Dicas para vida tranquila de padre

Nunca critique ninguém, nunca fale a verdade abertamente, não denuncie as injustiças (especialmente do governo), não defenda a radicalidade evangélica nem se meta em polêmicas sobre a doutrina da Igreja.
Fique sempre do lado dos ricos, especialmente nunca negue um pedido particular, uma exceção para quem ajuda financeiramente a Igreja. Deixe as pessoas fazerem o que elas acharem mais bonitinho na liturgia, dê chance pra todos mostrarem os seus dons e talentos usando o microfone da Igreja pra isso.
Celebre a missa bem rapidinho, não reclame de nada do altar, nada mesmo! Não reclame da roupa curta das meninas ou das bermudas dos homens ou do modo de vestir seja lá de quem. Não exija que as pessoas sejam pontuais na missa, afinal, elas têm mais o que fazer! Deixe as pessoas comungarem da forma que acharem que devem.
Sorria sempre, como os políticos, nunca demonstre a verdade sobre os seus sentimentos. Não receba ninguém, absolutamente ninguém em casa, só em grupos e com todas as portas abertas e só durante a parte mais luminosa do dia.
Uma dica muito, muito importante: deixe os leigos fazerem o que quiserem com o dinheiro da Igreja, não exija prestação de contas.
Deixe que as festas dos padroeiros sejam um momento de arrecadação, custe o que custar. Não impeça venda de bebidas alcoólicas, shows mundanos, seja lá o que for.
Faça o catecismo bem rapidinho e deixe as crianças se fantasiarem de princesas e pajens para tirar fotos na primeira comunhão. Aliás, em todos os momentos litúrgicos de festa, deixe que os fotógrafos façam o que quiserem, subam no altar, se for necessário, subam literalmente na mesa do altar, contanto que a foto fique bonita no casamento, crisma, primeira eucaristia, batizado, etc.
Celebre nas casas para a comodidade do povo, especialmente dos ricos. Não faça curso de batismo e aceite qualquer um ser batizado, com qualquer padrinho. Diga para as pessoas juntas, amasiadas, que elas podem comungar, mas diga em segredo pra que ninguém saiba.
Não exija engajamento dos jovens. Crisme qualquer um que queira, afinal, é problema deles…
Enfim, seja um padre bem bonzinho, que se esforça ao máximo, ao extremo mesmo, para agradar a todo mundo. Pronto: você terá uma vida quase 100% tranquila e uma eternidade bem quentinha nas profundezas do inferno!

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A messe é grande

Queridos amigos…

Em primeiro lugar quero dizer que estou feliz. Na verdade, eu sou feliz: como cristão e como sacerdote. Mas confesso que, como milhões de brasileiros estou feliz porque finalmente a campanha política acabou…!!!

Sei que o que vou escrever aqui é meio fora de contexto, hoje é dia de finados… mas achei legal. Ao abrir a liturgia para rezar as vésperas, reencontrei esse texto de São Gregório Magno – grande Papa do século VI – que repasso um trecho pra vocês:

A messe é grande, são poucos os operários. Rogai, pois, ao Senhor da messe que envie operários a seu campos (Mt 9,37-38). Para grande messe, poucos operários, coisa que não sem imensa tristeza podemos repetir; pois embora haja quem escute as palavras boas, falta quem as diga. Eis que o mundo está cheio de sacerdotes, todavia, raramente se vê um operário na messe de Deus; por que, aceitamos, sim, o ofício sacerdotal, mas não cumprimos o dever do ofício.

Mas pensai, irmãos caríssimos, pensai no que foi dito: Rogai ao Senhor da messe que envie operários a seu campo. Pedi vós por nós, para que possamos fazer coisas dignas de vós; que a língua não se entorpeça por não querer exortar; tendo recebido o encargo de pregar, não vá nosso silêncio condenar-nos diante do justo juiz.

E daí se sou Católico?

Sou Católico, amo o Papa, qualquer um que seja, atualmente, amo o Papa Bento XVI. Amo a Virgem Maria, Mãe de Deus e nossa.

