Se fé da Igreja enfraquece, exorcismo perde eficácia

Começa um curso sobre exorcismo no “Regina Apostolorum” de Roma
ROMA, terça-feira, 29 de março de 2011 (ZENIT.org) – O Pe. François Dermin, presidente nacional do Grupo de Pesquisa e Informação Religiosa (GRIS, na sigla em italiano), prior do convento de São Domingos de Bolonha e professor de teologia moral, italiano com origens canadenses, é um dos professores do curso de exorcismo que será realizado esta semana no Ateneu Pontifício ‘Regina Apostolorum’, em Roma.ZENIT: Hoje se conhece mais sobre o demônio do que se conhecia, por exemplo, na Idade Média?

Pe. François Dermin: Do ponto de vista teológico, não se sabe mais do que se sabia na época. Grandes doutores da Igreja, como São Tomás, São Boaventura e Santo Agostinho, e tantos outros santos, falaram do demônio de maneira profunda, também especulativa, filosófica e teológica.

No entanto, podemos saber mais sobre algumas doenças que no passado eram consideradas manifestações da ação diabólica, mas que são apenas doenças. Por exemplo, no passado, a epilepsia era relacionada a uma forma de possessão diabólica, quando, na verdade, é uma doença a ser curada.

ZENIT: O que distingue um caso de possessão, infestação ou manifestação diabólica de uma doença?

Pe. François Dermin: Esta é, a meu ver, uma das principais dificuldades do exorcista, pois ele deve discernir e esta é a parte central do ministério exorcístico. Porque algumas pessoas acreditam estar à mercê de uma ação do demônio, não necessariamente possuídas, mas perseguidas, humilhadas, obcecadas ou coisas assim.

Portanto, temos de perceber se são pessoas que sofrem alucinações ou algo do tipo. Nestes casos, é preciso falar com elas e, quando necessário, deve-se recorrer a médicos e psiquiatras. Por exemplo, quando eu era exorcista em minha diocese, minha equipe incluía dois padres e dois psiquiatras, a quem acudíamos em caso de dúvidas.

O discernimento nem é sempre imediato. Conversando com as pessoas ou sobre elas, você percebe se há algumas reações – não necessariamente espetacular, como no caso de possessão -, mas reações particulares, como uma sucessão de calor e frio, desmaios ou se a pessoa começa a arrotar ou fazer algo assim. O discernimento é feito também com a oração. Devemos recordar que o exorcismo é uma obra sobrenatural e que o personagem principal é Deus.

ZENIT: Jesus realizou exorcismos.

Pe. François Dermin: João Paulo II dizia que um dos principais ministérios de Jesus era o exorcismo. Não foi por acaso que ele realizou tantos, embora na Bíblia e nos Evangelhos nem sempre seja clara a distinção entre cura e libertação.

O exorcismo é frequentemente associado, quase exclusivamente, à possessão, mas muitas vezes o exorcista tem de lidar com pessoas que são vítimas de outras formas de perseguição diabólica: infestações de casas onde se ouvem barulhos, móveis que se mexem ou se quebram etc.

Há também casos de possessão em que as pessoas ouvem vozes dentro de si. Isso geralmente acontece quando se pratica o espiritismo. É claro que você tem que verificar se não são casos de esquizofrenia.

A libertação também ocorre através de uma jornada espiritual. A pessoa tem que mudar a sua vida, frequentar os sacramentos etc.

ZENIT: Um exorcismo é suficiente ou é um processo?

Pe. François Dermin: Aqui, estamos tocando um tema muito delicado. Tenho ouvido testemunhos de exorcistas de quarenta ou cinquenta anos atrás, que mostram que um só exorcismo era suficiente para libertar uma pessoa. Hoje pode durar meses e, às vezes, anos. E nós temos que refletir sobre por que isso acontece.

Alguns podem pensar que isso se deve a uma sociedade que se afastou de Deus, de certa forma, que apostatou.

Aqui, no entanto, dou uma opinião absolutamente pessoal: o exorcista não faz uma oração pessoal, mas ora em nome da Igreja. E se a fé se enfraquece no interior da Igreja, não excluo a possibilidade de que isso contribua para a redução da eficácia do exorcismo.

ZENIT: Qual é a relação entre as fórmulas do exorcismo e a fé?

Pe. François Dermin: As fórmulas sem a fé não valem nada. Mas não é somente a fé do exorcista, e sim a fé da Igreja. Aqui, quando eu digo “Igreja”, quero dizer a Igreja institucional que sempre acreditou e ensinou a realidade sobre o demônio e a possibilidade concreta de perseguição por parte dele. Falo, no entanto, dos homens de Igreja. Nem todos os padres – e até bispos – acreditam nessas coisas. Eu entendo que esta é uma questão muito delicada.

