Próximo ano será o terceiro?

Pessoal, sei que estou super em falta com vocês. Faz tempo demais que não posto aqui um texto meu. Quero me redimir colocando em primeira mão um pequeno artigo de minha autoria que será publicado na revista Shalom (depois de muita insistência dos editores para eu escrever… só pego no tranco!)…

 

Ano novo, vida nova – é o que todos pensam. Um tempo para se jogar fora papeis velhos, dar aquela arrumada no quarto, pensar no que a gente pode fazer de bom nas férias e esperar que o ano que inicia seja ainda melhor do que o que acaba. Enfim, é um tempo muito bom, tempo de esperança e renovação.

Para alguns, o ano novo começa cheio de empolgação pelo que virá: um novo emprego, uma nova casa, um novo namoro, uma nova escola, ou, quem sabe, aquele presente que você sonhou o ano todo chegou enfim.

Mas existe uma turma que começa o ano, por incrível que pareça, pensando nos estudos. Pensando em tudo o que devem estudar, nos livros, nos professores, nos horários da escola… é famosa galera do TERCEIRO ANO. Um tempo muito especial, de decisão, de mais maturidade, de responsabilidade porque, afinal, você deve já decidir qual curso universitário deseja ingressar e daí decorrem todos os sonhos e planos para um futuro que não parece mais tão longínquo quanto era quando se estava no início da adolescência. Agora, é pra valer, é tudo ou nada. Tem a pressão da sociedade, muitas vezes a pressão da família, dos amigos e a própria pressão interior que gritam em uníssono: você tem que estudar muito esse ano!

Tudo bem, isso é verdade. Tirando a parte da pressão exagerada, é claro que isso deve acontecer mesmo: o terceiro ano deve ser um tempo especial para os estudos. E digo mais: é a vontade de Deus que você estude! Muitos jovens dividem erroneamente sua vida cristã assim: quando eu estou rezando, no grupo de oração, na missa, nos retiros, na devoção à Maria Santíssima eu estou próximo de Deus, estou com Deus, fazendo a vontade de Deus. Quando eu estou namorando, curtindo uma praia, tomando um sorvete com os amigos, jogando videogame etc., eu estou fazendo a minha vontade, o que eu gosto, como se Deus não se alegrasse quando estamos felizes ou como se “estar com Deus” fosse resumido somente nos momentos “espirituais”. Não! Não é assim. Estamos SEMPRE com Deus, 24h por dia. Ele deseja estar conosco sempre e participar de 100% da nossa vida porque ele nos ama e, tudo o que fazemos, repito, tudo, deve fazer parte da vontade de Deus para a nossa vida, inclusive ESTUDAR!

Aí é que mora o perigo, digo mais forte ainda, a tentação, e queria que você, meu querido jovem, prestasse bem atenção: o “terceiro ano” do ensino médio, o pré-vestibular, não é o tempo de abandonar a Deus para estudar! Muitíssimo pelo contrário: é o tempo de se estar mais próximo de Deus para fazer sua vontade que é, também, estudar.

Tenho a opinião que o jovem convertido, apaixonado por Jesus, tem uma grande vantagem com relação aos outros concorrentes: sua fé. Não que Deus vá lhe dar uma “mãozinha extra” na hora da prova, nada disso, mas raciocine comigo: o que um jovem do mundo faz aos 17 anos? Que preocupações e que coisas preenchem seu tempo e seu coração? Infelizmente, muitas vezes o que os preenche são farras, bebedeiras, ficas, decepções no amor, vícios e a lista poderia continuar longamente. Será que isso contribui para um bom desempenho nos estudos? Será que um coração agitado, um corpo com ressaca, uma mente ocupada com vícios e desejos desenfreados pelo prazer, está realmente predisposta a estudar e aprender?

Sim, meus queridos jovens, a sua fé e seu amor a Deus é uma forte ponto positivo na concorrência. Sua motivação para estudar é muito mais nobre: você estuda por amor a Deus! Você quer passar no vestibular e ser um bom profissional para dar testemunho do evangelho!

Agora vem um ponto prático, muito importante e delicado: como você pode estudar por amor a Deus se… você não faz a vontade de Deus nas outras áreas da sua vida? Como você pode dizer que ama a Deus e quer fazer a sua vontade se, no pré-vestibular, você simplesmente abandona a oração, o grupo de jovens, o seu engajamento, deixa de ir à missa, deixa de confessar os seus pecados?! O pior é que, muitos usam como argumento o fato que não têm mais tanto tempo, mas, essa é a verdade, nos horários que deveriam estar dedicados à oração estão empenhados não nos estudos, mas nas comunidades sociais da internet, nas baladas, nas brincadeiras, nos encontros nem sempre lícitos. Muitos jovens diminuem o tempo da oração, ou mesmo abandonam completamente seu engajamento na Igreja por causa do vestibular, mas não são capazes de renunciar ao tempo que passam na internet digitando e vendo bobagens, só para citar um exemplo.

Meu querido, minha querida jovem: Deus quer que você estude porque Deus quer que você seja santo. Um jovem santo é responsável, faz tudo por amor a Deus e cada coisa encontra o seu devido tempo na sua vida. Não podemos simplesmente abandonar a oração e engajamento no “terceiro ano” para estudar, pois isso não lhe fará mais santo, não lhe dará impulso nos estudos e não lhe fará feliz.

