Justo e Misericordioso

Olá Pessoal,

Faz um tempinho que não escrevo aqui e essa semana resolvi retornar, o que vocês acham?

Queria brevemente fazer um comentário sobre esses atributos divinos. Hoje fiquei tocado pelas palavras de Jesus no Evangelho e me pus a refletir sobre a justiça e misericórdia do Senhor. A justiça e a misericórdia andam juntas, lado a lado, de modo perfeito, como tudo em Deus. Não podemos pender nem para um lado nem para um outro, apesar de sabermos que “a misericórdia triunfa sobre o juízo”, entretanto, ela não é injusta.

Isso acende em nós a virtude do Santo Temor de Deus. Apaga o fogo da presunção orgulhosa. Não são nossos títulos, cargos, engajamentos que vão nos salvar. Não é porque pregamos ao povo, porque “comemos com ele” (fazemos comunhão na Missa) que automaticamente, simplesmente por essas práticas, seremos salvos.

Devemos nos esforçar por entrar “pela porta estreita” dos mandamentos. Devemos por em prática aquilo que acreditamos, como diz Jesus no Evangelho de hoje, devemos “praticar a justiça”.

Mas, o que é a JUSTIÇA? Certamente não devemos confundi-la ou reduzi-la com a “justiça social” tão apregoada. A justiça é dar a cada um o que lhe compete segundo os seus méritos. Portanto, o que é justo para mim não o será para um outro que não tem as obrigações, deveres e graças que eu possuo.

Enfim, não vou me delongar, só queria deixar essa breve reflexão. Ninguém estará excluído do Reino dos Céus se se esforçar por “entrar pela porta estreita”. Ao mesmo tempo, ninguém terá a garantia de que o Senhor lhe abrirá a porta apenas por títulos, cargos, ou práticas externas que não têm reflexo na vida pessoal, no amor a Deus acima de todas as coisas e no amor ao próximo como a si mesmo. Continuar lendo

Santo do dia

SÃO ROBERTO BELARMINO, BISPO
E DOUTOR DA IGREJA

Nasceu no ano de 1542 em Montepulciano, na Toscana (Itália). Entrou na Companhia de Jesus em Roma e foi ordenado sacerdote. Sustentou célebres disputas em defesa da fé católica e ensinou Teologia no Colégio Romano. Eleito cardeal e nomeado bispo de Cápua, contribuiu com a sua atividade junto das Congregações Romanas para a resolução de numerosos problemas. Morreu em Roma no ano 1621.

(…queria só dizer que eu conheço Montepulcino e já morei na Toscana… muito massa!!!)


Do Tratado sobre a elevação da mente a Deus, de São Roberto Belarmino (Séc. XVII)

Inclina o meu coração para os teus mandamentos

Ó Senhor, suave e manso e de grande misericórdia (Sl 85,5), quem não te servirá de todo o coração, se provar, por um pouco que seja, a doçura do teu domínio paterno? Que ordenas, Senhor, a teus servos? Tomai meu jugo sobre vós (Mt 11,29). E como é o teu jugo? Dizes: Meu jugo é suave, e o meu peso, leve (Mt 11,30). Quem não carregará contente o jugo que não oprime, mas suaviza, e o peso que não esmaga, mas refaz? Com razão acrescentaste: e encontrareis descanso para vossas almas (Mt 11,29). E qual é o teu jugo que não fatiga, mas descansa? Não é outro senão o mandamento, o primeiro e o maior: Amarás o Senhor teu Deus com todo o teu coração (Mt 22,37). Que de mais fácil, suave, agradável do que amar a bondade, a beleza, o amor, que tudo isto és tu, ó Senhor, meu Deus?

Porventura também prometes aos que guardam os mandamentos um prêmio, coisas mais desejáveis que ouro em abundância e mais doces que o favo de mel? Sim, um prêmio e prêmio imenso prometes, nas palavras de teu apóstolo Tiago: O Senhor preparou a coroa da vida para os que o amam (Tg 1,12). E que é a coroa da vida? É o maior bem que nem podemos imaginar ou desejar. Com efeito, assim fala São Paulo, citando Isaías: Os olhos não viram, os ouvidos não ouviram nem subiu ao coração do homem o que Deus preparou para os que o amam (1Cor 2,9; cf. Is 64,1-3; 65,17).

Verdadeiramente, há grande recompensa em guardar teus mandamentos. E não apenas o primeiro e máximo mandamento é de proveito para quem obedece, e não para Deus que ordena; mas também todos os outros mandamentos de Deus aperfeiçoam, ornam, instruem, ilustram aquele que obedece, e por fim o tornam bom e feliz. Se és sensato entende que foste criado para a glória de Deus e tua salvação eterna. É este o teu fim, este o centro de tua alma, este o tesouro de teu coração. Se chegares a este fim, serás feliz; se nele falhares, serás infeliz.