Sou Católico, acredito, aceito e abraço os dogmas de fé. Creio na Eucaristia, o Corpo e o Sangue de Cristo dado a nós em comunhão. Creio nos Sacramentos, no perdão dos pecados dados pelo sacerdote através da absolvição, na indissolubilidade do matrimônio cristão realizado validamente; creio na salvação dada no batismo e no céu, na vida eterna dada para quem viveu na fé em Jesus, nosso Deus. Sim, Deus, porque Jesus Cristo, o Filho único de Maria, é Deus, o mesmo Deus onipotente que com o Pai e o Espírito Santo criou o Universo! Sim, teria mil e um motivos para justificar a minha fé, baseado em palavras das Escrituras, na Tradição, em conceitos teológicos difundidos e aprofundados nos 2000 anos de existência da Igreja que Jesus deixou sobre a rocha, PEDRO, prometendo que as portas do inferno não prevaleceriam contra ela, o que acontece até hoje. Sim, teria muitos argumentos, mas não vou justificar nada aqui. Não preciso, não quero.

Sou Católico, tenho imagens em casa e nas igrejas em que trabalho e freqüento. Poderia simplesmente dizer que não adoro imagens, que isso é ridículo e que a proibição que fala a Bíblia é contra a adoração de imagens de deuses, o que nem de longe é o nosso caso. Poderia fazer aqui páginas de defesa contra os iconoclastas… mas, não vou fazer. Rezo a Ave Maria, muitas vezes, e sei muitas orações decoradas. Uso um livro sagrado que se chama Bíblia e que foi definido sagrado por nossos pastores, os Bispos dos primeiros séculos, que foi dividida em capítulos e versículos por um dos nossos monges na Idade Média… e por aí vai.

Por falar nisso, bispos de verdade, só nós temos, porque só eles são os legítimos sucessores dos Apóstolos, como o Papa é o legítimo sucessor de Pedro. Aliás, infalível quando propõe uma matéria de fé ou moral para ser crida e vivida como verdade por todos os fiéis. Essa infalibilidade é um dogma, e eu acredito piamente. A nossa hierarquia é composta por Bispos, padres e diáconos e somente os homens podem fazer parte dela, como foi desde a escolha de Cristo no início da Igreja e será a até o fim do mundo.

Como sacerdote Católico, vivo com alegria o celibato por amor ao Reino de Deus, doação total de vida, antecipação na Terra do estado definitivo de todos os remidos no Céu. Acredito e defendo a CASTIDADE como valor fundamental para todos, crianças, jovens, adultos, casados ou não. A castidade nos faz verdadeiramente felizes!

Ah, uma outra coisa muito importante: sou Católico, Apostólico, Romano, pois a sede da Igreja está em Roma onde morreu mártir o nosso primeiro Papa, São Pedro. E, como Católico, fiel ao Evangelho, sou contra o aborto, eutanásia e casamento homossexual! Para mim, são três aberrações escandalosas, fruto terrível do pecado que grassa no coração dos homens e da sociedade. Sou contra a manipulação da vida: bebê de proveta, inseminação artificial, modificação genética, manipulação de embriões humanos, congelamento de óvulos e coisas macabramente semelhantes. Como Católico, acredito nos 10 mandamentos da Lei de Deus, imutável, e que devemos fazer o bem e evitar o mal, como manda a nossa consciência retamente orientada.

Como Católico, acredito também nos santos, nossos irmãos que nos precederam no Céu e que intercedem por nós aqui na terra. Acredito em milagres e nas aparições da Virgem Maria mandada por Deus para nos alertar do perigo do nosso pecado e nos dar mensagens de esperança.

Acredito que a Virgem Mãe de Deus, Maria Santíssima, foi assunta ao Céu em corpo e alma, por privilégio especial, antecipando a gloriosa ressurreição dos mortos que acontecerá nos último dia, quando Jesus voltar para julgar os vivos e os mortos! Que dia glorioso será! Mas ninguém sabe quando, só Deus.

E daí? Essa é minha fé, a nossa fé Católica. Ninguém é obrigado a segui-la, a acreditar. Mas ninguém tem o direito de nos impedir de crer. Nenhuma sociedade, governo ou instituição tem o direito de nos obrigar a aceitar os seus valores se forem contrários à nossa fé Católica. Ninguém também tem o direito de pretender ser Católico e não crer, não viver tudo isso que falei acima e as outras coisas que não falei, mas que fazem parte da nossa fé. Ou se é Católico ou não se é, não existe meio termo.