Que a paz que vem do Pai, encontrada no mergulho da oração, bebida na fonte divina do Sacramento da Eucaristia e da Confissão, seja o grande impulso que o leve a estudar por amor a Deus e assim fazer a sua Santíssima Vontade!

Deus te abençoe.

 

Pensamento do Papa para o Natal emitido pela BBC

“Deus nos surpreende ao cumprir suas promessas”

CIDADE DO VATICANO, sexta-feira, 24 de dezembro de 2010 (ZENIT.org) – Apresentamos a mensagem radiofônica que Bento XVI emitiu na manhã desta sexta-feira na rede britânica BBC.

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Recordando com grande carinho minha visita de quatro dias ao Reino Unido no mês de setembro passado, alegro-me por ter a oportunidade de saudá-los uma vez mais, e também de saudar os ouvintes em todas as partes, enquanto nos preparamos para o nascimento de Cristo.

Nossos pensamentos voltam a esse momento da história em que o povo eleito por Deus, os filhos de Israel, viviam em intensa expectativa. Eles esperavam o Messias que Deus prometeu enviar, e o imaginaram como um grande líder que os resgataria da dominação estrangeira e restauraria sua liberdade.

Deus é sempre fiel a suas promessas, mas frequentemente nos surpreende na forma como as cumpre. O menino que nasceu em Belém ia trazer a libertação, mas não só para o povo desse momento e lugar – ia ser o Salvador de todos os povos em todo o mundo e em toda a história. E não era uma libertação política o que o trazia, alcançada através de meios militares: o contrário, Cristo destruiu a morte para sempre e restaurou a vida utilizando como meio sua vergonhosa morte na Cruz. E ainda que tenha nascido na pobreza e na obscuridade, longe dos centros de poder da terra, não era outro que o Filho de Deus. Por amor a nós, tomou sobre si nossa condição humana, nossa fragilidade, nossa vulnerabilidade, e nos abriu o caminho que conduz à plenitude da vida, a participar na própria vida de Deus. Enquanto consideramos este grande mistério em nossos corações neste Natal demos graças a Deus por sua bondade conosco, e proclamemos alegremente aos que nos cercam a boa notícia de que Deus nos oferece libertar-nos de tudo que nos oprime; Ele nos dá a esperança, nos dá a vida.

Queridos amigos da Escócia, Inglaterra e Gales, e também de todas as partes do mundo de língua inglesa. Quero que saibam que os terei muito em minhas orações durante este tempo de Natal. Rezo por suas famílias, por seus filhos, por quem está enfermo e por todos os que estão passando qualquer tipo de dificuldade neste tempo. Rezo especialmente pelos anciãos e por todos os que se aproximam do fim de suas vidas. Peço a Cristo, luz das nações, que dissipe toda escuridão que possa ter em suas vidas e que os conceda a graça de um tranquilo e alegre Natal.

Deus os abençoe!

[Traduzido por ZENIT

©Libreria Editrice Vaticana]

 

Nota da CNBB sobre campanha contra AIDS

BRASÍLIA, terça-feira, 21 de dezembro de 2010 (ZENIT.org) – Apresentamos, a seguir, a “Nota sobre a campanha contra a AIDS”, divulgada hoje pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil.

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Em face à campanha lançada pelas Juventudes Socialistas de Andalucía (JSA), na Espanha, incentivando o uso de preservativos e, ao mesmo tempo, relacionando a camisinha à hóstia consagrada que, de acordo com a fé católica, é verdadeiramente o Corpo de Cristo (cf. Mc 14,12-16.22-26), a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil – CNBB, fiel à sua missão, considera-se no dever de se manifestar junto às Autoridades espanholas para expressar-lhes perplexidade e repúdio a esse grande desrespeito à Eucaristia que é o centro e o ápice da vida da Igreja católica. Não podemos silenciar diante dessa grande ofensa que fere profundamente os sentimentos religiosos dos católicos.

A preocupação em evitar a propagação da Aids (SIDA) não justifica iniciativas dessa natureza. Essa Campanha, que repercutiu também aqui no Brasil, manifesta uma atitude preconceituosa, inadequada e ofensiva à nossa fé.

No âmbito de suas atribuições e responsabilidades, a CNBB deseja contribuir para que o homem e a mulher cresçam no diálogo, no respeito à liberdade, na defesa da vida, na promoção dos direitos humanos e na conquista dos verdadeiros valores que os tornem felizes conforme os planos de Deus.

Brasília-DF, 21 de dezembro de 2010

Dom Geraldo Lyrio Rocha
Arcebispo de Mariana-MG
Presidente da CNBB

Dom Luiz Soares Vieira
Arcebispo de Manaus-AM
Vice-Presidente da CNBB

Dom Dimas Lara Barbosa
Bispo Auxiliar do Rio de Janeiro-RJ
Secretário Geral da CNBB

 

NOTA DA SANTA SÉ SOBRE “CAMISINHA”

Nota da Congregação para a Doutrina da Fé sobre o preservativo A propósito das palavras do Papa no livro “Luz do mundo” CIDADE DO VATICANO, terça-feira, 21 de dezembro de 2010 (ZENIT.org) –

Apresentamos, a seguir, a nota de esclarecimento da Congregação para a Doutrina da Fé “Sobre a banalização da sexualidade. A propósito de algumas leituras de ‘Luz do mundo'”, divulgada hoje pela Santa Sé.

