A diferença de um “erre”

leitura-bibliaÀs vezes ser padre é muito divertido. Não me levem a mal, mas realmente é muito engraçado perceber certas coisas. E tem coisa que só o padre vê; injustiça, assim eu acabo achando graça sozinho. Nesse caso, vou fazer vocês se divertirem também, ou não, depende…

Tem muita comédia que acontece na hora da Missa. Como, quem me conhece sabe, eu sou muito “discreto”, é difícil alguém não perceber quando acontece uma marmota na minha frente. Acho que daria para escrever um livro de “piadas de sacristia”. Talvez seja uma boa ideia. Quem topa ajudar?

Bom, para começar, de leitura engraçada tem um monte. Acho melhor rir do que chorar, até porque, ler errado é um enorme desrespeito à Palavra de Deus! São incontáveis formas de dizer as palavras da Bíblia, eis algumas pérolas:

– “Leitura do livro do demônio” – bom, com essa aberração, a criatura que se dispôs a ler deveria ter dito livro do DEUTERONÔMIO!

– “Leitura da primeira carta de São Paulo aos Tessalosinesis, Tesalonisesis, Teza… bom, é isso aí”. A Carta de São Paulo aos TESSALONICENSES é campeã de versões originais.

– “Leitura do livro do êchodo”, ou então: “Leitura do livro do exôdo”… ÊXODO, minha filha, ÊXODO! Sei de uma menina que não tinha quem fizesse ela ler o xis com som de z (coisas complicadas da nossa língua, não é mesmo? A coitadinha não tem culpa…); essa pobre coitada ficou com trauma do padre corrigindo na hora da missa e nunca mais leu.

– “Leitura do ato dos apóstolos…” Qual, meu Deus! Qual ato???

Bom, existem as palavras campeãs: incircuncisos e circuncisão, por exemplo.

Mas a campeã de todas, que ficou memorável, foi uma que eu presenciei e que jamais irei esquecer: depois da comunhão, alguém dá os avisos da semana enquanto eu ouvia sentado um pouco distraído. No final, a pessoa diz: “sexta-feira, adoração do esse, esse, eme, ó”. Na mesma hora eu falei no microfone: “o que, minha filha?”, aí ela repetiu: “padre, é o que tá escrito aqui no papel: adoração do esse, esse, eme, ó na sexta feira”. Só então percebi que no papel dela estava escrito SSmo! Ou seja, na sexta-feira haveria adoração do SANTÍSSMO SACRAMENTO! Não precisa nem dizer que eu caí na gargalhada, né?

Uma outra inesquecível foi em um domingo de ramos. Como vocês lembram, normalmente, a leitura da Paixão de Cristo é dividida entre alguns leitores, ficando com o sacerdote as partes da fala de Jesus. Pois bem, chega um momento, quando o narrador proclama a morte do Senhor, onde todos devem se ajoelhar e fazer um momento de silêncio, por respeito e adoração. Certa vez, a pessoa que estava lendo disse em alto e bom tom ao microfone: “E Jesus deu um grande grito e espirrou”. Que diferença faz um erre, um simples errezinho, não acham? Bom, na verdade, não só um “r” pois o verbo expirar, portanto, Jesus expirou, se escreve com x, mas a pronúncia é a mesma. [1] Ainda bem que a gente tinha que se ajoelhar, assim as pessoas não viram eu rindo logo na hora menos indicada…

Mas o objetivo de toda essa lista de comédias é chamar atenção para alguns erros evitáveis, mas que a gente comete por falta de informação adequada.

À parte o fato que devemos ter um grande respeito pela Palavra de Deus e tudo o que se refere à sagrada liturgia, e, por isso, os nossos leitores devem ser o mais bem preparados possíveis; existem algumas coisas que, na missa, não dizemos e respondemos de modo correto, por incrível que pareça, por não entendermos direito a gramática das frases. Isso mesmo, por erro de português!

Vamos lá:

“Orai, irmãos…” – o padre faz um pedido à assembleia, na segunda pessoa do plural do modo imperativo. Não somos habituados no nosso dia-a-dia com a 2ª pessoa do plural, ou seja, com o “vós”. Provavelmente, a liturgia católica seja o único lugar onde escutamos normalmente essa forma. No Brasil, substituímos o “vós” por “vocês”. Mas isso não é um problema, a não ser que nós não consigamos mais entender direito o pronome “vós”. Mas, na verdade, não é esse o motivo do erro aqui (que eu  nem falei onde é que tem erro!). Voltemos à frase: “orai irmãos…”. É um convite (em tom de ordem) que o presidente da celebração faz à assembleia e esta, por sua vez, deveria responder AO PADRE. Isso mesmo, a resposta não é a Deus, mas ao padre! Aí é que está o erro que muita gente comete. Vamos ver agora a resposta do povo?

– “Receba o Senhor por tuas mãos este sacrifício, para a glória do seu nome, para o nosso bem e de toda a santa Igreja”.

