A teimosa perseverança

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Sabe aquele cara que é teimoso de nascimento? Que dava chute na barriga da mãe pra sair logo? Que diz que quer uma coisa e não abre mão nem por 100 e uma cocada (é o novo!!!)?

Pois é, se você sempre foi criticado por isso, seus professores, seus pais, seus colegas sempre te encheram a paciência e te pediram para ser um pouco menos intransigente, eu tenho uma boa notícia para você: você tem um lugar ao sol nesse planeta, na verdade, nesse não, no outro mundo, mas não se preocupe, não precisa fazer transplante de antenas.

Vamos ao que interessa. Eu descobri a roda. Descobri que você pode aproveitar a sua intransigência de nascença para ser santo. Isso mesmo! Para ser santo. Aliás, quanto mais intransigente, quanto mais teimoso, melhor. Como se dá isso? Simples: todo mundo já passou por aquela situação de desânimo, que não aguenta mais, que quer projetar com força a protuberância do seu membro inferior direito (no caso de ser um destro) na haste de sustentação da tenda de abrigo em locais abertos[1] com a intenção de… bom, deixa pra lá. Foi ou não foi? O que? Vai bem dizer que não? Claro que sim. É aquele momento que você pensa: vou deixar o grupo de oração, não adianta mais, vou sair da minha comunidade, vou deixar de ir pra Missa, vou parar de rezar… e por aí vai. Isso é tão comum, tão freqüente que dá dó. Penso que mais que dó, uma verdadeira dor de amor acontece no coração de Deus quando nós somos atacados por tamanha tentação e sucumbimos a ela.

Pois é, eu tenho uma dica muito simples: é a TEIMOSA PERSEVERANÇA. O que seria isso? Santa Teresa criou a “determinada determinação”, mas a minha “teimosa perseverança” é diferente da dela (que é uma santa!). A teimosa perseverança é a virtude dos pecadores como eu, como você, aquele povinho assim bem fraco, sabe como é? É assim: o cara peca (qualquer pecado) e aí, se ele quer ser santo, quer amar a Deus, o normal é que ele se arrependa. Até aí tudo bem, mas o problema é que existe um bom arrependimento, que nos leva para Deus, que nos leva a reconhecer a misericórdia e o amor infinito do Pai, que nos levanta apesar da dor de ter pecado mais uma vez contra a bondade de Deus; mas existe também o arrependimento mau, ou seja, aquele que destroi a pessoa, que o arrasa, que não purifica mas que, ao contrário, o faz pecar mais! Isso mesmo, por incrível que pareça, quando somos acometidos por esse tipo de tentação depois do pecado, em vez de nos erguermos, caímos ainda mais profundamente. Sabe por que? Porque não é um arrependimento motivado pelo amor mas, infelizmente, grandemente influenciado pelo orgulho. Queremos ser “perfeitos” e não santos. Queremos fazer tudo “certinho” tirar nota 10 na prova, como se o Céu fosse um vestibular. Fomos muitas vezes educados assim, absorvemos a cultura mundana capitalista e competitiva que nos ensina a lidarmos com o mundo, com as coisas, com as pessoas e, consequentemente, com Deus, dentro da lei do “dar em troca de”.

A teimosa perseverança é aquela que você decide, jamais, nunca, por nada nesse mundo, nada mesmo, desanimar! Diante do pecado, do pecado recorrente, daquele que você pensa: não, eu não aguento mais, não suporto mais confessar a mesma coisa para o padre. Pois bem, é um trato que você faz com você mesmo: “vou confessar um bilhão de vezes se, infelizmente, for preciso, mas nunca vou desistir de tentar. Nem que eu fique bem velhinho e não saiba mais nem falar direito, mesmo assim eu não vou desistir”.

Meu filho, minha filha, se você decidir por isso eu tenho uma boa notícia: o céu é para você. Pois, ao chegar no céu, certamente Deus não vai lhe perguntar: você conseguiu? Bom, pode até ser que ele pergunte isso, mas mesmo que você responda que não, ele vai reformular a pergunta e dizer: você tentou de todo o seu coração?