Nota da Congregação para a Doutrina da Fé Sobre a banalização da sexualidade A propósito de algumas leituras de «Luz do mundo» Por ocasião da publicação do livro-entrevista de Bento XVI, «Luz do Mundo», foram difundidas diversas interpretações não correctas, que geraram confusão sobre a posição da Igreja Católica quanto a algumas questões de moral sexual. Não raro, o pensamento do Papa foi instrumentalizado para fins e interesses alheios ao sentido das suas palavras, que aparece evidente se se lerem inteiramente os capítulos onde se alude à sexualidade humana. O interesse do Santo Padre é claro: reencontrar a grandeza do projecto de Deus sobre a sexualidade, evitando a banalização hoje generalizada da mesma.

Algumas interpretações apresentaram as palavras do Papa como afirmações em contraste com a tradição moral da Igreja; hipótese esta, que alguns saudaram como uma viragem positiva, e outros receberam com preocupação, como se se tratasse de uma ruptura com a doutrina sobre a contracepção e com a atitude eclesial na luta contra o HIV-SIDA.

Na realidade, as palavras do Papa, que aludem de modo particular a um comportamento gravemente desordenado como é a prostituição (cf. «Luce del mondo», 1.ª reimpressão, Novembro de 2010, p. 170-171), não constituem uma alteração da doutrina moral nem da praxis pastoral da Igreja. Como resulta da leitura da página em questão, o Santo Padre não fala da moral conjugal, nem sequer da norma moral sobre a contracepção. Esta norma, tradicional na Igreja, foi retomada em termos bem precisos por Paulo VI no n.º 14 da Encíclica Humanae vitae, quando escreveu que «se exclui qualquer acção que, quer em previsão do acto conjugal, quer durante a sua realização, quer no desenrolar das suas consequências naturais, se proponha, como fim ou como meio, tornar impossível a procriação». A ideia de que se possa deduzir das palavras de Bento XVI que seja lícito, em alguns casos, recorrer ao uso do preservativo para evitar uma gravidez não desejada é totalmente arbitrária e não corresponde às suas palavras nem ao seu pensamento.

Pelo contrário, a este respeito, o Papa propõe caminhos que se podem, humana e eticamente, percorrer e em favor dos quais os pastores são chamados a fazer «mais e melhor» («Luce del mondo», p. 206), ou seja, aqueles que respeitam integralmente o nexo indivisível dos dois significados – união e procriação – inerentes a cada acto conjugal, por meio do eventual recurso aos métodos de regulação natural da fecundidade tendo em vista uma procriação responsável. Passando à página em questão, nela o Santo Padre refere-se ao caso completamente diverso da prostituição, comportamento que a moral cristã desde sempre considerou gravemente imoral (cf. Concílio Vaticano II, Constituição pastoral Gaudium et spes, n.º 27; Catecismo da Igreja Católica, n.º 2355). A recomendação de toda a tradição cristã – e não só dela – relativamente à prostituição pode resumir-se nas palavras de São Paulo: «Fugi da imoralidade» (1 Cor 6, 18). Por isso a prostituição há-de ser combatida, e os entes assistenciais da Igreja, da sociedade civil e do Estado devem trabalhar por libertar as pessoas envolvidas. A este respeito, é preciso assinalar que a situação que se criou por causa da actual difusão do HIV-SIDA em muitas áreas do mundo tornou o problema da prostituição ainda mais dramático. Quem sabe que está infectado pelo HIV e, por conseguinte, pode transmitir a infecção, para além do pecado grave contra o sexto mandamento comete um também contra o quinto, porque conscientemente põe em sério risco a vida de outra pessoa, com repercussões ainda na saúde pública. A propósito, o Santo Padre afirma claramente que os preservativos não constituem «a solução autêntica e moral» do problema do HIV-SIDA e afirma também que «concentrar-se só no preservativo significa banalizar a sexualidade», porque não se quer enfrentar o desregramento humano que está na base da transmissão da pandemia.

Além disso é inegável que quem recorre ao preservativo para diminuir o risco na vida de outra pessoa pretende reduzir o mal inerente ao seu agir errado. Neste sentido, o Santo Padre assinala que o recurso ao preservativo, «com a intenção de diminuir o perigo de contágio, pode entretanto representar um primeiro passo na estrada que leva a uma sexualidade vivida diversamente, uma sexualidade mais humana». Trata-se de uma observação totalmente compatível com a outra afirmação do Papa: «Este não é o modo verdadeiro e próprio de enfrentar o mal do HIV». Alguns interpretaram as palavras de Bento XVI, recorrendo à teoria do chamado «mal menor». Todavia esta teoria é susceptível de interpretações desorientadoras de matriz proporcionalista (cf. João Paulo II, Encíclica Veritatis splendor, nn.os 75-77). Toda a acção que pelo seu objecto seja um mal, ainda que um mal menor, não pode ser licitamente querida. O Santo Padre não disse que a prostituição valendo-se do preservativo pode ser licitamente escolhida como mal menor, como alguém sustentou. A Igreja ensina que a prostituição é imoral e deve ser combatida.

