Discurso de Posse

“Pastores dabo vobis iuxta cor meum” (Jr. 3,15)

Esta palavra do Senhor, dirigida ao seu povo através do profeta Jeremias ecoa no meu coração e sinto-a dirigida a nós hoje: “Dar-vos-ei pastores segundo o meu coração”.

Por um lado é uma promessa. Promessa dirigida a todos nós que somos ovelhas do rebanho do Senhor e que, não raro, encontramo-nos cansados e abatidos, fatigados e desanimados. Nós precisamos do Bom Pastor que retira dos nossos ombros o fardo e substitui pelo seu suave e leve jugo. O fardo, como sabemos, é a prisão à nossa vontade própria, tantas vezes egoísta e orgulhosa; e o jugo do Senhor, como nos ensinou o Santo Padre Bento XVI é a Santíssima Vontade de Deus que, não raro, se nos apresenta como difícil e exigente, mas é libertadora e cheia de amor e misericórdia.

Contudo, para mim hoje, essa promessa do Senhor se configura como mandato, missão. Posso ouvir o Senhor que dirige também a mim a pergunta que fundamenta minha vocação sacerdotal: “Tu me amas? Apascenta as minhas ovelhas”. O Senhor me escolheu, me ungiu e me enviou como resposta ao seu chamado. Isso não é, de forma alguma, um privilégio humano, uma honra mundana, mas sim um serviço, uma missão que comporta uma graça sobrenatural.

Sim, ser pastor segundo o coração do Pai, atendendo ao chamado de Jesus, só é possível como graça sobrenatural, na força e na unção do Espírito Santo. Eu me aposso dessa graça que, como toda graça divina, é imerecida e se fundamenta na insondável misericórdia de Deus e no seu misterioso beneplácito, não advém por meus méritos e virtudes.

Por graça e misericórdia, hoje o Senhor me constitui pastor do povo dessa paróquia e, como pastor, sou imagem pálida e imperfeita, mas ao mesmo tempo sacramento, do único Bom Pastor que é Jesus. Esse pastoreio, essa missão de serviço ao povo de Deus, não provém de mim, não é uma escolha pessoal. Ele só tem sentido dentro da comunhão eclesial, desejada e estabelecida pelo Fundador, Jesus Cristo. Dito em outras palavras: somente serei pastor, imagem do Bom Pastor Jesus em comunhão plena com o pastor dessa arquidiocese de Fortaleza, nosso arcebispo Dom José Antônio. Ele é para nós o sinal da unidade da Igreja e sobre o todo o povo a ele confiado nessa arquidiocese. Essa unidade também é visível na comunhão presbiteral com os senhores bispos auxiliares, vigários episcopais, e todos os irmãos no sacerdócio e no diaconato que muito me honram com suas presenças aqui hoje, bem como todos os irmãos em Cristo consagrados no sacerdócio comum dos fiéis pelo batismo. Sem essa comunhão que se fundamenta na fé e no amor, todo o esforço pastoral, por mais nobre que seja, corre o risco de tornar-se mero esforço humano, fruto do orgulho e da vaidade e, portanto, infrutífero para o Reino de Deus.

Nesse espírito, peço, em nome de Jesus, que cada comunidade, cada capela dessa paróquia, viva esta unidade fundamental sem a qual os de fora não poderão reconhecer que somos discípulos de Cristo. Somos uma comunidade de comunidades que caminha unida. Essa unidade é uma exigência evangélica e não um capricho nosso. Cada capela e comunidade que faz parte dessa paróquia sinta-se, no amor de Cristo, um só coração e uma só alma. Que ninguém caia na tentação de caminhar sozinha, mas saibam também que vocês não estarão sós. Quero me fazer presente, na medida do possível, em todas as comunidades. Contem comigo.

Meus irmãos, retomando a palavra inicial – “Dar-vos-ei pastores segundo o meu coração” – dirijo-me a vocês como amigos e, porque não dizer, como filhos. Essa palavra me estremece as entranhas. Terei eu o coração segundo o coração de Deus? Certamente não. Mas anseio por ter o meu coração unido ao coração de Jesus e faço minha essa jaculatória tão tradicional na Igreja: “Jesus manso e humilde de coração, fazei o meu coração semelhante ao vosso”. Fazei, Senhor, que o meu coração, unido ao vosso, possa compadecer-se das ovelhas; possa ir em busca daquela que se extraviou e se perdeu e que, perambulando por caminhos distantes do Evangelho, feriu-se gravemente.

Peço ao Senhor que me faça ir ao encontro do seu povo onde ele se encontra: nas comunidades eclesiais, nos bairros, nas ruas e praças, nas casas, nas escolas, nos ambientes de trabalho. Enfim, onde estiver o povo de Deus, ali estará a minha missão.

Diante disso, impõe-se uma pergunta: como se fará isso? Sem a graça de Deus, como foi dito antes, é impossível. Porém, aqui entra um fator importante que gostaria de chamar especial atenção: como padre, participo do ministério sacerdotal de Cristo: “in persona Christi caput” – na pessoa de Cristo cabeça – porém, como diz o Concílio Vaticano II, essa missão, embora de modo qualitativamente diverso, é confiada também aos fiéis leigos, consagrados a Cristo pelo batismo. Dessa forma, não me sinto só. Quero contar com o apoio comprometido, afetivo e efetivo, de todos os discípulos e missionários de Cristo, como nos denomina o Documento de Aparecida.

