POBRES

Os pobres….

Um dia eles verão o que fizemos por eles e podemos nos envergonhar ou sermos recompensados. Hoje, ao olhar para a humanidade, vemos o fruto, a consequência da queda. A pobreza, a miséria, a decadência física, a ignorância, a ausência quase total de “civilização” e, em suma, o pecado que habita em nossos corações, ofuscam a beleza original de Deus em nós.

Mas tudo isso será tirado. Com a Redenção definitiva, o brilho, o esplendor divino voltará ao mundo, a nós. O véu do pecado cairá de nossa natureza e veremos tudo com a clareza da Sabedoria Divina.

Pois bem, quando visitamos um pobre sujo e ignorante, estamos vendo algo provisório, como é provisória a nossa situação atual. Quando chegar o definitivo, aquela pessoa – assim como cada um de nós que cremos em Deus – verá a verdade e verá como a recebemos, acolhemos, a amamos e servimos. Diante dessa pessoa, no céu, teremos acolhimento, reconhecimento, gratidão ou… vergonha! Serão elas que julgarão, diante da Verdade, se amamos a Jesus na pessoa delas (Cf. Mt 25)


“Ofereçamos a misericórdia e a compaixão na pessoa dos pobres que hoje na terra são humilhados, de modo que, ao deixarmos esse mundo, eles nos recebam nas moradas eternas, juntamente com o próprio Cristo nosso Senhor, a quem seja dada a glória pelos séculos dos séculos. Amém.” (São Gregório de Nazianzo)

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Nunca mais pecar

Sempre fiquei intrigado, desde que fiz o catecismo para a primeira comunhão, com essa expressão do ato de contrição tradicional: “prometo nunca mais pecar”. Para quem não lembra, ou não usa o ato de contrição que se ensina às crianças, aí vai: Senhor, eu me arrependo de todo o coração por vos ter ofendido, porque sois tão bom e amável, prometo, com a vossa graça, nunca mais pecar. Meu Jesus, misericórdia.

Algumas versões, até mesmo omitem o aposto “com a vossa graça” ou a frase “porque sois tão bom e amável”.

Variantes à parte, o fato é que nunca mais pecar, com ou sem a graça de Deus, nunca me pareceu promessa que se faça! Às vezes eu prometo coisas simples, muito simples e, infelizmente, não cumpro. Imagina prometer uma coisa tão grande, na verdade, imensa, incrivelmente grande como não pecar mais! Parece-me, desde minha infância, um disparate. Como vocês podem ver, eu sempre fui muito inteligente…

Quando questionei minha catequista sobre esse assunto, ela me deu a resposta tradicional: nós prometemos nunca mais pecar, com a graça de Deus.

É verdade, com a graça de Deus, tudo, tudo mesmo, é possível! Precisamos acreditar nisso e não rezar da boca pra fora: Deus pode tudo! Inclusive fazer de mim, de cada um de nós, um santo.

Mas, mesmo assim, ainda ficava com a pulga atrás da orelha. Se é verdade que, com a graça de Deus, tudo é possível, é também verdade que a minha fraqueza atrapalha grandemente a graça de Deus. A liberdade é um dom maravilhoso e terrível ao mesmo tempo. Deus é capaz, mas eu posso dizer não à graça. Portanto, o problema da promessa quase impossível continua. Como posso prometer a Deus uma coisa tão grande?

Aqui devem entrar em ação as três virtudes mais importantes: a fé, a esperança e a caridade.

A fé no poder de Deus, em sua graça; a esperança de que um dia isso se realizará; e o amor (caridade) para que nos disponhamos a isso.

Sim, devemos rezar de todo coração para que nunca mais caiamos no mesmo pecado.

Mas eu descobri uma coisa que é uma bomba! Acho que a gente não pensa nisso e, no fundo, no fundo, é a real razão pela qual rejeitamos essa oração-promessa. Quer saber? Está preparado?

Nós não queremos prometer a Deus, nem mesmo com a ajuda da graça, nunca mais pecar porque simplesmente NÃO QUEREMOS NUNCA MAIS PECAR! Isso mesmo. Por mais absurdo que seja. Talvez não em relação a todos os pecados e, quase sempre, não conscientemente, deliberadamente, mas é a verdade. Guardamos uma “esperança maldita” de voltarmos a pecar! Não queremos ser imediatamente santos. Guardamos o secreto desejo de “cair” na próxima oportunidade, afinal, somos fracos… não existe isso de “nunca mais pecar”! – é o que pensamos inconscientemente.