Se alguém, apesar disso, pratica a prostituição mas, porque se encontra também infectado pelo HIV, esforça-se por diminuir o perigo de contágio inclusive mediante o recurso ao preservativo, isto pode constituir um primeiro passo no respeito pela vida dos outros, embora a malícia da prostituição permaneça em toda a sua gravidade. Estas ponderações estão na linha de quanto a tradição teológico-moral da Igreja defendeu mesmo no passado. Em conclusão, na luta contra o HIV-SIDA, os membros e as instituições da Igreja Católica saibam que é preciso acompanhar as pessoas, curando os doentes e formando a todos para que possam viver a abstinência antes do matrimónio e a fidelidade dentro do pacto conjugal.

A este respeito, é preciso também denunciar os comportamentos que banalizam a sexualidade, porque – como diz o Papa – são eles precisamente que representam a perigosa razão pela qual muitas pessoas deixaram de ver na sexualidade a expressão do seu amor. «Por isso, também a luta contra a banalização da sexualidade é parte do grande esforço a fazer para que a sexualidade seja avaliada positivamente e possa exercer o seu efeito positivo sobre o ser humano na sua totalidade» («Luce del mondo», p. 170). (Versão portuguesa distribuída pela Congregação para a Doutrina da Fé)

Pregador do Papa: resposta cristã ao cientificismo ateu

Primeira pregação do Advento

CIDADE DO VATICANO, domingo, 5 de dezembro de 2010 (ZENIT.org) – Apresentamos a primeira pregação do Advento pronunciada na última sexta-feira pelo Pe. Raniero Cantalamessa OFM cap, pregador da Casa Pontifícia, diante de Bento XVI e da cúria romana, sobre “A resposta cristã ao cientificismo ateu”.

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Primeira Pregação do Advento

“Quando olho para o teu céu, obra de tuas mãos, vejo a lua e as estrelas que criaste: Que coisa é o homem?” (Sal 8, 4-5)

A resposta cristã ao cientificismo ateu

1. A tese do cientificismo ateu

As três meditações deste Advento 2010 querem ser uma pequena contribuição à necessidade da Igreja que levou o Santo Padre Bento XVI a instituir o Conselho Pontifício para a Promoção da Nova Evangelização e escolher este tema para a próxima Assembleia geral ordinária do Sínodo dos Bispos:  Nova evangelizatio ad cristianam fidem tradendam – A nova evangelização para a transmissão da fé cristã.

A intenção é identificar alguns “nós” ou obstáculos que fazem muitos países de antiga tradição cristã “refratários” à mensagem do Evangelho, como diz o Santo Padre no Motu Proprio com o qual estabeleceu o novo Conselho [1]. Os “nós” ou os desafios que eu pretendo levar em consideração e aos quais eu gostaria de tentar dar uma resposta de fé são o cientificismo, o secularismo e o racionalismo. O apóstolo Paulo classifica esses desafios como “as muralhas e fortalezas que se levantam contra o conhecimento de Deus” (cf. 2 Cor 10:4).

Nesta primeira meditação examinemos o cientificismo. Para compreender o que se entende com este termo podemos começar pela descrição feita por João Paulo II:

“Outro perigo a ser considerado é o cientificismo. Esta concepção filosófica recusa-se a admitir, como válidas, formas de conhecimento distintas daquelas que são próprias das ciências positivas, relegando para o âmbito da pura imaginação tanto o conhecimento religioso e teológico, como o saber ético e estético.” [2].

Podemos resumir assim a tese principal desta corrente de pensamento:

Primeira tese. A ciência e, particularmente a cosmologia, a física e a biologia, são a única forma objetiva e séria de conhecimento da realidade. “As sociedades modernas, escreveu Monod, estão construídas sobre a ciência. Devem a ela sua riqueza, sua potência e a certeza de que a riqueza e o poder ainda serão maiores e mais acessíveis amanhã ao homem, se ele o quiser […]. Equipadas com todo o poder, dotadas de toda riqueza que a ciência oferece, nossas sociedades ainda tentam viver e ensinar sistemas de valores, já prejudicados pela mesma ciência subjacente” [3].

Segunda tese. Esta forma de conhecimento é incompatível com a fé que se baseia em pressupostos que não são nem demonstráveis nem refutáveis

Nesta linha, o ateu militante R. Dawkins chega ao ponto de chamar de “analfabetos” os cientistas que se dizem crentes, esquecendo-se de tantos cientistas mais famosos do que ele que já se declararam e continuam declarando-se crentes.

Terceira tese. A ciência já demonstrou a falsidade ou, pelo menos, a inutilidade da hipótese de Deus. É a afirmação que recebeu ampla cobertura dos meios de comunicação do mundo meses atrás, à raiz de uma declaração do astrofísico inglês Stephen Hawking. Este, ao contrário do que já havia escrito anteriormente, sustenta em seu último livro The Grand Design, que o conhecimento advindo da física torna desnecessário acreditar numa divindade criadora do universo: “a criação espontânea é a razão pela qual as coisas existem”.

Quarta tese. Quase a totalidade ou a grande maioria dos cientistas são ateus. Esta é a afirmação do ateísmo científico militante, que tem em Richard Dawkins, autor do livro God’s Delusion (Deus, um delírio), seu mais ativo propagador.