Em outras palavras: Padre, nós desejamos que o Senhor Deus receba por tuas mãos sacerdotais este sacrifício do pão e do vinho mudados no Corpo e Sangue de Jesus, para a glória do seu nome (o nome de Deus), para o nosso bem e de toda a Santa Igreja.

A confusão que nós fazemos entre o “tu” e o “você” é que atrapalha nessa frase, entenderam?

Muita gente pensa que a frase é dirigida a Deus, é uma oração, e dizem a frase assim:

– Receba, ó Senhor, por tuas mãos (as mãos de Deus)… Isso está totalmente errado e essa frase não seria sequer possível na Missa, pois, na liturgia, não se pode tratar Deus por “tu”, mas somente por “vós”. O verbo “receba” estaria errado e o pronome “tu”, pior ainda.

Por hoje é só, até a próxima.



[1] Imaginem, como o padre faz as vezes de Jesus na leitura da Paixão, quando ela disse que Jesus espirrou eu deveria responder: aaaaatchim!!!

 

Anúncios

Você sabe comungar?

comunhao

Lá vem de novo aquela perguntinha retórica… Claro que sim – você me responde – mas qual é o problema dessa vez?

Calma. Talvez você esteja certo. Realmente quero acreditar que a maioria das pessoas sabem receber a Eucaristia. Na verdade, é a coisa mais fácil do mundo: coloque a mão direita debaixo da esquerda e, diante do sacerdote ou ministro extraordinário, olhe quando ele apresentar “o Corpo de Cristo” e responda amém.

Simples, não?

Bom, existe também outra forma, mais tradicional (embora não seja a mais antiga em se tratando da história da Igreja como um todo), que é receber a hóstia diretamente na boca. Nesse caso, como é obvio, você não coloca a mão para receber, mas simplesmente… abre a boca! Sem esquecer de dizer amém antes!

Fácil. Totalmente compreensível até para as crianças do catecismo que, aliás, na minha opinião, são as que menos erram. Porém, meus queridos leitores, além desses dois únicos modelos de receber a Eucaristia, o povo criou outros inumeráveis. Obviamente TODOS errados!

Quando eu era adolescente, conheci um padre que dizia já ter contado 16 modos diferentes, além dos dois acima citados, de receber a comunhão. Eu não fiz as contas, pois são tantos os que já contei que não caberiam aqui (ficaria um texto muito enfadonho…), mas, com certeza, ultrapassam em muito a conta do velho sacerdote.

Vamos nos divertir um pouco? Quais são essas maneiras erradas de comungar?

  1. Não dizer amém após o padre ou o ministro extraordinário apresentar a hóstia e dizer “o Corpo de Cristo”.
  2. Dizer amém antes disso.
  3. Dizer amém duas ou mais vezes (acredite, isso acontece mesmo…).
  4. Repetir o que o padre diz e falar junto com ele “o Corpo de Cristo, amém”.
  5. Beijar a hóstia antes de comungar.
  6. Sair da frente do sacerdote (ou ministro) com a Eucaristia ainda na mão.
  7. Sair de ré derrubando os outros que vêm atas.
  8. Dizer outras coisas além de amém. Por exemplo: “graças a Deus”, “glória a vós Jesus”, “te amo Senhor”… etc. Tem erros também da parte do padre. Um dia quando eu era leigo, o padre me deu a hóstia e, em vez de dizer “o Corpo de Cristo” ele disse: “depois eu quero falar com você…”
  9. Pegar a hóstia com dois dedos, como que “pinçando”. Essa é clássica. Muita gente faz isso e às vezes porque foram orientadas erroneamente a fazer assim.
  10. Vir com as mão como se fosse para receber e abrir a boca. Afinal, o que você quer mesmo?
  11. Colocar as mão baixo demais, na altura da barriga. Às vezes as crianças fazem isso, mas também os adultos, como se eu fosse entregar para o umbigo.
  12. Vir conversando na fila, saudando as pessoas, olhando para os lados, rindo, sem prestar atenção ao momento sagrado que está acontecendo.
  13. Abrir só uma brechinha da boca para o padre acertar como se fosse uma ficha em máquina de refrigerante ou cartão telefônico. Algumas vezes enfiei a hóstia entre as gengivas e os dentes da criatura que teve preguiça de abrir a boca…
  14. Lamber os dedos do padre… eca!
  15. Ficar longe demais fazendo com que o padre tenha que esticar o braço ou dar um passo à frente para dar a Eucaristia.
  16. Furar a fila. Essa é boa, até fila de comunhão o povo quer furar…!!!
  17. Vir com as mãos sujas. Já coloquei Jesus em cima de muitos números de telefone.
  18. Vir com terços, papel de cânticos ou outros objetos ocupando as mãos.
  19. Colocar a mão direita em cima da esquerda. Esse é um gesto discreto e disfarçado de comungar com os dedos. Parece que se tem preguiça de tirar a mão de baixo para pegar a hóstia depois. O brasileiro tem “jeitinho” pra tudo.
  20. Abraçar os dedos da mão esquerda com a mão direita por baixo. Estranho? Vá dizer pra quem inventou…
  21. Fazer uma reverência na hora que o padre apresenta o Corpo de Cristo. Nada contra os atos de devoção, o problema é que se você apresentar a hóstia e a pessoa em vez de responder, mostra os cabelos é, no mínimo, muito esquisito. Se você quiser fazer uma reverência, deve-se fazer antes de chegar a sua vez.
  22. Colocar as mãos de modo correto, mas não deixar que se coloque a hóstia na mão querendo pegá-la antes. Essa também é clássica.
  23. Dizer amém com a hóstia na boca. Sua mãe nunca lhe ensinou que é falta de educação falar com a boca cheia?
  24. Não prestar atenção se ficou algum fragmento da Santíssima Eucaristia na sua mão. Essa é grave!
  25. Se benzer depois de receber a hóstia.
  26. Se benzer com a hóstia na mão, o que é pior ainda!
  27. Falar com o padre ou com o ministro alguma coisa que não seja amém. Essa é o contrário daquela que aconteceu comigo.
  28. Sair cortando a fila pelo lado errado. Essa é irritante. A pessoa recebe a Eucaristia do lado direito (quando são duas filas) e quer voltar pelo lado oposto, passando pela frente do sacerdote, atrapalhando a fila do lado, é uma confusão. Se fosse ao trânsito era batida na certa!
  29. Colocar a hóstia na boca com a mão e não com os dedos. Por mais horrível que pareça, isso não é raro. Muita gente faz dessa forma, em vez de pegar a eucaristia com os dedos da mão direita (que está embaixo da esquerda) leva a hóstia à boca na palma da mão, como quem engole um comprimido, sei lá… nem sei comparar.