Sei que pode parecer um absurdo o que eu estou dizendo. Talvez você diga: não, não é verdade, eu quero ser santo. Bom, você quer? Quer mesmo? Então porque não dá um basta?! Porque simplesmente não para e corta o mal pela raiz? Por que você não foge de todas as ocasiões? E se a confissão que você está fazendo agora fosse a última da vida? Se por muitos e muitos anos você não pudesse encontrar um sacerdote?

Claro que a coisa não é simples, que temos que reconhecer a nossa fraqueza e que podemos cair em pecado. Isso é verdade. A gente só não pode é usar a “desculpa” da fraqueza pra não nos decidirmos verdadeiramente.

Talvez, alguns pecados já foram eliminados da nossa lista sem que nos demos conta, só porque, para esses, valeu a oração nunca mais pecar. Por exemplo: talvez você não cole mais na prova, não escute mais músicas satânicas, não diga mais palavrões, não roube mais, não use drogas… etc. Que bom! Então vamos nos decidir pelos outros com a mesma força de vontade, o mesmo empenho, a mesma penitência, o mesmo amor, a mesma fé.

Que a cada confissão você vá com essa confiança e convicção: eu quero que essa seja a última vez na minha vida que eu confesse esse pecado. E que, após a absolvição do sacerdote você vá rezar com essa esperança. Isso pode parecer uma neurose e, de fato, corre o risco de se tornar, se você não for humilde. A humildade faz com que reconheçamos as quedas, nos levantemos pela misericórdia e nos decidamos a lutar novamente, sem tréguas, sem moleza!

A graça de Deus é onipotente! Deus pode fazer de mim e de você um santo! Nós queremos?

HUMILDADE

SANTA TEREZINHA

Entre todas as virtudes, a humildade, sobretudo, chegou ao apogeu em Santa Teresa do Menino Jesus. Foi para ser a mais humilde e pequena que seguiu a “via da infância espiritual”, ou foi esta via, seguida fielmente que a tornou humilde e simples como uma criancinha.
Irmã Teresa do Menino Jesus via com alegria que, apesar de nove anos de vida religiosa, ficara sempre no Noviciado, não fazendo parte do Capítulo conventual e sendo considerada uma “criança”.

“Senhor, sofrer e ser desprezado”.
Quando passou pela provação tão humilhante da doença de nosso venerado pai, mostrou que seus desejos de desprezo não eram letra morta.
Quantas vezes, desde sua adolescência, não repetira com entusiasmo esta palavra de S. João da Cruz: “Senhor, sofrer e ser desprezado por vós!” Era o tema de nossas aspirações, quando, às janelas do Belveder, nos entretínhamos juntas sobre a vida eterna.
Gostar de ser mandada e censurada.

“É preciso, sobretudo, dizia-me, ser humilde de coração. Não o sereis enquanto não quiserdes sujeitar-vos a todo mundo. Se as cousas correm bem, estais de bom humor, mas assim que não concordam com vosso modo de pensar, vosso rosto reflete tristeza. Isto não é virtude. A virtude “é submeter-se humildemente a todos”, é alegra-se por censurada. No começo de vossos esforços, a contrariedade aparecerá no exterior e as criaturas vos julgarão, por isso, imperfeita. Mas tanto melhor! Praticareis assim a humildade que consiste não em pensar e dizer que estais cheia de defeitos, mas em ficardes contente de que os outros o pensem e mesmo o digam.

“Deveríamos nos alegrar muito, quando o próximo nos deprecia algumas vezes, pois se ninguém tivesse este ofício, o que sereia de nós? É o nosso lucrozinho…”
Durante uma festa de comunidade em que houve uma “representação piedosa” de sua autoria, a peça foi criticada e interrompida pela sua extensão. Surpreendi-a atras dos bastidores, enxugando furtivamente algumas lágrimas, .depois, senhora de si, ficou calma e suave sob a humilhação.

Era com alegria celeste que aceitava toda repreensão não somente dos superiores, mas dos inferiores. Assim deixava que as noviças lhe dissessem cousas desagradáveis, sem nunca as repreender, no momento. “Quero aceitar as observações quando são justas, dizia-lhe eu. Desde que errei, aceito-as, mais não posso suportar as repreensões se não tenho culpa.

