não sabemos, normalmente, de que e para que fomos criados e para onde vamos. Nesta situação, realiza-se a palavra do Senhor, que teve compaixão da multidão porque era como ovelhas sem pastor (cf. Mc 6, 34).

O Senhor havia feito esta constatação quando viu milhares de pessoas que o seguiam no deserto, porque, na diversidade das correntes daquela época, já não sabiam qual era o verdadeiro sentido da Escritura, o que Deus dizia. O Senhor, movido pela compaixão, interpretou a Palavra de Deus, Ele mesmo é a Palavra de Deus, e deu, assim, uma orientação. Esta é a função in persona Christi do sacerdote: fazer presente, na confusão e na desorientação da nossa época, a luz da Palavra de Deus, a luz que é o próprio Cristo neste nosso mundo.

Portanto, o sacerdote não ensina ideias próprias, uma filosofia que ele mesmo inventou, encontrou ou da qual gosta; o sacerdote não fala a partir de si mesmo, não fala por si mesmo, talvez para criar admiradores ou um partido próprio; não diz coisas próprias, invenções próprias, mas, na confusão de todas as ideologias, o sacerdote ensina em nome de Cristo presente, propõe a verdade, que é o próprio Cristo, sua Palavra, seu modo de viver e ir adiante. Para o sacerdote, vale o que Cristo disse de si mesmo: “Minha doutrina não é minha” (Jo 7, 16), isto é, Cristo não propõe ele mesmo, mas, como Filho, é a voz, a Palavra do Pai. Também o sacerdote deve dizer sempre e agir assim: “Minha doutrina não é minha, não propago minhas ideias ou aquilo de que eu gosto, mas sou a boca e o coração de Cristo e faço presente esta doutrina única e comum, que criou a Igreja universal e que cria vida eterna”.

Este fato, ou seja, que o sacerdote não inventa, não cria nem proclama ideias pessoais porque a doutrina que ele anuncia não é sua, mas de Cristo, não significa, por outro lado, que ele seja neutro, quase como um porta-voz que lê um texto do qual talvez não se apropria. Também neste caso vale o modelo de Cristo, que disse: Eu não venho por mim mesmo e não vivo por mim mesmo, mas venho do Pai e vivo pelo Pai. Por isso, nesta profunda identificação, a doutrina de Cristo é a do Pai e Ele mesmo é um com o Pai.

O sacerdote que anuncia a Palavra de Cristo, a fé da Igreja e não suas próprias ideias, deve dizer também: Eu não vivo de mim e para mim, mas vivo com Cristo e de Cristo e, por isso, o que Cristo nos disse se converte na minha palavra, ainda que não seja minha.

A vida do sacerdote deve identificar-se com Cristo e, dessa forma, a palavra não própria se converte, no entanto, em uma palavra profundamente pessoal. Santo Agostinho, sobre este tema, falando dos sacerdotes, disse: “E nós, o que somos? Ministros (de Cristo), seus servidores; porque o que vos distribuímos não é nosso, mas tirado da sua despensa. E também nós vivemos dela, porque somos servos como vós” (Discurso 229/E, 4).

O ensinamento que o sacerdote está chamado a oferecer – as verdades da fé – deve ser interiorizado e vivido em um intenso caminho espiritual e pessoal, para que, assim, o sacerdote realmente entre em uma profunda e interior comunhão com o próprio Cristo. O sacerdote crê, acolhe e tenta viver, antes de tudo como seu, o que o Senhor ensinou e a Igreja transmitiu, nesse percorrido de ensimesmamento com o próprio ministério, do qual São João Maria Vianney é uma testemunha exemplar (cf. Carta para a proclamação de um Ano Sacerdotal). “Unidos na mesma caridade – afirma novamente Santo Agostinho -, todos somos ouvintes d’Aquele que é para nós no céu o único Mestre” (Enarr. in Ps. 131, 1, 7).

A voz do sacerdote, por conseguinte, frequentemente poderia parecer “voz que grita no deserto” (Mc 1, 3), mas precisamente nisso consiste sua força profética: no não ser nunca homologado nem homologável a uma cultura ou mentalidade dominante, mas em mostrar a única novidade capaz de operar uma renovação autêntica e profunda do homem, isto é, que Cristo é o Vivente, é o Deus próximo que age na vida e para a vida do mundo e nos oferece a verdade, a maneira de viver.