Somos Católicos e nos orgulhamos disso. Não temos que nos esconder, nos desculpar para a sociedade, ter medo das críticas ou das pedradas. Nos 2000 anos de nossa história, críticas foi o de menos… já fomos queimados vivos, decapitados, crucificados até de cabeça pra baixo. Nossos irmãos já foram enforcados, esquartejados, flechados, cuspidos, torturados com requintes de crueldade. Já tiveram seus membros arrancados, já foram escalpelados vivos (arrancado a pele, pra quem não sabe…). Igrejas destruídas, sacramentos profanados… e a lista poderia ser quase interminável. No passado e no presente. A única perseguição, ameaça que realmente nos faz tremer, é quando a fumaça de satanás entra na própria Igreja através do pecado, da frieza da fé, da indiferença, do relativismo, da imoralidade. Isso acontece também porque somos pecadores. Mas nada disso, absolutamente nada, em todos esses séculos nos fez ou nos fará retroceder ou ceder, jamais. Muito pelo contrário, a nossa fé se fortalece com as perseguições, e é justamente nesses momentos de crise que abundam o testemunho dos santos e santa de todas as classes, raças, idades… Graças a Deus!

Bom, uma última coisinha: é muito bom ser Católico, é muito bom pertencer à Igreja fundada por Jesus Cristo, com todos os seus dogmas e tradições; com sua liturgia, com sua riqueza incomparável. Se você, como eu, é Católico, se orgulhe disso! Se você não é e quiser nos conhecer, será sempre bem-vindo, mas não será obrigado a sê-lo, como nós não deixaremos de professar a nossa fé por nada nesse mundo, pois ela é a nossa felicidade e salvação eterna.

Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo, e sua Mãe Maria Santíssima!

O verdadeiro Pai

Este dia é especial para muitos, talvez triste para alguns, indiferente para outros… cada um tem sua experiência com a paternidade. Às vezes maravilhosa, às vezes nem tanto.

Mas de onde vem esse dom, esse nome tão sublime de PAI? Vem daquele que é PAI por excelência, de quem, quer saibamos ou não, quer creiamos ou não, emana toda paternidade: Deus.

Se quiséssemos elencar as características de um pai, diríamos que o pai é o que cuida, o que protege, o que ajuda, apóia; é aquele que dá segurança, que tira o medo. Que nos sua força nos faz firmes, que nos educa para a vida. É aquele que dá a vida continuamente, até o fim. É aquele em quem podemos confiar e, quando parecer que o mundo inteiro nos rejeita, ele nos acolherá, quanto tudo parecer desabar, jamais estaremos desamparados. É o carinho, o afeto, o amor que nunca, jamais falhará, mesmo diante das mais graves de nossas imperfeições, defeitos, pois ele nos conhece e não se espanta conosco.

Sim, só Deus merece toda a dignidade desse título. Só Deus é PAI em toda a plenitude. Aos homens, imagem e semelhança divina, Ele concede essa honra de ser chamados também de pai.

Pai é todo aquele que participa do ato criador de Deus de gerar, dar a vida. Nesse sentido, não poderíamos de forma alguma separar o pai da mãe, pois Deus é imagem dos dois, e ambos são co-responsáveis na geração da vida. Mas queremos hoje lembrar o dom particular da PATERNIDADE. Esse dom que pertence aos homens.

Os pais são sacramento da paternidade divina. Sinais que devem transparecer e participar dessa glória que pertence ao próprio Deus. Porém, quanta imperfeição… quantas vezes essa imagem de Deus é negada, distorcida, vilipendiada, justamente naqueles que deveriam transmiti-la com toda força. Quantas crianças não reconhecem a paternidade amorosa de Deus justamente por nunca terem contemplado, nem que fosse um mero vislumbre, uma faísca na escuridão, do brilho dessa paternidade no rosto dos seus pais.

