Igreja Santa

Dona Maria lava roupa todos os dias. É sua profissão, sua mal remunerada atividade. Durante os esfregões e sacudidelas, ela canta os cânticos da Igreja, acompanhando pelo radinho ligado na freqüência católica.

José é um pai de família muito atarefado. Vive correndo de um lado para o outro com seus dois celulares sempre ao ouvido. De segunda a sábado. Mas domingo conhecemos outro homem, completamente diferente. Até suas roupas são diferentes, sou sorriso, sua postura. Tudo muda. Aquele dia é sagrado. Ele acorda cedo, como sempre, mas programa lazeres com a família, brinca de futebol com os filhos, leva as filhas para passear no shopping e a esposa para o cinema. Mas, de todas as suas atividades, a mais sagrada é a missa das 18h. Tudo gira em função disso e tudo é programado pelo que se pode fazer antes ou depois da Missa. Se há um programa diferente, uma viagem mais longa, então entra na programação onde e como participar da Santa Missa. Lá, a família reunida ouve a Palavra de Deus, comunga, reza. Há outros momentos importantes de oração durante a semana: antes de dormir, na hora da refeição… Antes de ir ao trabalho ele sempre encontra tempo para ler o evangelho da liturgia do dia pois daí tira o direcionamento de Deus para tudo o que irá acontecer depois. Mas a Eucaristia dominical é mais que séria. Compromisso inviolável pois uma semana sem Eucaristia é uma desgraça!

Padre Natanael vive em uma vila perdida no interior da região amazônica. A última vez que falou com a sua família foi há seis meses quando fez uma rápida viagem a Manaus de barco. Já pegou trinta e sete vezes malária nos catorze anos que vive em Marajurú. Não pode ir ao enterro da mãe. Acorda pontualmente às 4h da madrugada todos os dias e permanece em oração e leituras espirituais até as seis e meia, quando toma o seu café e parte para a atividade pastoral: visitar as sessenta e quatro aldeias que estão sobre sua responsabilidade. Já fez de tudo na vida: desde sugar veneno de cobra até parto de urgência. Nos seus sessenta e três anos de idade, considera-se o homem mais feliz e rico do mundo.

Essas pessoas que citei acima não existem. Tem certeza? Você acha mesmo que elas são uma mera ficção? Sim e não. Sim, porque realmente esses nomes, e lugares eu inventei. Não, porque existe uma multidão incontável de pessoas como essas, em situações das mais variadas possíveis, das mais esdrúxulas. Vidas felizes, com dificuldades sérias ou comuns, que são guiadas pela fé no Cristo Jesus. Católicos que amam a Igreja como sua família, que vivem com os irmãos e se doam a eles.

As histórias poderiam ser infinitas. Nos 2000 anos de existência, nos rios de sangue e lágrimas derramados por amor, nas situações mais escondidas e inexoravelmente perdidas pela história, até aquelas mais eclatantes, gritantes. Às vezes, Deus faz aparecer uma dessas histórias escondidas, virtudes silenciosas e totalmente obscuras aos olhares do mundo, como Santa Terezinha do Menino Jesus. Mas a maioria, a grandíssima maioria, fica no silêncio do amor.

Vou contar agora uma história verídica: uma vez estava eu confessando em um lugar e chega uma senhora ainda jovem. Eu, na boa vontade de “evangelizar” comecei a fazer perguntas sobre sua vida de oração, se ela rezava todos os dias, se ela lia a Bíblia, etc. Ela começou dizendo que não lia a Bíblia porque era analfabeta. Mas, todos os dias, ao acordar, ela pegava uma Bíblia e abria em uma página qualquer, então, colocava a mão sobre a página e fechava os olhos, esperava um pouco e virava a página fazendo o mesmo gesto, dando a entender que ela queria ler, mas como não podia, que Deus fizesse penetrar no seu coração o que estava escrito ali. Não me dando por satisfeito de tamanho testemunho, eu continuei perguntando se ela rezava o terço. Ela me respondeu que não, rezava o rosário. E que tinha ficado morta de vergonha pois não sabia que o Papa João Paulo II havia aumentado um terço ao rosário, mas que depois que ela soubera disso, passou a rezar todos os quatro terços diariamente. Ainda não me dando por convencido da santidade da mulher, eu ainda tive coragem de perguntar se ela pagava o dízimo. Aí ela me respondeu que teve uma grande alegria em relação a isso. Como ela era muito pobre, recebia do “bolsa família” o que dava para comer e pagar algumas poucas contas, pensava que não tinha condições de pagar o dízimo. Mas então, o pároco disse na Missa que não importava a quantidade mas sim a fidelidade e, mesmo que a pessoa só pudesse dar um ou dois reais por mês, podia se inscrever como dizimista. A mulher abrindo um grande sorriso de satisfação me contou então que, desde aquele dia, havia realizado o seu sonho de ser dizimista e era muito feliz por isso. Ela dava todos os meses quatro reais, dois por ela, e dois pelo marido que não queira devolver o dízimo.

Quando você escuta falar a Palavra Igreja, o que lhe vem à mente? O Vaticano? Os padres? O Santo Padre? Lhe vêm à mente a imagem de grandes catedrais ou de reuniões de bispos? Você já parou para pensar que a Igreja somos nós? Eu, você, cada cristão batizado desde o Pentecostes até hoje nas paróquias mais ricas ou pobres do mundo. Cada um de nós formamos a Igreja, o Corpo Místico de Cristo. Sim, assim como o Corpo de Jesus é Santo, glorioso, mas ao mesmo tempo trás as marcas dos pregos e da lança, nós somos repletos da Santidade de Jesus, mas trazemos as marcas do nosso pecado, do pecado de cada um, leigo, religioso, monge, padre… Porém, jamais nos esqueçamos que a Santidade da Igreja é a Santidade de Cristo que resplandece nos seus filhos, nas suas ovelhas que somos nós. Essa santidade supera, e muito, as feridas das nossas fraquezas.

Bendito seja Deus!

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