Todos estes argumentos se revelam falsos, não do ponto de vista do raciocínio a priori ou da argumentação teológica e da fé, mas da própria análise dos resultados da ciência e das opiniões de vários cientistas ilustres do passado e do presente. Um cientista do calibre de Max Planck, o pai da física quântica, diz sobre a ciência aquilo que Agostinho, Tomás de Aquino, Pascal, Kierkegaard e outros já tinham afirmado sobre a razão: “A ciência leva a um ponto, além dele não pode mais dirigir” [4].

Não repetirei a refutação dos argumentos anunciados que já foi feita por cientistas e filósofos competentes. Cito, por exemplo, a crítica pontual de Roberto Timossi, no livro L’illusione dell’ateismo. Perché la scienza non nega Dio (A ilusão do ateísmo. Porque a ciência não nega Deus), que tem apresentação do cardeal Angelo Bagnasco (Edições São Paulo 2009). Limito-me a uma observação elementar. Na semana em que a mídia espalhou a declaração acima, de que a ciência tornou desnecessária a hipótese de um criador, eu me vi na necessidade, na  homilia de domingo, de explicar a cristãos muito simples de uma cidade de Reatino onde estava o erro fundamental de cientistas e ateus e  porque não deveriam ficar impressionados com a sensação despertada por essa declaração. Fiz isso com um exemplo que pode ser útil repetir aqui em um contexto tão diferente.

“Existem aves noturnas, como a coruja, cujos olhos são feitos para ver no escuro da noite, não de dia. A luz do sol cega. Estes pássaros sabem tudo e se movem com agilidade no mundo noturno, mas não são ninguém no mundo diurno. Vamos adotar, por um momento, o tipo de fábulas nas quais os animais falam uns com os outros. Suponha que uma águia faça amizade com uma família de corujas e converse com elas sobre o sol: como ele ilumina tudo, como, sem ele, tudo iria mergulhar no escuro e no frio, como seu próprio mundo noturno não existiria sem o sol. O que diria a coruja? “Você mente! Nunca vi o seu sol. Nos movemos muito bem e conseguimos alimento sem ele. Seu sol é uma hipótese inútil, não existe”.

É exatamente isso que faz o cientista ateu quando diz: “Deus não existe”. Julga um mundo que não conhece, aplica suas leis a um objeto que está fora do seu alcance. Para ver Deus é necessário olhar com uma perspectiva diferente, aventurar-se fora da noite. Neste sentido, ainda é válida a antiga afirmação do salmista: “Diz o insensato: Deus não existe”.

2. Não ao cientificismo, sim à ciência

A rejeição do cientificismo não deve, naturalmente, levar à rejeição ou à desconfiança na ciência, assim como uma rejeição do racionalismo não nos leva a rejeitar a razão. Fazer o contrário seria um desserviço à fé, antes mesmo que à ciência. A história tem nos ensinado dolorosamente onde nos leva uma atitude como essa.

De uma atitude aberta e construtiva à ciência, nos deu um exemplo luminoso o novo beato John Henry Newman. Nove anos depois da publicação da obra de Darwin sobre a evolução das espécies, quando não poucas pessoas ao redor se mostravam turbadas e perplexas, ele assegurava, exprimindo um juízo que antecipava o juízo atual da Igreja sobre a não incompatibilidade da teoria com a fé católica. Vale a pena escutar novamente trechos centrais da sua carta ao canônico J. Walker, que ainda conservam grande parte de sua validade:

“Essa [a teoria de Darwin] não me assusta […] Não me parece que se negue a criação pelo fato do Criador, milhões de anos atrás, ter imposto leis à matéria. Não negamos nem delimitamos o Criador por ter criado a ação autônoma que deu origem ao intelecto humano dotado quase de um talento criativo; menos ainda negamos ou delimitamos seu poder se acreditamos que Ele tenha assinado leis à matéria tais como plasmar e construir mediante a instrumentalidade cega através de eras inumeráveis o mundo como o vemos hoje […]. A teoria do senhor Darwin não deve ser necessariamente ateia, que ela seja verdadeira ou não; pode simplesmente estar surgindo uma ideia mais alargada da Divina Presciência e Capacidade… À primeira vista, não vejo como a ‘evolução casual de seres orgânicos’ seja incoerente com o plano divino – É casual para nós, não para Deus” [5].

Sua grande fé permitia que Newman visse com grande serenidade as descobertas científicas presentes ou futuras. “Quando uma enxurrada de fatos, reais ou presumidos, surge enquanto outros já se avizinham, todos os crentes, católicos ou não, se sentem chamados a examinar o significado destes fatos” [6]. Ele via nestas descobertas “uma conexão indireta com as opiniões religiosas”. Um exemplo desta conexão, acredito eu, é o próprio fato de que, no mesmo ano em que Darwin elaborava a teoria da evolução das espécies, ele, independentemente, anunciava sua doutrina do “desenvolvimento da doutrina cristã”. Referindo-se à analogia, neste ponto, entre a ordem natural e física e a moral, ele escreveu: “Como o Criador descansou no sétimo dia após o trabalho realizado e ainda hoje ele ‘continua agindo’, assim ele comunicou de uma vez por todas o Credo no princípio e continua favorecendo seu desenvolvimento e garantindo seu crescimento” [7].

