Cultura

Há alguns meses, talvez anos, observo reportagens e crônicas sobre um problema tão antigo quando o Brasil: o baixo nível da educação no nosso país.

É triste sermos comparados com outros países e encontrarmo-nos nos últimos lugares. Outro dia, vi uma coluna em uma importante revista em que o autor colocava um dado alarmante: somente cerca de 30% da população brasileira é verdadeiramente alfabetizada, simplesmente porque somente essa porcentagem tão baixa seria capaz de entender que o seu texto dizia isso. Bom, fico já conformado com os pouquíssimos leitores desse meu artigo.

Parece-me uma piada descabida quando nos jornais, na imprensa, inclusive internacional, aponta-se o Brasil como já entre as grandes nações. Qualquer brasileiro que teve a sorte de visitar o chamado “primeiro mundo”, mesmo com uma visão bem limitada como a minha, sabe o quão correta é a analogia hiperbólica da distância “anos-luz” que se pode aplicar aqui.

Não refiro-me a saber matemática aplicada, ou as inovações tecnológicas da mecatrônica (pra falar a verdade, nem eu mesmo sei o que é isso…). Refiro-me ao básico mesmo, ao simples compreender, como dizia o autor da coluna citada, esse texto.

Talvez você, como eu, algum tempo atrás pensasse que isso fosse um grande exagero, porque, afinal, todos os seus colegas, amigos, parentes, saberiam ler e interpretar um texto simples. Bom, em primeiro lugar: você tem certeza disso? Sua mãe, seu avô, seus tios, saberiam todos ler e interpretar esse texto tão simples? Talvez sim. Mas, e sua empregada? Ah, você tem empregada? Uma senhora ou uma jovem que ganha para lhe servir? Ganha quanto mesmo?

Ok. Entendi. Ela não… estudou para ganhar mais, não foi? Que bom! Senão, quem iria lavar sua roupa?

Mas voltemos ao assunto, porque estamos falando aqui de educação, e não da ausência dela. Seria a mesma coisa? Melhor dizendo, não ter educação igual para todos não seria simplesmente uma forma de dizer que a educação é péssima? Que perpetuamos a abissal divisão de classes, que continuamos a ter uma minoria favorecida (que sabe ler esse texto) e uma maioria desfavorecida (que não tem sequer acesso a um computador com internet para ler esse texto).

Mas o governo tem dado uma boa ajuda para acabar com essas divisões. É simples: vamos dar cotas de participação para as classes desfavorecidas: negros, índios, pobres… Pronto, eles têm agora vaga garantida nas universidades. Até mesmo se for membro do MST vale, o importante é ter a carteirinha. Então está resolvido o problema: ao lado dos riquinhos, filhinhos de papai que estudaram em escolas caríssimas, contribuindo forçosamente para a máfia da educação, para os bem pagos “passadores” da loteria do vestibular (mas vamos esquecer disso, entra em jogo agora o ENEM, que como dizem os jovens meus amigos, significa: Eu Nem Estudo Mais) – ao lado desses, estão os pobres desfavorecidos da sociedade brasileira, com igual condições de cursar porque entraram na “cota”. Meu Deus, só apelando mesmo! Que humilhação! Que igualdade é essa? Que justiça é essa? Esses brasileiros, tão dignos quanto quaisquer outros, deveriam sim, entrar nas melhores faculdades, mas porque sabem tanto quanto os estudantes das caras escolas particulares, porque tiveram oportunidade de estudar e serem bem formados desde a infância nas escolas públicas… olhem o verbo do início… o modo… deveriam!

Mas deixa de papo sério, não combina comigo. Vou falar de um SMS, muito mais jovem e mais legal. Outro dia recebi um SMS com um texto que não vou escrever aqui, mas digo que foi de alguém que já cursou todo o ensino médio e, TEORICAMENTE, estaria apto a prestar exame vestibular. Dentre outras aberrações, no pequeno texto vinha escrita a palavra “bruza”. Você sabe o que é isso? Fora de contexto fica difícil, não é? Mas, a bruza é a tradução da realidade da nossa educação, é o sinônimo da desigualdade, é a tristeza de um país que se propaga às portas do primeiro mundo, como Alice.

Enquanto isso, eu mergulho nos meus livros. Tantos… Sou mais viciado em comprá-los do que em lê-los, mas ao menos leio alguns e os funcionários das grandes livrarias de nossa cidade de Fortaleza de tanto me verem toda semana já devem ter decorado minha cara. Sim, entre os livros se encontra a cultura, que, afinal, é o nome de uma importante livraria de abrangência nacional que abriu recentemente uma filial na nossa capital cearense, na zona mais nobre, no bairro mais rico da cidade, claro. Quando fiz minha primeira gloriosa compra nessa livraria, acho que um livro sobre mitologia grega (que ainda não li) ouvi do funcionário que me atendeu, ao entregar-me a nota fiscal, a seguinte frase em alto e bom tom: “seje bem-vindo à Cultura!”

4 pensamentos sobre “Cultura

  1. ENEM – Eu Nem Estudo Mais é uma grande verdade! Parabéns pelo artigo, muito bom. Infelizmente, no Brasil, a educação vem sendo tratada como um probleminha a ser esquecido. Junto com a segurança, que faz de Fortaleza uma bela Terra de Ninguém.

  2. Triste… mas bruza, sinceramente, mais triste ainda!
    Por que é que quase ninguém quer investir na educação fundamental pública? Aí, pra dizer que o pessoal tem acesso à universidade, inventa essas cotas, em vez de melhorar o nível do ensino e fazê-los concorrer de igual para igual com os estudantes da rede privada…
    Esse Brasil…

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