– Quanto a mim, replico, bem ao contrário, prefiro ser acusada injustamente porque então não tenho nada que me reprovar. Ofereço isso a Nosso Senhor com alegria, em seguida, humilho-me pensando que seria bem capaz de cometer a falta de que me acusam”. “Parece-me, confessava ela simplesmente, que a humildade é a verdade. Eu não sei se sou humilde, mas sei que vejo a verdade em toda as coisas”.

Costumava classificar-se entre os fracos, donde originou a denominação de “pequena almas”. Nas instruções particulares que dava a cada uma de suas noviças, falava sempre sobre a humildade. O essencial em sua formação era ensinar-nos a não nos afligirmos diante de nossa própria fraqueza, mas antes, a gloriarmo-nos em nossas enfermidades!…. “É tão doce sentir-se fraca e pequena!” – dizia.

Numa circunstância em que Irmã Teresa do Menino Jesus apontara todos os meus defeitos, fiquei triste e um pouco desorientada. “Eu que desejo tanto possuir a virtude, pensava, eis-me longe, quereria tanto ser mansa, paciente, humilde, caridosa; ah! nunca chegarei a isso!… ”

Entretanto à tarde, na oração, li que exprimindo Santa Gertrudes este mesmo desejo, Nosso Senhor lhe respondera: “Em todas as cousas e acima de tudo; tem boa vontade; esta única disposição dará a tua alma o brilho e o mérito especial de todos as virtudes. Quem tem boa vontade, desejo sincero de procurar minha glória, de me dar graças, de compadecer de meus sofrimentos, de amar-me e de servir-me tanto quanto todas as criaturas juntas, este receberá indubitavelmente recompensas dignas de minha liberalidade e seu desejo ser-lhe-á, algumas vezes, mais proveitoso do que, para outros, as boas obras” .

Muito contente com essa boa palavra, a meu favor, participei a minha querida Mestrazinha que triunfante acrescentou: “Leste o que se conta na vida do Padre Surin? Ele fazia um exorcismo e os demônios disseram-lhe: “Não conseguimos nada; é só a este cão da boa vontade que não podemos nunca resistir”. Pois bem! se não tende virtudes, tendes um “cãozinho” que vos salvará de todos os perigos; consolai-vos, ele vos conduzirá ao paraíso! Ah! qual é a alma que não deseja possuir virtudes! Ë a via comum! Mas como são pouco numerosas as que aceitam cair, serem fracas, as que estão contentes ao se verem por terra e aí serem surpreendidas pelos outros!”.

Um dia em que eu estava desanimada e atribuía esse estado de depressão à minha fadiga, disse-me: “Quando não praticais a virtudes não deveis pensar que seja devido a uma causa natural como a doença, o tempo, ou o aborrecimento. Antes, tirai disso um grande motivo de humilhação e colocar-vos entre as pequenas almas, pois que só podeis praticar a virtude de maneira tão fraca. O necessário, agora, não é praticar virtudes heróicas, mas, adquirir a humildade. Para isso é preciso que vossas vitórias sejam sempre acompanhadas de algumas derrotas, afim de que não haja complacência de vossa parte. Ao contrário, essa lembrança vos humilhará mostrando-vos que não sois uma grande alma. Há almas que nunca têm na terra a alegria de se verem apreciadas pelas criaturas, o que as impede de crer que possuem a virtude que admitam nos outros”.

Um “pequeno meio”…
Ultimamente, confiou-me, fui imperfeita com uma Irmã; creio que ela não percebeu a luta interior, entretanto alimentei o pensamento de que me julgará sem virtude e fiquei bem contente de crer-me assim.

Uma outra vez, em semelhante ocasião, dizia-me: “Enche-me de alegria o ter sido imperfeita; hoje Nosso Senhor fez-me grandes graças, foi um ótimo dia…” . Perguntei-lhe então como podia experimentar esses sentimentos. “Meu pequeno meio, respondeu-me, é estar sempre alegre, sorrir sempre, tanto na queda como na vitória”.

Esta alma tão forte desconfiava tanto de si mesma que se julgava capaz dos maiores pecados. Escrevera sob uma estampa de Jesus Crucificado estas palavras que traduzem as disposições habituais de sua alma: “Senhor, bem sabeis que vos amo, mas tende piedade de mim que sou pecador”.