Mas não estamos aqui para acusar os pais no seu próprio dia. Não estou aqui para fazer o papel do Kafka. Gostaria somente de lembrar, por mais ferido que alguém tenha sido, por mais que lhe tenha sido negada a verdadeira imagem da paternidade na pessoa do seu pai natural, que se pode e se deve, sim, experimentar esse AMOR olhando para o PAI.

Nele, encontramos todo afeto, amor, carinho, compreensão. Nele a segurança, o apoio, a força. Ele não nos abandona, não nos rejeita, mas nos assume como filhos. Ele nos educa e nos leva a crescer com a força e a doçura do seu braço. Ele nos tira o medo, e nos faz compreender que não estamos sozinhos, que ninguém vai nos atacar, nos roubar, nos destruir por completo, pois ele está ao nosso lado à nosso favor.

Nele, nós encontramos o verdadeiro rosto do PAI. Nele aprendemos a ser pai. Nós como filhos, devemos olhar para os nossos pais e ver esse maravilhoso dom escondido. Não podemos exigir deles mais do que eles podem ou puderam nos dar. Eles são imperfeitos, como nós o somos. Nós temos sede do perfeito, temos ânsia por aquilo que sacia plenamente as nossas expectativas e só em Deus encontramos aquilo que buscamos.

Aos pais que geraram pelo sangue ou que geraram e geram pelo espírito – os pais espirituais, dentre eles, nós padres – apelo para que contemplemos a nossa fonte, o nosso modelo, aquele Único que merece essa dignidade infinita de ouvir alguém nesse mundo pronunciar dirigida a nós essa palavra divina: PAI.

Filhos, perdoem-nos a nossa fraqueza… ajudem-nos a sermos menos indignos desse nome.

Pais, parabéns! Vocês não são perfeitos… mas nós te amamos.

A mais bela profissão

Do Catecismo de São João Maria Vianney, presbítero

(Catéchisme sur la prière: A. Monnin, Esprit du Curé d’Ars, Paris 1899, pp. 87-89)

(Séc. XIX)

A mais bela profissão do homem é rezar e amar

Prestai atenção, meus filhinhos: o tesouro do cristão não está na terra, mas nos céus. Por isso, o nosso pensamento deve estar voltado para onde está o nosso tesouro. Esta é a mais bela profissão do homem: rezar e amar. Se rezais e amais, eis aí a felicidade do homem sobre a terra.

A oração nada mais é do que a união com Deus. Quando alguém tem o coração puro e unido a Deus, sente em si mesmo uma suavidade e doçura que inebria, e uma luz maravilhosa que o envolve. Nesta íntima união, Deus e a alma são como dois pedaços de cera, fundidos num só, de tal modo que ninguém pode mais separar. Como é bela esta união de Deus com sua pequenina criatura! É uma felicidade impossível de se compreender.

Nós nos havíamos tornado indignos de rezar. Deus, porém, na sua bondade, permitiu-nos falar com ele. Nossa oração é o incenso que mais lhe agrada.

Meus filhinhos, o vosso coração é por demais pequeno, mas a oração o dilata e torna capaz de amar a Deus. A oração faz saborear antecipadamente a felicidade do céu; é como o mel que se derrama sobre a alma e faz com que tudo nos seja doce. Na oração bem feita, os sofrimentos desaparecem, como a neve que se derrete sob os raios do sol.

Outro benefício que nos é dado pela oração: o tempo passa tão depressa e com tanta satisfação para o homem, que nem se percebe sua duração. Escutai: certa vez, quando eu era pároco em Bresse, tive que percorrer grandes distâncias para substituir quase todos os meus colegas que estavam doentes; nessas intermináveis caminhadas, rezava ao bom Senhor e – podeis crer! – o tempo não me parecia longo.

Há pessoas que mergulham profundamente na oração, como peixes na água, porque estão inteiramente entregues a Deus. Não há divisões em seus corações. Ó como eu amo estas almas generosas! São Francisco de Assis e Santa Clara viam nosso Senhor e conversavam com ele do mesmo modo como nós conversamos uns com os outros.