Por conseguinte, tem por verdadeiro bem aquilo que te leva a teu fim; e por mal, o que te separa deste fim. Prosperidade e adversidade, riqueza e indigência, saúde e doença, honras e vexames, vida e morte, nem uma delas o sábio procura por si mesma nem delas foge. Mas se concorrem para a glória de Deus e tua eterna felicidade, são boas e desejáveis; se as impedem, são más; deve-se fugir delas.

Pai mais que Senhor

Esse texto é belíssimo, vale a pena conferir!

Dos Sermões de São Pedro Crisólogo, bispo

(Sermo 108: PL 52,499-500)

(Séc. V)

Sê tu sacrifício e sacerdote de Deus

Pela misericórdia de Deus, eu vos exorto, irmãos (Rm 12,1). Paulo exorta, ou melhor, é Deus que por intermédio de Paulo nos exorta, pois deseja ser mais amado que temido. Deus exorta-nos, porque quer ser mais Pai do que Senhor. Deus exorta-nos, pela sua misericórdia, para não ter de nos castigar com o seu rigor.

Ouve como o Senhor exorta: Vede, vede em mim o vosso corpo, os vossos membros, o vosso coração, os vossos ossos, o vosso sangue. E se temeis o que é de Deus, por que não amais o que também é vosso? Se fugis do Senhor, por que não recorreis ao Pai?

Talvez vos perturbe a enormidade de meus sofrimentos causados por vós. Não tenhais medo. Esta cruz não me feriu a mim, mas feriu a morte. Estes cravos não me provocam dor, mas cravam mais profundamente em mim o amor por vós. Estas chagas não me fazem soltar gemidos, mas vos introduzem ainda mais intimamente em meu coração. O meu corpo, ao ser estirado na cruz, não aumenta o meu sofrimento, mas dilata os espaços do coração para vos acolher. Meu sangue não é uma perda para mim, mas é o preço do vosso resgate.

Vinde, pois, convertei-vos e pelo menos assim experimentareis a bondade do Pai, que paga os males com o bem, as injúrias com amor, tão grandes chagas com tamanha caridade.

Ouçamos, porém, a insistência do Apóstolo: Eu vos exorto a vos oferecerdes em sacrifício vivo (Rm 12,1). Pedindo deste modo, o Apóstolo ergueu todos os seres humanos à dignidade sacerdotal: a vos oferecerdes em sacrifício vivo.

Ó inaudito mistério do sacerdócio cristão, em que o ser humano é para si mesmo vítima e sacerdote! O ser humano não precisa ir buscar fora de si a vítima que deve oferecer a Deus; traz consigo e em si o que irá sacrificar a Deus. Permanecem intactos tanto a vítima como o sacerdote; a vítima é imolada mas continua viva, e o sacerdote que oferece o sacrifício não pode matar a vítima.

Admirável sacrifício em que o corpo é oferecido sem imolação e o sangue sem derramamento! Pela misericórdia de Deus eu vos exorto a vos oferecerdes em sacrifício vivo.
Irmãos, este sacrifício é imagem do sacrifício de Cristo que, para dar a vida ao mundo, imolou o seu corpo, permanecendo vivo; na verdade, ele fez de seu corpo um sacrifício vivo, porque tendo morrido, continua vivo. Num sacrifício como este, a morte teve a sua parte, mas a vítima permanece; a vítima vive, enquanto a morte é castigada. Por isso, os mártires nascem com a morte, no fim da vida é que começam a vivê-la; com a sua imolação revivem e brilham agora nos céus os que na terra eram tidos como mortos.


Pela misericórdia de Deus, eu vos exorto, irmãos, a vos oferecerdes em sacrifício vivo, santo. É o que também cantava o Profeta: Tu não quiseste nem vítima nem oferenda, mas formaste-me um corpo (cf. Sl 39,7; Hb 10,5).

Ó homem, sê tu sacrifício e sacerdote de Deus; não percas aquilo que te foi dado pelo poder do Senhor. Reveste-te com a túnica da santidade, cinge-te com o cíngulo da castidade; seja Cristo o véu de proteção da tua cabeça; que a cruz permaneça em tua fronte como defesa. Grava em teu peito o sinal da divina ciência; eleva continuamente a tua oração como perfume de incenso; empunha a espada do Espírito; faze de teu coração um altar. E assim, com toda confiança, oferece teu corpo como vítima a Deus.

Deus não quer a morte, mas a fé; ele não tem sede do teu sangue, mas do teu sacrifício; não se aplaca com a morte violenta, mas com a vontade generosa.