Sim, porque a luta é amor. A gente pensa que o amor é a vitória. Não, o amor é a luta. Quem não é tentado tem poucas chances de amar, de demonstrar o amor. Quem você acha que demonstra mais amor: quem nunca é tentado e por isso vive muito bem, com tudo “certinho” em sua vida espiritual, ou aquele(a) que, como se diz, rala muito porque é muito fraco? Vou ser mais claro. O que é mais fácil: rezar quando tudo está bem, se tem tempo de sobra e se sente consolado na oração, ou rezar em um ambiente barulhento, com gente dentro de casa perturbando a toda hora, com um milhão de coisas pra fazer? O que é mais fácil: ser casto quando se vem de uma família equilibrada, quando se é educado em valores de fé e nunca se meteu em nenhum tipo de perversão ou ser casto depois de uma juventude desregrada, depois de muitas experiências sexuais que deixaram feridas na memória e da alma difíceis de sarar? Bom, com isso não estou querendo dizer que a gente tem “desculpa” pra pecar, nada disso. Só estou dizendo que muitas vezes a pessoa pode se condenar por não se sentir tão perfeito, tão santo quanto gostaria de ser; ficar perturbado porque gostaria de ser mais fiel a Deus mas não consegue. E, no entanto, não percebe que Deus conhece o mais profundo do seu coração e sabe as lutas que você passa muito mais profundamente que você mesmo.

Pois bem, quero convocar você à TEIMOSA PERSEVERANÇA. Vamos vencer o cão pelo cansaço. Aliás, vamos mostrar para nós mesmos que nada, absolutamente NADA vai nos demover da decisão de seguir a Deus e isso inclui nossa fraqueza e pecado. O pecado, as quedas, as imperfeições não podem nos impedir de amar! O pecado é uma falta de amor, mas é uma falta muito maior ainda não confiar no amor puro e verdadeiro de Deus por nós.

Essa história do ser bem velhinho confessando o mesmo pecado me lembra uma historiazinha que se contava no meu tempo de seminário diocesano: um padre jovem chega muito arrasado para conversar com um velho e sábio sacerdote. Ele diz: “padre, eu não agüento mais, acho que não consigo viver o celibato. Eu, quando vejo uma mulher bonita, me sinto tentado… sei lá… não sei” e o jovem padre começa a chorar. O sacerdote ancião, de oitenta anos, cheio de sabedoria responde: “meu filho, não se preocupe, isso é coisa da juventude. Quando você tiver 80 anos como eu vai ver que isso passa…”. Enquanto eles conversavam, a campainha toca e aparece um mulheraço, esculpida da cabeça aos pés e decotada até não poder mais. Ela queria só uma informação e se retira. O padre ancião que tinha ido atender a porta continua a conversa: “pois é meu filho, como eu estava lhe dizendo, quando a gente completar 81 anos talvez passe…”.



[1] Chutar o pau da barraca (essa é uma homenagem ao meu amigo Ricardinho)

8 pensamentos sobre “A teimosa perseverança

  1. Tá pra mim! Mais teimoso que eu, acho difícil! E se tu soubesse o tanto de vezes que continuei “só de ruim”…
    (gostei da foto!😄 )

    Continue escrevendo textos assim! Seu blog está ótimo!

  2. Onw Pe Leo, obrigada pela sua dedicacao para com os jovens. Se voce souber o quanto esse texto consola meu coracao escreveria mais um 100 desses! (: Sua bencao. Shalom

  3. Pe. Léo,

    Concordo com o Lucas, várias vezes eu não desisti “só para não dar o gostinho”. Espero que essa ‘teimosa perseverança’ continue sendo um traço forte da minha personalidade e da de muitos jovens. O mundo nos ensina a desistir muito facilmente de tudo, do casamento, das amizades, daquilo que não gera ‘lucro’, mas o Amor nos impusiona a sermos cada vez mais teimosos para alcançar o que realmente vale a pena.

    Abs,

    P.s.: Adorei a escolha da figura, muito apropriada. rsrsrs

  4. E aí, Pe. Léo (oração eucarística número 3)!!! hehehe
    Minha mãe quem o diga.. sou teimosa por natureza! Que bom que estou no lugar certo… Adorei o texto. E espero ser teimosa até o fim pras coisas de Deus.. talvez lutando eternamente pelos menos pecados.. Massa o texto..vou repassar pros meus contatos!

  5. Padre, a sua bencao.
    Cada artigo do senhor me engrandece mais. Em especial esse da Teimosa Perseveranca. Era tudo que eu estava precisando no momento.
    Que Deus o abencoe imensamente e Nossa Senhora lhe cubra com teu manto eternamente.
    Shalom!!

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