Nós, ao invés, quantas vezes entramos na Igreja sem saber o que iremos pedir. E, no entanto, sempre que vamos ter com alguém, sabemos perfeitamente o motivo por que vamos. Há até mesmo pessoas que parecem falar com Deus deste modo: “Só tenho duas palavras para vos dizer e logo ficar livre de vós…”. Muitas vezes penso nisto: quando vamos adorar a Deus, podemos alcançar tudo o que desejamos, se o pedirmos com fé viva e coração puro.

Ser padre hoje

RIO DE JANEIRO, quinta-feira, 5 de agosto de 2010 (ZENIT.org) – “Neste mundo confuso e até preconceituoso com a figura do Bom Pastor, que deve ser todo ministro do altar”, o que é o ser presbítero hoje?

É a pergunta que propõe o arcebispo do Rio de Janeiro, Dom Orani João Tempesta, em artigo enviado a ZENIT nessa quarta-feira.

“Como deve agir o padre, hoje, na cena deste mundo em grande transformação?”, questiona ainda o prelado.

O presbítero – afirma Dom Orani –, “antes de tudo, é o homem da Palavra de Deus, o homem do sacramento, o homem do ‘mistério da fé’”.

Os padres “têm o dever primário de proclamar o Evangelho de Deus a todos os homens”, explica, citando a Presbyterorum Ordinis. Mas nesta proclamação “está o dever também de levar cada homem e cada mulher deste mundo a um encontro pessoal com Jesus”.

Dom Orani considera que hoje, mais do que antes, “devemos nos empenhar para que cada pessoa possa fazer esta experiência do encontro com Deus, o devemos fazer com uma renovada esperança, mesmo nas adversidades de um mundo extremamente secularizado, liberal, ateísta e até cético”.

“As pessoas devem perceber no sacerdote ‘Aquele’ a quem ele está a serviço: o que chamamos na teologia da configuração com Cristo.”

“Nesta dimensão, encerra-se a sua vital presença na celebração eucarística, ápice da vida espiritual da Igreja, em que o sacerdote age na pessoa de Cristo. Em suma, o Sacerdote deve ser um homem em contato com Deus, e que nos leva a fazer esta mesma experiência de santidade.”

“A mais sublime missão do sacerdote hoje – afirma o arcebispo – é, sem dúvida, ser um Cristo agora, pois ‘Jesus Cristo é o mesmo ontem, hoje e sempre’”.

Porém – prossegue Dom Orani –, o padre “deve avançar com o tempo, com a história, mas não deve ter uma atenção superficial sobre tal ‘modernidade’. É chamado a ser crítico e também vigilante com a realidade que se lhe apresenta”.

“O grande salto qualitativo na vida de qualquer padre seria uma autêntica renovação, que é possível e necessária, e ao mesmo tempo uma grande afeição a uma plena e radical fidelidade à Palavra de Deus e à tradição da Igreja, aos quais ele serve no seu ministério. A sua primeira e fundamental vocação é a da santidade, juntamente com a de toda a Igreja”, afirma o arcebispo.

Dom Orani assinala que o sacerdote “é chamado a ser capaz de se entreter com cada pessoa, acreditando que o outro vale à pena; a ser uma pessoa mística e que, ao mesmo tempo, se interessa pelas coisas do mundo, pela vida do homem, nas suas angústias e alegrias, para que elas se tornem algo sagrado e agradável ao Senhor”.

“O sacerdote é também aquele que procura uma nova linguagem para se comunicar com o mundo de hoje, principalmente neste mundo da multimídia.”

De acordo com o arcebispo do Rio de Janeiro, o sacerdócio ministerial “é entrega, é imolação, é doar-se integralmente, é cruz. Tomar a cruz significa comprometer-se para derrotar o pecado que impede o caminho rumo a Deus, acolher cotidianamente a vontade do Senhor, aumentar a fé, sobretudo diante dos problemas, das dificuldades, do sofrimento”.

Modelos de sacerdotes

CIDADE DO VATICANO, quarta-feira, 28 de abril de 2010 (ZENIT.org).- Apresentamos, a seguir, a catequese dirigida pelo Papa aos grupos de peregrinos do mundo inteiro, reunidos na Praça de São Pedro para a audiência geral.