Da atitude nova e positiva da Igreja católica em relação à ciência é expressão concreta a Academia Pontifícia das Ciências, na qual cientistas eminentes de todo o mundo, crentes e não crentes, encontram-se para expor e debater suas ideias sobre problemas de interesse comum para a ciência e para a fé.

3. O homem para o universo ou o universo para o homem?

Mas, repito, não é minha intenção fazer aqui uma crítica geral do cientificismo. O que gostaria de destacar é um aspecto particular de algo que tem um impacto direto e decisivo sobre a evangelização: trata-se da posição que o homem ocupa na visão do cientificismo ateu.

Há agora uma corrida entre os cientistas não crentes, especialmente os biólogos e cosmólogos, que vai mais longe ao afirmar a total marginalização e insignificância do homem no universo e mesmo no grande mar da vida. “A antiga aliança é quebrada – Monod escreveu -; o homem finalmente se sabe sozinho na imensidão do Universo do qual emergiu por acaso. Seu dever, como seu destino, não está escrito em nenhum lugar” [8]. “Sempre pensei – afirma outro – ser insignificante. Conhecendo as dimensões do Universo não chego a compreender quanto o sou verdadeiramente… Somos somente um pouco de lama sobre um planeta que pertence ao sol” [9].

Blaise Pascal refutou de antemão esta tese com um argumento que ainda mantém seu vigor:

“O homem é apenas um caniço, o mais fraco da natureza; mas é um caniço pensante. Não é preciso que o universo inteiro se arme para o aniquilar: um vapor, uma gota de água, bastam para o matar. Mas quando o universo o aniquilasse, o homem seria ainda mais nobre do que o que o mata, porque sabe que morre, e a superioridade que o universo tem sobre ele; o universo não sabe nada disso.” [10].

A visão cientificista da realidade, junto com o homem, retira subitamente do centro do universo inclusive Cristo. Ele é reduzido, por usar uma expressão de M. Blondel, a “um acidente histórico, isolado do cosmo como um episódio postiço, um intruso ou um perdido na imensidão hostil e esmagadora do Universo” [11].

Esta visão do homem começa a ter reflexos práticos na cultura e na mentalidade. Explicam-se assim certos excessos do ecologismo que tendem a equiparar os direitos dos animais e até das plantas aos direitos do homem. É sabido que existem animais mais bem cuidados e alimentados que milhões de crianças. A influência é sentida inclusive no campo religioso. Há formas difusas de religiosidade nas quais o contato e a sintonia com a energia do cosmo tomaram o lugar do contato com Deus como caminho de salvação. Aquilo que Paulo dizia de Deus: “Pois nele vivemos, nos movemos e existimos” (At. 17, 28), diz aqui do cosmo material.

De certa forma, trata-se do retorno à era pré-cristã como regime de vida: Deus – universo – homem, à qual a Bíblia e o Cristianismo opuseram o regime: Deus – homem – universo. Uma das acusações mais violentas que o pagão Celso faz aos judeus e cristãos é a de dizer que “há Deus e, logo depois dele, nós, desde que fomos criados por ele à sua semelhança; tudo nos é subordinado: a terra, a água, o ar, as estrelas, tudo existe por nós e está ordenado ao nosso serviço” [12].

Mas há ainda uma profunda diferença: no pensamento antigo, principalmente o grego, o homem, mesmo subordinado ao universo, possui uma ‘dignidade altíssima’, como mostrou a obra magistral de Max Pohlenz, “O homem grego” [13]; aqui parece que há prazer em deprimir o homem e tirar dele qualquer pretensão de superioridade sobre o resto da natureza. Mais que “humanismo ateu”, pelo menos a partir deste ponto de vista, deveríamos falar, no meu modo de ver, de anti-humanismo, ou mesmo “desumanismo ateu”.

Chegamos agora à visão cristã. Celso não estava errado em derivá-la da grande afirmação do Gênesis 1, 26 sobre o homem criado “à imagem e semelhança de Deus [14]. A visão bíblica encontra sua mais esplêndida expressão no Salmo 8:

“Quando olho para o teu céu, obra de tuas mãos,

vejo a lua e as estrelas que criaste:

Que coisa é o homem, para dele te lembrares,

que é o ser humano, para o visitares?

No entanto o fizeste só um pouco menor que um deus,

de glória e de honra o coroaste.

Tu o colocaste à frente das obras de tuas mãos.

Tudo puseste sob os seus pés”.

A criação do homem à imagem de Deus possui implicações de certa forma chocantes sobre o conceito de homem que o debate atual nos empurra a trazer à luz. Tudo se baseia na revelação da Trindade trazida por Cristo. O homem é criado à imagem de Deus, o que significa que ele compartilha a essência íntima de Deus que é a relação amorosa entre Pai, Filho e Espírito Santo. É claro que existe uma lacuna ontológica entre Deus e a criatura. No entanto, pela graça, (jamais esqueçam esta afirmação!) esta lacuna é preenchida, de modo que é menos profunda do que entre o homem e o resto da criação.

Somente o homem, de fato, como uma pessoa capaz de relacionar-se, participa da dimensão pessoal e relacional de Deus, é sua imagem. O que significa que, na sua essência, embora a um nível de criatura, é o que, no nível incriado, são o Pai, o Filho e o Espírito Santo, em sua essência. A pessoa criada é “pessoa” propriamente por esse núcleo racional que a torna capaz de acolher o relacionamento que Deus quer estabelecer com ela e, ao mesmo tempo, torna-se um gerador de relações para os outros e o mundo.