ZENIT: Não a Igreja gloriosa, mas a militante?

Pe. François Dermin: A Igreja aqui na terra pode ser tentada também com o secularismo. É o racionalismo. Existe o risco de enfraquecer a fé sobre a existência do demônio.

ZENIT: O sacerdote que exerce o ministério do exorcismo tem de adquirir experiência?

Pe. François Dermin: Nunca se termina de aprender e a experiência enriquece sempre, é fundamental. O problema hoje é que os exorcistas se tornam exorcistas sem um professor para ensiná-los. Pela minha parte, eu tive pouca experiência prática e, em certo sentido, tive de lidar com isso, cometendo inclusive alguns erros. A experiência é adquirida gradualmente. O ideal seria ter professores neste campo.

Nem sempre encontramos uma explicação para tudo; no entanto, devemos acreditar que Deus está presente, que age, que estamos do lado do vencedor e que o demônio quer incomodar o homem, afastá-lo de Deus ou até mesmo destruí-lo. E que Deus dá à Igreja os meios para combater vitoriosamente o demônio.

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A tentação-mosca

Um padre da Igreja (teólogo dos primeiros séculos cristão) dizia que o demônio é como um cão que late mas não morde, pois está amarrado. Ele só morderá quem dele se aproximar. É uma comparação muito simples mas, ao meu ver, muito profunda e verdadeira. O demônio pode fazer muito barulho, tentar nos distrair, nos fazer medo, etc., mas não pode nos tocar a não ser que demos trela para ele.

cachorro-latindo massa

Na história do pecado original, na tentação dos nossos primeiros pais, há uma coisa muito interessante:

“A serpente (…) disse à mulher:

– Então Deus vos disse para não comerdes de nenhuma árvore do jardim?

A mulher respondeu à serpente:

– Não! Nós podemos comer de todas as árvores do jardim…” (Gn 3,1-2a)

Eu já disse anteriormente que não sou estudioso da Bíblia, só coloco às vezes as minhas impressões, aquilo que acredito que Deus coloca no meu coração. Nesse caso, eu parei de escrever os versículos porque creio que foi exatamente aí que começou o pecado: “A mulher respondeu à serpente”. Esse é o nosso problema, às vezes damos muita trela para o demônio, para aquilo que ele nos sugere. Damos “ouvidos”, respondemos às suas provocações, nos aproximamos do cão amarrado.

Damos ouvidos quando ficamos tristes por vermos pecados e fraquezas em nós. Ora, é justamente esse o objetivo dele: nos desanimar, nos entristecer! Quanto falta o louvor nos nossos corações e começa a tristeza e a melancolia, começamos a “responder à serpente”. Damos ouvidos quando queremos “testar as nossas forças”, mesmo sabendo da nossa fraqueza, nos expomos à tentação. Nós não “nos garantimos”! Quem nos garante é a graça de Deus! Não devemos nos expor ao diabo (Ef 4,27), pois ele “rodeia como um leão a rugir, procurando a quem devorar”! (I Pe 5,8).

leão rugindo

Eu tinha um confessor e diretor espiritual quando eu estava no início da minha caminhada no seminário que nos aconselhava a louvarmos a Deus até mesmo pelo pecado. Não porque o pecado seja uma coisa boa, mas porque deveríamos destruir o tentador com a sua própria arma. Sei que isso é muito difícil, mas o segredo está em não esmorecer o louvor. Não é que devemos agradecer a Deus pelo ódio que sentimos por alguém, por exemplo, mas agradecer a Deus que nos perdoa, que ama aquela pessoa, que nos dá paciência… etc.; você pode não agradecer a Deus porque pecou contra a castidade, mas porque você é filho de Deus, porque Deus criou o seu corpo e o corpo das outras pessoas de maneira tão bela… devemos usar a criatividade e não dar trela para o inimigo.

Bom, eu também gosto de dizer que o demônio, as tentações são como moscas. Elas perturbam, tiram a paciência do cidadão, mas elas são apenas… moscas! Nada mais! Simplesmente moscas. Se olharmos para uma mosca com uma potente lente de aumento, talvez o seu aspecto terrível até nos amedronte. Às vezes um problema, uma tentação, um pecado é visto com essa lente. A coisa é realmente feia, mas uma mosca, convenhamos, não mata! A mesma coisa que falei lá no “pinico de passarinho”: você pode não conseguir evitar que as moscas lhe encham o saco, mas daí a comê-las ou brincar com elas… é outra coisa!


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Um artista conhecido apenas como Flychelangelo está ganhando fama usando moscas mortas em suas composições. A ideia é simples: os insetos servem como modelos em uma tela branca. O restante do cenário é composto por uma caneta criativa e bem humorada.

Legal né? 😉