Citava-me um pequeno fato em que havia tocado com o dedo a frivolidade humana à qual ninguém pode subtrair-se. A noite de Natal de 1887 em que esperava entrar no Carmelo, foi para ela uma extraordinária provação; depois de todas as suas diligências, vendo-as ainda no mundo, sua alma estava na agonia.

“Pois bem! confessou-me mais tarde, imaginai que, apesar deste oceano de amargura em que estava mergulhada, fiquei entretanto contente de estrear meu lindo chapéu azul ornado com uma pomba branca! Como são estranhas estas manifestações da natureza!”…
A verdadeira alegria.

Eu considerava que as cousas que nos satisfazem – um pensamento alegre, mesmo piedoso – acabam cansando o coração que delas se apega, e que torna tristeza toda alegria muito prolongada. Ela respondeu-me:

“Só em Deus há repouso. A verdadeira alegria que jamais cansa é a que vem do desprezo se si mesma. Assim, a respeito de vossa fraqueza de ontem à noite… (chorara porque custava ir visitar as doenças depois de Matinas, estando muito cansada, e uma Irmã o percebera): se a Irmã que vos surpreendeu julgar-vos sem virtude e se vós concordardes com tal juízo de todo coração, eis a verdadeira alegria!

– Oh! tendes razão, compreendo tão bem o que devo fazer! Vejo-o claramente e não posso agir; não! nunca chegarei a ser boa!
– Sim, sim, chegarei; Nosso Senhor vos fará chegar.
– Bem! mas nunca as criaturas notarão isso, ao passo que eu cair sempre, sempre me acharão imperfeita. É a vós, todas reconhecem virtuosa.
– É porque nunca o desejei! Que vos achem sempre imperfeita é o que vos convém! Lucrareis com isso. Crer-se imperfeita e achar os perfeitos, eis a felicidade. Que vos reconheçam sem virtude, isso em nada vos prejudica, sem vos torna mais pobre! Os outros é que perdem a alegria interior, pois não há nada mais doce que pensar bem de nosso próximo. Tanto pior para quem vos julgar desfavoravelmente e tanto melhor para vós se vos humilhardes por amor de Deus”.
Eu lhe confessava: “Estou numa disposição de espírito em que me parece que não penso mais.
– Isso não tem importância, respondeu-me, Nosso Senhor conhece vossas intenções. E, empregando a propósito, para fazer-me sorrir, um pequeno ditado especial bem conhecido de nós duas, acrescentou: “Quanto mais humilde, mais feliz”.
– Oh! quando penso, disse-lhe, em tudo o que tenho para adquirir.
– Dizei antes, para perder!… Jesus é que encherá vossa alma de esplendores na medida em que a desembaraçardes de suas imperfeições.

“Nunca chegarei a praticar a virtude, dizia-me muitas vezes; quereis subir uma montanha e Deus quer fazer-vos descer ao fundo de um vale fértil, onde aprendereis o desprezo de vós mesma!”
Eu sonhava dar sempre o bom exemplo às noviças, queria que me tomassem por modelo, por isso quando tinha a infelicidade de cair, cria tudo perdido:

“Isso, disse-me ela, é procura de si mesma, um falso zelo e uma ilusão. Conta-se que um bispo, desejando conhecer um santo que gozava de uma alta reputação, foi visitá-lo acompanhado pelos grandes de seu séquito. O santo, de longe, vendo aproximar-se o prelado com sua corte, teve um movimento de vaidade, e quis dominar-se. Percebendo crianças que brincavam de balanço numa árvore, prontamente mandou descer uma delas e pôs-se em seu lugar. O bispo tomou-o por insensato e voltou, sem outro exame”.

“Assim, a alma muitas vezes não é bastante forte para receber elogios. Deve então sacrificar, de quando, algum bem aparente, à sua própria santificação. É preciso alegrar-se de cair; se caindo não houvesse ofensa a Deus, dever-se-ia fazê-lo de propósito, a fim de se humilhar”.
Como a Santíssima Virgem.