4. A força da verdade

Vejamos como se poderia traduzir esta visão cristão da relação homem-universo no campo da evangelização. Primeiro, um prefácio. Resumindo o pensamento do mestre, um discípulo de Dionísio Areopagita enunciou esta grande verdade: “Não se deve refutar a opinião dos outros, nem se deve escrever contra uma opinião ou religião que não parece boa. Se deve escrever só a favor da verdade e não contra os outros” [15].

Não se pode absolutizar este princípio (às vezes pode ser útil e necessário refutar doutrinas falsas), mas é certo que a exposição positiva da verdade é, muitas vezes, mais eficaz que a refutação do erro contrário. É importante, creio, tomar em conta este critério na evangelização e especialmente no confronto com os três obstáculos mencionados anteriormente: cientificismo, secularismo e racionalismo. Na evangelização, é mais eficaz que a polêmica contra eles, a exposição pacífica da visão cristã, contando com a força inerente desta quando acompanhada de profunda convicção e feita, como incutia São Pedro, “com doçura e respeito” (1 Pe 3, 16).

A maior expressão da dignidade e da vocação do homem, segundo a visão cristã, foi cristalizada na doutrina da deificação do homem. Esta doutrina não teve tanta importância na Igreja Ortodoxa quanto na latina. Os Padres gregos, superando todos custos que o uso de pagão tinha acumulado sobre o conceito de deificação (theosis), fizeram dele o centro de sua espiritualidade. A teologia latina tem insistido menos sobre ela. “O propósito da vida para os cristãos gregos – lê-se  no Dictionnaire des Spiritualitè – é a divinização, o que para os cristãos do Ocidente é a aquisição da santidade… O Verbo se fez carne, de acordo com os gregos, para devolver ao homem semelhança de Deus perdida em Adão e para divinizá-lo. Para os latinos, ele se fez homem para redimir a humanidade… e para pagar a dívida com a justiça de Deus” [16]. Poderíamos dizer, simplificando ao máximo, que a teologia latina, depois de Agostinho, insiste sobre o que Cristo veio tirar – o pecado -, e a grega insiste mais sobre o que ele veio dar aos homens: a imagem de Deus, o Espírito Santo e a vida divina.

Não se deve forçar demais esta oposição, como às vezes tendem a fazer alguns autores ortodoxos. A espiritualidade latina, por vezes, expressa o mesmo ideal ainda que evite o termo divinização, que, é bom lembrar, é estranho à linguagem bíblica. Na liturgia das horas da noite de Natal, vamos ouvir a vibrante exortação de São Leão Magno, que expressa a mesma visão da vocação cristã: “Reconhece, ó cristão, a tua dignidade. Uma vez constituído participante da natureza divina, não penses em voltar às antigas misérias da tua vida passada. Lembra-te de que cabeça e de que corpo és membro” [17].

Infelizmente, alguns autores ortodoxos mantiveram-se firmes à controvérsia do século XIV, entre Gregório Palamas e Barlaam, e parecem ignorar a rica tradição mística latina. A doutrina de São João da Cruz, por exemplo, de que os cristãos, redimidos por Cristo e tornados filhos no Filho, estão imersos no fluxo das operações trinitárias e participam da vida íntima de Deus não é menos elevada que a da divinização, ainda que se expresse em termos diferentes. Também a doutrina sobre os dons da inteligência e da sabedoria  do Espírito Santo, tão cara a São Boaventura e autores medievais, estava animada pelo mesma inspiração mística.

Não pode, contudo, deixar de reconhecer que a espiritualidade ortodoxa tem algo a ensinar sobre este ponto ao resto da cristandade, à teologia protestante ainda mais do que à teologia católica. Se existe realmente alguma coisa verdadeiramente oposta à visão ortodoxa do cristão deficado pela graça é a concepção protestante, particularmente a luterana, da justificação extrínseca e legal de que o homem redimido é, “ao mesmo tempo,  justo e pecador”, pecador em si mesmo, justo diante de Deus.

Acima de tudo, podemos aprender com a tradição oriental a não reservar esse ideal sublime da vida cristã a uma elite espiritual chamada a percorrer os caminhos da mística, mas oferecê-lo a todos os batizados, torná-lo objeto de catequese para o povo, de formação religiosa nos seminários e noviciados. Se volto a pensar nos meus anos de formação, me lembro de ter visto uma ênfase quase exclusiva na ascese que centrava tudo na correção de vícios e na aquisição da virtude. Quando perguntado pelos discípulos sobre o objetivo final da vida cristã, um santo russo, São Serafim de Sarov, respondeu sem hesitação: “A verdadeira finalidade da vida cristã é a aquisição do Espírito Santo de Deus. Quanto à oração, o jejum, vigílias, esmolas e outras boas obras feitas em nome de Cristo, são apenas meios para adquirir o Espírito Santo” [18].