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Queridos irmãos e irmãs:

Estamos nos aproximando da conclusão do Ano Sacerdotal e, nesta última quarta-feira de abril, eu gostaria de falar de dois grandes santos sacerdotes, exemplares em sua doação a Deus e no testemunho de caridade, vivida na Igreja e para a Igreja, com os irmãos mais necessitados: São Leonardo Murialdo e São José Benedito Cottolengo. Do primeiro, recordamos os 110 anos de morte e os 40 de sua canonização; do segundo, começaram as celebrações do 2º centenário de sua ordenação sacerdotal.

Murialdo nasceu em Turim, no dia 26 de outubro de 1828: é a Turim de São João Bosco, do próprio Cottolengo, terra fecundada por muitos exemplos de santidade de fiéis leigos e sacerdotes. Leonardo é o oitavo filho de uma família simples. Quando criança, junto com seu irmão, entrou no colégio dos Padres Escolápios de Savona para o Ensino Fundamental, Médio e Superior; lá encontrou educadores preparados, em um clima de religiosidade fundado em uma séria catequese, com práticas de piedade regulares.

Durante a adolescência, viveu, no entanto, uma profunda crise existencial e espiritual que o levou a antecipar a volta à família e a concluir seus estudos em Turim, matriculando-se no biênio de filosofia. A “volta à luz” aconteceu – como ele relata – após alguns meses, com a graça de uma confissão geral, na qual redescobriu a imensa misericórdia de Deus; amadureceu, então, aos seus 17 anos, a decisão de tornar-se sacerdote, como resposta de amor a Deus, que o havia seduzido com seu amor.

Ele foi ordenado no dia 20 de setembro de 1851. Precisamente naquele período, como catequista do Oratório do Anjo da Guarda, foi conhecido e estimado por Dom Bosco, que o convenceu a aceitar a direção do novo Oratório de São Luiz em Porta Nuova, exercida até 1865. Lá, entrou em contato também com os graves problemas dos mais pobres, visitou suas casas, amadurecendo uma profunda sensibilidade social, educativa e apostólica que o levou a dedicar-se de forma autônoma a múltiplas iniciativas a favor da juventude. Catequese, escola, atividades recreativas foram os fundamentos do seu método educativo no Oratório. Dom Bosco o quis junto a ele por ocasião da audiência que lhe foi concedida pelo beato Pio IX em 1858.

Em 1873, fundou a Congregação de São José, cujo fim apostólico foi, desde o começo, a formação da juventude, especialmente a mais pobre e abandonada. O ambiente de Turim nessa época foi marcado pelo intenso florescimento de obras e atividades caritativas promovidas por Murialdo até sua morte, ocorrida no dia 30 de março de 1900.

Quero sublinhar que o núcleo central da espiritualidade de Murialdo é a convicção do amor misericordioso de Deus: um Pai sempre bom, paciente e generoso, que revela a grandeza e imensidade da sua misericórdia com o perdão. Esta realidade foi experimentada por São Leonardo não no âmbito intelectual, mas existencial, mediante o encontro vivo com o Senhor.

Ele sempre se considerou um homem agraciado por Deus misericordioso: por isso viveu o sentido alegre da gratuidade ao Senhor, a serena consciência dos seus próprios limites, o desejo ardente de penitência, o compromisso constante e generoso de conversão.Ele via toda a sua existência na infinita misericórdia de Deus. Escreveu em seu Testamento Espiritual: “Tua misericórdia me cerca, ó Senhor (…). Como Deus está sempre e em todos os lugares, assim é amor sempre e em todos os lugares, é misericórdia sempre e em todos os lugares”.

Recordando o momento de crise que teve em sua juventude, anotava: “Eis aqui que o bom Deus queria fazer resplandecer mais uma vez sua bondade e generosidade de forma totalmente singular. Não só me admitiu novamente à sua amizade, mas me chamou para uma escolha de predileção: chamou-me ao sacerdócio, e isso apenas poucos meses depois da minha volta a Ele”.