Faço agora uma convocação: vamos juntos trabalhar pelo Reino de Deus! Que cada comunidade, capela; cada irmão consagrado pelo batismo se sinta co-responsável nessa missão de anunciar o evangelho. Conclamo hoje cada um de vocês a uma invasão: vamos invadir com a luz de Cristo as trevas dos corações que se afastaram dos caminhos do Senhor por motivos que só Deus pode julgar, não raro por nossa culpa. Vamos penetrar, com doçura e suavidade, mas com firmeza e determinação, cada recôndito dessa paróquia para que ninguém seja privado do anúncio do Evangelho. Como o sol que brilha inexoravelmente sem que ninguém possa impedir o amanhecer, que a luz do Evangelho penetre, por nosso testemunho e por nossa palavra, em todos os lugares onde ainda prevaleçam as trevas da ausência de Deus. Não hajam portas fechadas para Cristo, não hajam “condomínios fechados” ao Evangelho. Pobres e ricos, todos são merecedores de receberem o anúncio do Evangelho, todos têm o direito de receberem o anúncio da Boa Nova.

Evoco aqui uma imagem muito bonita: naquela noite de Páscoa, mãe de todas as vigílias, festa da nossa redenção, a luz do círio pascal acendendo nossas velas é sinal da luz de Jesus Ressuscitado que ilumina nossa vida. Que essa luz faça de nós essa chama viva do amor para esse mundo sedento de amor, sedento da verdadeira paz que o mundo não pode nos dar. Para isso, ninguém está dispensado. Cada um de vocês pertencente a essa paróquia de Sant’Ana e S. Joaquim, sinta-se participante dessa grande missão que emana do próprio batismo. Eu conto com vocês! Mais que isso, Jesus conta com cada um de vocês.

Eu conto com as crianças com sua alegria, pureza e entusiasmo para darem testemunho do amor a Jesus, especialmente na Eucaristia. Conto com os adultos, com as famílias, para que sejam sinal desse amor de Cristo por sua Igreja e abram as portas do seus lares para acolher a Palavra de Deus, como Igreja Doméstica que vocês são chamados a ser, testemunhas do amor de Cristo por sua Igreja. Conto com os anciãos para, mesmo com as limitações pessoais, serem sinais da caridade, na paciência, na oblação. Que a idade avançada seja sinal para nós mais jovens da sabedoria e da perenidade na vida dos valores imutáveis do Evangelho. Que os avós de Jesus, padroeiros dessa paróquia, sejam esse sinal para cada um de vocês.

De modo particular, especial, conto com vocês jovens! Convoco vocês a serem protagonistas dessa missão. Conto fortemente com cada um de vocês, pois, repetindo um grande pastor querido a todos nós, o venerável Papa João Paulo II, vocês são minha alegria e minha coroa. Junto com S. Dom Bosco, um grande modelo para mim, eu digo: não basta que vocês sejam amados, vocês precisam saber e sentir isso! A amizade de vocês é mais valiosa para mim do que qualquer honra ou reverencia dos poderosos desse mundo.

Jovens, eu conto com o entusiasmo de vocês. Conto com a força e o fervor de vocês. Conto com a disposição de vocês por abraçar o Evangelho de modo radical. Conto com a fidelidade incondicional de vocês a Jesus e à sua Santa Igreja Católica. O Santo Padre na Conferência de Aparecida nos diz: “Os jovens não temem o sacrifício, mas, sim, uma vida sem sentido”. Portanto, meus queridos, junto com o Papa eu digo a vocês: não tenham medo de abrirem, escancararem completamente as portas dos corações de vocês Àquele que é o sentido absoluto de nossas vidas! Incendiados pelo fogo do seu amor que arde em nossos corações ao ouvir a Sua Palavra, como os discípulos de Emaús, corramos no meio da noite avançada desse mundo para anunciar aos nossos irmãos que se encontram no cárcere do medo, que Cristo está vido, nos o ouvimos, o tocamos pela fé e, com ele, ressuscitamos para uma vida nova, vida plena!

Enfim, essa paróquia deve ser para nós terra de missão. Quero que ela esteja aberta a todos que desejarem colaborar em unidade, para que o Evangelho seja anunciado e o Senhor Jesus seja mais amado. Aqueles que quiserem se juntar a nós, com o intuito de somar e multiplicar, jamais de dividir ou subtrair, sejam muito bem vindos.

Muito obrigado a todos os que me alegram com sua presença aqui e a todos os que colaboraram de uma forma ou de outra para essa celebração tão bela. Que Deus recompense a cada um na riqueza de sua graça.

Jesus Bom Pastor, manso e humilde de coração, que tornais leve o fardo e suave o jugo dos que vos seguem, dai-me um coração compassivo como o vosso para que juntos, ovelhas e pastor, possamos caminhar com alegria e entusiasmo para o Pai, rumo ao Reino definitivo.

Consagro a Maria Santíssima, nossa Mãe, a missão que ora se inicia. Que Ela cuide de mim e de cada um de nós com seu olhar de amor e sua intercessão.

Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo.

 

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