5. “Tudo foi feito por meio dele”

O Natal é a ocasião ideal para voltar a propor a nós mesmos e aos demais este ideal, patrimônio comum da cristandade. É da encarnação do Verbo que os Padres gregos derivam a própria possibilidade da divinização. São Atanásio não se cansa de repetir: “O Verbo se fez homem para que pudéssemos nos tornar Deus” [19]. “Ele se encarnou e o homem tornou-se Deus, porque se uniu a Deus”, escreve por sua vez São Gregório Nazianzeno [20]. Com Cristo, é restaurado ou trazido à luz aquele ser “à imagem de Deus” que é a base da superioridade do homem sobre o restante da criação.

Dizia antes como a marginalização do homem traz consigo automaticamente a marginalização de Cristo do universo e da história. Ainda sobre este ponto de vista o Natal é a antítese mais radical da visão cientificista. Sobre isso, escutaremos proclamar solenemente: “Tudo foi feito por meio dele, e sem ele nada foi feito de tudo o que existe” (Jo. 1,3); “pois é nele que foram criadas todas as coisas, tudo foi criado através dele e para ele” (Col 1,16). A Igreja assumiu essa revelação e nos faz repetir no Credo: “Per quem omnia facta sunt”: Por meio dele tudo foi criado.

Ouvindo estas palavras – enquanto todos à nossa volta que não fazem mais que repetir “O mundo se explica sozinho, sem necessidade da hipótese de um criador”, ou “somos frutos do acaso e da necessidade” – se dá, sem dúvida, um choque, mas é mais fácil que se produza um conversão e floresça a fé depois de um choque como esse que com uma longa argumentação apologética. A questão crucial é: seremos capazes, nós que aspiramos reevangelizar o mundo, de expandir nossa fé a essa dimensão? Nós realmente acreditamos, de todo o coração, que “todas as coisas foram feitas por meio de Cristo e em vista de Cristo”?

Em seu livro Introdução ao Cristianismo, há muitos anos, Santo Padre, escreveu:

“A segunda parte principal do Credo coloca-nos propriamente diante do elemento cristão fundamental: a crença de que o homem Jesus, um indivíduo executado na Palestina pelo ano 30, é o ‘Cristo’ (ungido, escolhido) de Deus, e mais: é o próprio Filho de Deus, centro e opção de toda a história humana… Contudo, o primeiro impacto desta realidade causa escândalo ao pensamento humano: Não nos tornamos com isto vítimas de um tremendo positivismo? Será razoável agarrar-nos à palhinha de um único acontecimento histórico? Poderemos ousar fundamentar a nossa existência inteira, e até a história toda, sobre o que não passa de pobre palha de um acontecimento qualquer a boiar no grande oceano da história?” [21].

Para estas questões, Santo Padre, nós vamos responder sem hesitar, como faz o senhor nesse livro e como não se cansa de repetir hoje, na sua qualidade de Sumo Pontífice: Sim, é possível, é libertador e alegre. Não por nossas forças, mas pelo dom inestimável da fé recebemos e pela qual damos graças infinitas a Deus.

* * *

[1] Bento XVI, Motu Proprio “Ubicunque et semper”.

[2] João Paulo II, Parole sull’uomo, Rizzoli, Milano 2002, p. 443; cf. anche Enc. “Fides et ratio”, n. 88.

[3] J. Monod, Il caso e la necessità, Mondadori, Milano, 1970, pag. 136-7. [Ed. original francesa: Jacques Monod, Le Hazard et la necessité.Essai sur la philosophie naturelle de la biologie moderne. Seuil, Paris 1970; English trans. Chance and Necessity. An Essay on the Natural Philosophy of Modern Biology, Vintage 1971].

[4] M. Planck, O conhecimento do mundo físico, (cit. por Timossi, op.cit.  p. 160)

[5] J.H. Newman, in The Letters and Diaries, vol. XXIV, Oxford 1973, pp. 77 s.

[6] J.H. Newman, Apologia pro vita sua, Brescia 1982, p.277

[7] J.H. Newman, Lo sviluppo della dottrina cristiana, Bologna 1967.

[8] Monod, op. cit. p. 136.

[9] P. Atkins, citado por Timossi, op. cit. p. 482.

[10] B. Pascal, Pensamentos.

[11] M. Blondel et A. Valensin, Correspondance, Aubier, Paris, 1957, p. 47.

[12] In Origene, Contra Celsum, IV, 23 (SCh 136, p.238; cf.  IV, 74 (ib. p. 366)

[13] Cf. M. Pohlenz, O homem grego, Firenze 1962.

[14] In Origene, op. cit., IV, 30 (SCh 136, p. 254).

[15] Scolii a Dionísio Areopagita in PG 4, 536; cf. Dionísio Areopagita, Lettera VI (PG, 3, 1077).

[16] G. Bardy, in Dct. Spir., III, col. 1389 s.

[17] São Leão Magno, Sermo 21, 3: CCL 138, 88 (PL 54, 192-193)

[18] Diálogo com Motovilov, em Irina Gorainoff, Serafino di Sarov, Gribaudi, Turin 1981. p. 156.

[19] S. Atanasio, J. Quasten, Patrologia, II, 22-83; Obras: PG 25-28.

[20] S. Gregorio Nazianzeno, Discursos teológicos, III, 19 (PG 36, 100A).

[21] J. Ratzinger, Introdução ao Cristianismo, Herder, São Paulo,  1970. Versão brasileira do Pe. José Wisniewski Filho, S.V.D., do original alemão Einführung in das Christentum

[Traduzido do original italiano por Márcia Ameriot]