São Leonardo viveu, por isso, a vocação sacerdotal como dom gratuito da misericórdia de Deus, com senso de reconhecimento, alegria e amor. Escreveu também: “Deus me escolheu! Ele me chamou, inclusive me obrigou à honra, à glória, à felicidade inefável de ser seu ministro, de ser ‘outro Cristo’… E onde estava eu quando me buscavas, meu Deus? No fundo do abismo! Eu estava lá, e até lá foi Deus para me buscar; lá, Ele me fez compreender sua voz…”

Sublinhando a grandeza da missão do sacerdote, que deve “continuar a obra da redenção, a grande obra de Jesus Cristo, a obra do Salvador do mundo”, isto é, a de “salvar as almas”, São Leonardo recordava sempre, a si mesmo e aos irmãos, a responsabilidade de uma vida coerente com o sacramento recebido. Amor de Deus e amor a Deus: foi esta a força do seu caminho de santidade, a lei do seu sacerdócio, o significado mais profundo do seu apostolado entre os jovens pobres e a fonte da sua oração.

São Leonardo Murialdo se abandonou com confiança nas mãos da Providência, realizando generosamente a vontade divina, no contato com Deus e dedicando-se aos jovens pobres. Dessa forma, ele uniu o silêncio contemplativo ao ardor incansável da ação; a fidelidade aos deveres de cada dia à genialidade das iniciativas; a força nas dificuldades à serenidade do espírito. Este é o seu caminho de santidade para viver o mandamento do amor a Deus e ao próximo.

Com o mesmo espírito de caridade, viveu – 40 anos antes de Murialdo – São José Benedito Cottolengo, fundador da obra chamada por ele mesmo de “Pequena Casa da Divina Providência”, conhecida hoje também como “Cottolengo”. No próximo domingo, em minha visita pastoral a Turim, venerarei as relíquias deste santo e visitarei os hóspedes da “Pequena Casa”.

José Benedito Cottolengo nasceu em Bra, pequena cidade da província de Cuneo, no dia 3 de maio de 1786. Primogênito de 12 filhos, dos quais 6 morreram na infância, mostrou desde pequeno grande sensibilidade pelos pobres. Abraçou o caminho do sacerdócio, imitado também por dois dos seus irmãos.

Os anos da sua juventude foram os da aventura napoleônica e dos conseguintes mal-estares no campo religioso e social. Cottolengo se converteu em um bom sacerdote, procurado por muitos penitentes e, na Turim dessa época, pregador de exercícios espirituais e conferências entre os estudantes universitários, onde colhia sempre um êxito notável.

Aos 32 anos, foi nomeado cônego da Santíssima Trindade, uma congregação de sacerdotes que tinha a tarefa de celebrar na igreja do Corpus Domini e de dar decoro às celebrações religiosas da cidade, mas naquele cargo ele se sentia inquieto. Deus o estava preparando para uma missão particular e, precisamente com um encontro inesperado e decisivo, deu-lhe a entender qual seria seu futuro destino no exercício do seu ministério.

O Senhor sempre coloca sinais em nosso caminho para guiar-nos, segundo sua vontade, ao verdadeiro bem. Para Cottolengo, isso aconteceu de forma dramática, na manhã de domingo do dia 2 de setembro de 1827. Chegou a Turim, procedente de Milão, a diligência, cheia como nunca de gente, na qual se apertava uma família francesa inteira, na qual a mulher, com cinco filhos, estava no final de uma gravidez e com febre alta. Após ter vagado por vários hospitais, essa família encontrou alojamento em um dormitório público, mas a situação da mulher continuou agravando-se e alguns começaram a procurar uma cura.

Por um misterioso desígnio, cruzaram com Cottolengo e foi precisamente ele, com o coração angustiado, quem acompanhou a morte dessa jovem mãe, em meio à dor de toda a família. Após ter concluído este doloroso dever, com o sofrimento no coração, inclinou-se diante do Santíssimo Sacramento e rezou: “Meu Deus, por quê? Por que me escolheste como testemunha? O que queres de mim? Preciso fazer alguma coisa!”.

Levantando-se, tocou todos os sinos, acendeu as velas e, acolhendo os curiosos na igreja, disse: “A graça aconteceu! A graça aconteceu!”. A partir daquele momento, Cottolengo se transformou: todas as suas capacidades, especialmente sua habilidade econômica e organizativa, foram utilizadas para dar vida a iniciativas de apoio aos mais necessitados.