Na preparação atenta da pregação festiva, sem excluir a ferial, no esforço de formação catequética, nas escolas, nas instituições acadêmicas e, de maneira especial, por meio desse livro não escrito que é sua própria vida, o sacerdote é sempre “docente”, ele ensina. Mas não com a presunção de quem impõe verdades próprias, e sim com a humilde e alegre certeza de quem encontrou a Verdade, foi agarrado e transformado por ela e, por isso, não pode senão anunciá-la. O sacerdócio, de fato, não pode ser escolhido por ninguém, não é uma forma de alcançar a segurança na vida, de conquistar uma posição social: ninguém pode oferecê-lo nem buscá-lo por si só. O sacerdócio é uma resposta ao chamado do Senhor, à sua vontade, para chegar a ser anunciadores não de uma verdade pessoal, mas da Sua verdade.

Queridos irmãos sacerdotes, o povo cristão pede para escutar dos nossos ensinamentos a genuína doutrina eclesial, para, por meio dela, poder renovar o encontro com Cristo que dá a alegria, a paz, a salvação. A Sagrada Escritura, os escritos dos Padres e dos Doutores da Igreja, o Catecismo da Igreja Católica são, a este respeito, pontos de referência imprescindíveis no exercício do munus docendi, tão essencial para a conversão, para o caminho de fé e para a salvação dos homens. “Ordenação sacerdotal significa ser imersos (…) na Verdade” (Homilia para a Missa Crismal, 9 de abril de 2009), essa Verdade que não é simplesmente um conceito ou um conjunto de ideias a serem transmitidas e assimiladas, mas é a Pessoa de Cristo, com a qual, pela qual e na qual se vive e, assim, necessariamente, nasce também a atualidade e a compreensibilidade do anúncio. Somente esta consciência de uma Verdade feita Pessoa na Encarnação do Filho justifica o mandato missionário: “Ide pelo mundo inteiro e proclamai a Boa Nova a toda a criação” (Mc16, 15). Somente sendo a Verdade, está destinado a toda criatura, não é uma imposição de algo, mas a abertura do coração àquilo por que foi criado.

Queridos irmãos e irmãs: o Senhor confiou aos sacerdotes uma grande tarefa: ser anunciadores da sua Palavra, da Verdade que salva; ser sua voz no mundo, para levar aquilo que contribui para o verdadeiro bem das almas e para o autêntico caminho de fé (cf. 1 Cor 6, 12).

Que São João Maria Vianney sirva de exemplo para todos os sacerdotes. Ele era homem de grande sabedoria e força heroica em resistir às pressões culturais e sociais da sua época, para poder levar as almas a Deus: simplicidade, fidelidade e imediatismo eram as características essenciais da sua pregação, da transparência da sua fé e da sua santidade. O povo cristão era assim edificado e, como acontece com os autênticos mestres de todos os tempos, reconhecia nele a luz da Verdade; reconhecia nele, em definitivo, o que sempre deveria ser reconhecido em um sacerdote: a voz do Bom Pastor.

[No final da audiência, o Papa cumprimentou os peregrinos em vários idiomas. Em português, disse:]

Queridos irmãos e irmãs:

No decorrer deste Ano Sacerdotal, gostaria ainda de dedicar algumas reflexões sobre o tema do Ministério Ordenado. O sacerdote, configurado com Cristo cabeça, não o representa como se ele estivesse ausente, mas, ao contrário, atua na mesma Pessoa de Cristo. Assim sendo, as três funções fundamentais do sacerdote – ensinar, santificar e governar -, são na realidade ações do próprio Cristo Ressuscitado. O munus docendi, ou seja, a função de ensinar, deve ser exercida pelo sacerdote não como uma apresentação das suas ideias pessoais, mas como um anúncio daquilo que Deus revelou de si. Estas verdades devem ser, em primeiro lugar, acolhidas e vividas pelo próprio sacerdote. Com efeito, o sacramento da Ordem leva o sacerdote a estar imerso na Verdade, uma Verdade que é muito mais do que um conceito; uma Verdade que é uma pessoa: Jesus Cristo.

Amados peregrinos de língua portuguesa, sede bem-vindos! A todos saúdo com grande afeto e alegria, de modo especial a quantos vieram do Brasil e de Portugal com o desejo de encontrar o Sucessor de Pedro. Desça a minha bênção sobre vós, vossas famílias e comunidades. Muito obrigado!

[Apelo lançado após as saudações:]

Meu pensamento se dirige à China e às populações atingidas por um forte terremoto, que causou numerosas perdas em vidas humanas, feridos e ingentes danos. Rezo pelas vítimas e estou espiritualmente perto das pessoas provadas por essa tão grande calamidade; para elas, imploro a Deus alívio no sofrimento e coragem nestas adversidades. Desejo que não falte a solidariedade comum.