Tem alguma outra? Com certeza, infelizmente, sim. Mas por enquanto são essas as formas erradas que eu lembro. Como eu falei, os erros não estão somente da parte de quem recebe, mas às vezes também da parte de quem distribui a Sagrada Comunhão. Quem entrega a Eucaristia, deve apenas mostrar a partícula (como se chama a hóstia pequena dada aos fiéis) e dizer em voz alta “o Corpo de Cristo”. Em seguida, depois do amém, coloca-se a hóstia na mão ou na boca do fiel, conforme o caso. Nada mais.

09-Eucarestia

Já soube de um ministro extraordinário da comunhão que colocava várias hóstias na mão e ficava distribuindo como se fossem fichas. Horrores à parte, o que vale é sempre termos atenção para fazermos tudo com dignidade e respeito que é devido à Santa Eucaristia.

Uma observação importante: de modo algum alguém é proibido pela Santa Sé de comungar de joelhos ou usar o tradicional véu sobre a cabeça, no caso das mulheres. Não é mais a forma ordinária, normal de comungar, mas nem por isso é proibido como querem dizer alguns.

Quando a reforma litúrgica, a partir do Concílio Vaticano II optou por se receber a comunhão na mão e de pé, não estava introduzindo uma “novidade modernista” de sabor “protestantizado”, mas sim retomando a tradição mais antiga da Igreja, desde os primeiros séculos, em que se comungava assim. Estar em pé, na liturgia, significa desde os primórdios estar ressuscitado com Cristo. De fato, o vocábulo bíblico levantar é o mesmo usado para ressuscitar. Na tradição litúrgica antiga, por exemplo, era proibido ajoelhar-se no tempo pascal, para reforçar esse simbolismo de que, pelo batismo, nós ressuscitamos com Jesus para uma vida nova.

Portanto, comungar na mão, com o devido respeito que a liturgia exite, não diminui a Eucaristia, mas pode nos dar o sentido de que somos mais que servos, somos amigos e filhos de Deus.

Comungar de joelhos, por sua vez, evidencia a reverência e a adoração que são devidas a Deus. É uma tradição também muito antiga (embora não tanto quanto comungar de pé) e talvez a maioria dos santos que conhecemos tenha comungado sempre assim na sua vida. Em suma, as duas formas estão certas e uma não exclui a outra. Só uma observaçãozinha a mais: se você for comungar de joelhos, seja prático. Aí vão alguns erros dessa forma de comungar:

  1. Fazer genuflexão com um joelho só. Não invente! Se vai comungar de joelhos, faça certo: ajoelhe-se com os dois joelhos. Diga amém em voz alta e receba a hóstia na boca.
  2. Ajoelhar-se sem ter forças para levantar. Já teve gente que se agarrou na minha túnica para não cair! Se você não consegue mais se ajoelhar e levantar sozinha, assuma a idade e o peso! Comungue de pé.
  3. Receber a comunhão de joelhos e na mão. Isso é errado. Ou um rito ou outro, a comunhão na mão se recebe de pé.

Por fim, como vocês viram, eu falei aqui do modo prático de comungar e não do modo espiritual. Moralmente falando, é claro que você só pode comungar tendo consciência de não ter cometido pecados graves (consciente e deliberadamente) e não viver em estado de pecado habitual ou de forma ilícita, como por exemplo, viver com uma pessoa como cônjuge sem estar casada na Igreja ou algum tipo de escândalo. Mas isso é um assunto para outro post… Indico um livro muito bom: “E jovem se confessa?!” – escrito por mim mesmo. 😉