Ela era indiferente ao que pensava a seu respeito, ainda que se escandalizassem com certas aparências. Assim, no começo de sua doença, estando obrigado a ir tomar remédios alguns minutos antes das refeições, uma Irmã antiga admirou-se, queixando-se de ser ela irregular. Bastava Irmã Teresa do Menino Jesus dizer uma palavra para escusar-se e restituir a calma a esta Irmã. Evitou de fazê-lo, tomando como exemplo a conduta da Santíssima Virgem que preferiu deixar-se difamar a desculpar-se junto de São José. Falava-me muitas vezes dessa conduta tão simples e tão heróica.

Como Maria, seu grande meio era o silêncio. Gostava de “guardar todas as cousas em seu coração”, alegrias e penas; esta reserva foi sua força, o ponto de partida de sua perfeição, como também seu cunho exterior, pois era de uma ponderação admirável.


POBREZA ESPIRITUAL

Como lembrança de minha profissão, a querida Irmãzinha, pintou as armas que eu tinha composto com esta divisa: “Quem perde, ganha”. Explicou-me que, sobre a terra, é preciso tudo perder, deixar que nos tomem tudo para chegar a pobreza de espírito.

Desejava para os outros, mais que para si, as graças interiores. Tendo encontrado um livro que lhe fazia muito bem, eu a vi passá-lo às Irmãs sem termina-lo. E jamais pude acabar sua leitura.
Se Deus lhe dava luzes, no-las comunicava tanto quanto podia… Mas teve por vezes dessas luzes vivas e penetrantes que vislumbradas, passaram sem deixar lembrança alguma: “Queria captá-las novamente, disse-me ela, mas impossível! Então em vez de cansar-me procurando o que havia produzido essa alegria em minha alma, contentava-me de gozar do bálsamo que deixara, sem saber como tinha vindo e ficava contente com essa pobreza…”

Como as criancinhas que não têm nada de seu e dependem absolutamente de seus pais, ela queria que vivêssemos dia por dia, sem fazer provisões espirituais.
“Se Nosso Senhor quiser belos pensamentos e sentimentos sublimes, Ele tem seus anjos… Poderia mesmo criar almas tão perfeitas que não tivessem nenhuma das fraquezas de nossa natureza. Mas não! Ele põe suas delícias em pobres criaturinhas fracas e miseráveis… Sem dúvida, isso lhe agrada mais!”

Não se apoiar em nada
Irmã Teresa recordava as palavras e passagens dos Livros Santos para nutrir sua piedade.
Eu lhe disse: “É o que eu desejaria, mas não tenho memória suficiente!”
– “Ah! eis que desejais possuir riquezas, ter posses! Apoiar-se nisso é apoiar-se sobre um ferro em brasa! Deixa um pequeno sinal! É preciso não se apoiar em nada, nem mesmo naquilo que pode ajudar a piedade. O nada é a verdade, é não ter desejo, nem esperança de alegria. Como se é feliz então! Onde achar alguém perfeitamente isento da vergonhosa procura de si mesmo, diz a Imitação, é preciso procurá-lo bem longe e até as extremidades da terra. Bem longe, isto é, bem baixo… Bem baixo na própria estima, bem baixo por sua humildade, bem baixo, isto é, alguém bem pequenino…”
Toda gente procura sucessos.

Dizia-me:

“Entregai-vos demasiado ao que fazeis, como se cada cousa fosse vosso fim último e esperais sem cessar ter chegado a ele. Admirai-vos de ter caído; é preciso sempre contar com alguma queda!. O futuro preocupa-vos como se devêsseis organizá-lo. Compreendo então vossa ansiedade; estais o tempo todo a pensar: Ó meu Deus, que vai sair de minhas mãos! Tôda gente procura assim os sucessos, é a via comum; os que não os buscam são unicamente os pobres de espírito”.

Vaidade da estima das criaturas.
Manifestava-lhe o desejo de que as criaturas considerassem meus esforços e notassem meus progressos.
“Agir deste modo, replicou vivamente Irmã Teresa, é imitar a galinha que adverte todos os transeuntes, logo que pôs o ôvo. Assim, desde que agiste bem, ou que vossa intenção foi irrepreensível, quereis que todo mundo o saiba e vos aprove…

“Que vaidade querer ser apreciada por vinte pessoas que vivem convosco, ocupando-se, cada qual em sua pequena esfera, de suas respectivas intenções, saúde, família, progressos espirituais ou interesses pessoais, que deixam escapar palavras mais ou menos acertadas! Mas observando a fisionomia dos santos, penso que eles também estiveram sujeitos a muitas fraquezas, que de seus lábios saíram, por vezes, expressões bem humanas, e até vulgares. Penso, então, que não quero ser amada, estima senão no céu… porque lá somente, tudo será perfeito”.
Ao contrário de minha querida Irmãzinha que só tinha um desejo: que ninguém percebesse seu sacrifícios, eu, sempre seduzida pela vanglória, esforçava-me por atrair a atenção sobre o que eu fazia.