Ele soube envolver em sua empresa dezenas e dezenas de colaboradores e voluntários. Mudando-se para a periferia de Turim para expandir sua obra, criou uma espécie de povoado, no qual cada edifício que conseguiu construir recebeu um nome significativo: “casa da fé”, “casa da esperança”, “casa da caridade”. Pôs em andamento o estilo das “famílias”, constituindo verdadeiras e próprias comunidades de pessoas, voluntários e voluntárias, homens e mulheres, religiosos e leigos, unidos para enfrentar e superar juntos as dificuldades que se apresentavam.

Cada um, nessa Pequena Casa da Divina Providência, tinha uma tarefa específica: uns trabalhavam, outros rezavam, uns serviam, outros lecionavam, alguns administravam. Sãos e doentes compartilhavam juntos o mesmo peso do dia a dia.

Também a vida religiosa se especificou no tempo, segundo as necessidades e exigências particulares. Ele pensou inclusive em um seminário próprio, para uma formação específica dos sacerdotes da Obra. Esteve sempre disposto a seguir a Divina Providência, nunca a questioná-la. Dizia: “Eu não sou bom em nada e nem sequer sei o que estou fazendo. A Divina Providência, no entanto, sabe certamente o que quer. Cabe a mim apenas segui-la. Adiante, in Domino“. Para os seus pobres e os mais necessitados, ele foi definido sempre como “o ajudante da Divina Providência”.

Junto às pequenas cidades, ele quis fundar também 5 mosteiros de religiosas contemplativas e um de eremitas, e os considerou entre as realizações mais importantes: uma espécie de “coração” que deveria bater para sustentar toda a Obra.

Cottolengo morreu no dia 30 de abril de 1842, pronunciando estas palavras: “Misericordia, Domine; Misericordia, Domine. Boa e Santa Providência (…). Virgem Santa, agora é a sua vez”. Sua vida, como escreveu um jornal da sua época, foi “uma intensa jornada de amor”.

Queridos amigos, estes dois santos sacerdotes, dos quais apresentei algumas características, viveram seu ministério em um dom total da vida aos mais pobres, aos mais necessitados, aos últimos, encontrando sempre a raiz profunda, a fonte inextinguível da sua ação na relação com Deus, bebendo do seu amor, na convicção profunda de que não é possível exercer a caridade sem viver em Cristo e na Igreja.

Que sua intercessão e seu exemplo continuem iluminando o ministério de tantos sacerdotes que se consomem com generosidade por Deus e pelo rebanho a eles confiado, e que ajudem cada um a entregar-se com alegria e generosidade a Deus e ao próximo.

[No final da audiência, o Papa cumprimentou os peregrinos em vários idiomas. Em português, disse:]

Queridos irmãos e irmãs:

Houve dois santos sacerdotes no século XIX que viveram o seu ministério na dedicação total aos mais pobres. A raiz profunda e a fonte inexaurível da sua atividade estavam na sua relação com Deus, conscientes de que não existe caridade sem viver em Cristo e na Igreja. O primeiro, São Leonardo Murialdo, experimentou a Misericórdia de Deus após uma crise existencial e espiritual na adolescência, e sentiu-se chamado ao sacerdócio, dedicando-se à juventude mais abandonada. Sabendo que a missão do sacerdote é “continuar a obra da redenção, a grande obra de Jesus”, não cessava de recordar a si mesmo e aos seus confrades a coerência com o sacramento recebido. O segundo, São José Cottolengo, foi chamado para dar os últimos sacramentos a uma jovem mulher grávida que morria por falta de cuidados adequados. Foi um sinal de Deus no seu caminho que o transformou: doravante será “o ajudante da divina Providência” ao serviço dos mais necessitados. Nascia, assim, a Pequena Casa da Divina Providência, cujo coração pulsante eram os mosteiros de religiosas contemplativas que ele fundara.

Uma saudação cordial aos peregrinos vindos do Brasil e demais países de língua portuguesa, contando com as vossas orações por todos os sacerdotes para que se dediquem sempre com mais generosidade a Deus e ao rebanho a eles confiado. E que Deus vos abençoe a vós e as vossas famílias. Ide em paz!

[Tradução: Aline Banchieri

©Libreria Editrice Vaticana]