[Tradução: Aline Banchieri

©Libreria Editrice Vaticana]

ANO SACERDOTAL

O ENCERRAMENTO DO ANO SACERDOTAL


Caros Presbíteros,

A Igreja sem dúvida está muito feliz com o Ano Sacerdotal e agradece ao Senhor por haver inspirado o Santo Padre a decidir sua realização. Todas as informações que chegam aqui a Roma sobre as numerosas e multíplices iniciativas programadas pelas Igrejas locais no mundo inteiro para realizar este ano especial constituem a prova de como foi bem recebido e – podemos dizer – correspondeu a um verdeiro e profundo anseio dos presbíteros e de todo o povo de Deus. Estava na hora de dar uma atenção especial de reconhecimento e de empreendimento em favor do grande, laborioso e insubstituível presbitério e de cada presbítero da Igreja.

É verdade que alguns, mas proporcionalmente muito poucos, pesbíteros cometeram horríveis e gravíssimos delitos de abuso sexual contra menores, fatos que devemos rejeitar e condenar de modo absoluto e intransigente. Devem eles responder diante de Deus e diante dos tribunais, também civis. Mas estamos antes de mais nada do lado das vítimas e queremos dar-lhes apoio tanto na recuperação como em seus direitos ofendidos.

Por outro lado, os delitos de alguns não podem absolutamente ser usados para manchar o inteiro corpo eclesial dos presbíteros. Quem o faz, comete uma clamorosa injustiça. A Igreja, neste Ano Sacerdotal, procura dizer isto à sociedade humana. Qualquer pessoa de bom senso e boa vontade o entende.

Dito necessariamente isso, voltamos a vós, caros presbíteros. Queremos dizer-vos, mais uma vez, que reconhecemos o que sois e o que fazeis na Igreja e na sociedade. A Igreja vos ama, vos admira e vos respeita. Sois também alegria para nossa gente católica no mundo, que vos acolhe e apoia, principalmente nestes tempos de sofrimentos.

Daqui a dois meses chegaremos ao encerramento do Ano Sacerdotal. O Papa, caros sacerdotes, convida-vos de coração a vir de todo o mundo a Roma para este encerramento nos dias 9, 10 e 11 de junho próximo. De todos os países do mundo. Dos países mais próximos de Roma dever-se-ia poder esperar milhares e milhares, não é verdade? Então, não recuseis o convite premuroso e cordial do Santo Padre. Vinde e Deus vos abençoará. O Papa quer confirmar os presbíteros da Igreja. A vossa presença numerosa na Praça de São Pedro constituirá também uma forma propositiva e responsável de os presbíteros se apresentarem, prontos e não intimidados, para o serviço à humanidade, que lhes foi confiado por Jesus Cristo. A vossa visibilidade na praça, diante do mundo hodierno, será uma proclamação do vosso envio não para condenar o mundo, mas para salvá-lo (cfr. Jo 3,17 e 12,47). Em tal contexto, também o grande número terá um significado especial.

Para essa presença numerosa dos presbíteros no encerramento do Ano Sacerdotal, em Roma, há ainda um motivo particular, que a Igreja hoje tem muito a peito. Trata-se de oferecer ao amado Papa Bento XVI nossa solidariedade, nosso apoio, nossa confiança e nossa comunhão incondicional, diante dos frequentes ataques que lhe são dirigidos, no momento atual, no âmbito de suas decisões referentes aos clérigos incursos nos delitos de abuso sexual contra menores. As acusações contra o Papa são evidentemente injustas e foi demonstrado que ninguém fez tanto quanto Bento XVI para condenar e combater corretamente tais crimes. Então, a presença massiva dos presbíteros na praça com Ele será un sinal forte da nossa decidida rejeição dos ataques de que è vítima. Portanto, vinde também para apoiar o Santo Padre.

O encerramento do Ano Sacerdotal não constituirá propriamente um encerramento, mas um novo início. Nós, o povo de Deus e os pastores, queremos agradecer a Deus por este período privilegiado de oração e de reflexão sobre o sacerdócio. Ao mesmo tempo, propomo-nos de estar sempre atentos ao que o Espírito Santo quer nos dizer. Entretano, voltaremos ao serviço de nossa missão na Igreja e no mundo com alegria renovada e com a convicção de que Deus, o Senhor da história, fica conosco, seja nas crises seja nos novos tempos.

A Vrigem Maria, Mãe e Rainha dos sacerdotes, interceda por nós e nos inspire no seguimento de seu Filho Jesus Cristo, nosso Senhor.

Roma, 12 de abril de 2010.


Cardeal Cláudio Hummes

Arcebispo Emérito de São Paulo

Prefeito da Congregação para o Clero