Dizia-me então:

“Quereis pôr-vos em evidência! Há muitos que exercem esse ofício; quanto a mim, envio fazê-lo, recearia não ganhar bastante. Pelo contrário, escondo tanto quanto possível o que faço e coloco tudo no banco de Nosso Senhor, sem me inquietar se rende ou não”.

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por
Escola de Formação Shalom

O menor é o maior

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Jesus pegou então uma criança, colocou-a junto de si e disse-lhes: ‘quem receber esta criança em meu nome estará recebendo a mim. E quem me recebe estará recebendo aquele que me enviou. Pois aquele que entre todos vós for o menos, esse é o maior. (Lc 9,47b-48)

Duas coisas me chamam atenção nessa passagem: primeiro o fato de que o Senhor pega uma criança e coloca junto de si. Algumas vezes vamos ver Jesus se relacionando com as crianças no Evangelho ou falando delas. Eu não sou exegeta nem biblista, muito longe estou disso; partilho apenas as minhas impressões e, nesse caso, vejo um Jesus sorridente. Convenhamos, as crianças da Galiléia de 2000 anos atrás não diferem das crianças da América do século XXI. São crianças e, tanto para aquelas como para estas, o que importa é o sorriso. Elas não se aproximam de um antipático! Não se aproximam de um carrancudo, nem muito menos se sentem à vontade, se deixam abraçar.

Uma amiga minha, professora primária na Itália, me contou uma vez que, para as crianças, alegria e simpatia eram sinônimos de bondade e beleza. Achei interessantíssima essa observação. Essa minha amiga dá aulas para crianças de 7 anos de idade e me disse que, quando ela chegava na escola um pouco triste, as crianças diziam: professora, você está feia hoje! Para as crianças o mau é sempre feio (por isso a absurda e esdrúxula cultura do feio nos desenhos animados que tentam fazer as crianças acreditar em heróis de aparência terrível… mas isso é outro assunto), e o bem é sempre belo, alegre, colorido e sorridente. Nelas, o conceito de bondade e beleza se confundem, como em Deus. Eu não sou psicólogo, nem pedagogo, nem trabalho atualmente com crianças, mas acredito que istou que estou falando é absolutamente certo pela experiência que eu tenho e pelo testemunho de outras pessoas.

Então, voltando ao assunto, acho que podemos “corrigir” alguma imagem distorcida na nossa mente a respeito de Jesus se olharmos o evangelho com o olhar de uma criança. Como você imagina Jesus?

Uma outra coisa muito importante, ao meu ver, nesse pequeno trecho do Evangelho é a frase de Jesus: o menor é o maior. Puxa vida! O menor, o mais simples, o mais humilde, o que serve é o maior. Aos olhos humanos, e até mesmo as olhos de homens cristãos como nós, isso não passa de uma teoria (para não dizer, uma quimera). Porque, no fundo e na prática, honramos os grandes e queremos ser grandes. Não quero aqui fazer uma ode ao complexo de inferioridade, mas sim confrontar a nossa vida com o Evangelho, a lei máxima! Tantas palavras bonitas tornam-se vazias se não se confrontam com a verdade clara e evidente do Evangelho. No Reino de Deus, o menor é o mais importante. Convenhamos: o “menorzinho” de uma família, não é  o paparicado da vez? Aquele que está enfermo, que não pode fazer coisa alguma, que está de cama, não se torna o mais importante para aqueles que o amam? Sabe porque o Evangelho parece que está de cabeça para baixo? Porque nós temos a visão invertida das coisas! O Evangelho é regido pelo AMOR e nós somos comandados, ou pelo menos fortemente influenciados, pelo poder, prazer e possuir. Pensemos nisso da próxima vez que formos preteridos em alguma coisa, que nos derem serviços mais humildes ou que não nos derem as “honras” que achamos que merecemos mais ou menos justamente.