O verdadeiro Pai

Este dia é especial para muitos, talvez triste para alguns, indiferente para outros… cada um tem sua experiência com a paternidade. Às vezes maravilhosa, às vezes nem tanto.

Mas de onde vem esse dom, esse nome tão sublime de PAI? Vem daquele que é PAI por excelência, de quem, quer saibamos ou não, quer creiamos ou não, emana toda paternidade: Deus.

Se quiséssemos elencar as características de um pai, diríamos que o pai é o que cuida, o que protege, o que ajuda, apóia; é aquele que dá segurança, que tira o medo. Que nos sua força nos faz firmes, que nos educa para a vida. É aquele que dá a vida continuamente, até o fim. É aquele em quem podemos confiar e, quando parecer que o mundo inteiro nos rejeita, ele nos acolherá, quanto tudo parecer desabar, jamais estaremos desamparados. É o carinho, o afeto, o amor que nunca, jamais falhará, mesmo diante das mais graves de nossas imperfeições, defeitos, pois ele nos conhece e não se espanta conosco.

Sim, só Deus merece toda a dignidade desse título. Só Deus é PAI em toda a plenitude. Aos homens, imagem e semelhança divina, Ele concede essa honra de ser chamados também de pai.

Pai é todo aquele que participa do ato criador de Deus de gerar, dar a vida. Nesse sentido, não poderíamos de forma alguma separar o pai da mãe, pois Deus é imagem dos dois, e ambos são co-responsáveis na geração da vida. Mas queremos hoje lembrar o dom particular da PATERNIDADE. Esse dom que pertence aos homens.

Os pais são sacramento da paternidade divina. Sinais que devem transparecer e participar dessa glória que pertence ao próprio Deus. Porém, quanta imperfeição… quantas vezes essa imagem de Deus é negada, distorcida, vilipendiada, justamente naqueles que deveriam transmiti-la com toda força. Quantas crianças não reconhecem a paternidade amorosa de Deus justamente por nunca terem contemplado, nem que fosse um mero vislumbre, uma faísca na escuridão, do brilho dessa paternidade no rosto dos seus pais.

Mas não estamos aqui para acusar os pais no seu próprio dia. Não estou aqui para fazer o papel do Kafka. Gostaria somente de lembrar, por mais ferido que alguém tenha sido, por mais que lhe tenha sido negada a verdadeira imagem da paternidade na pessoa do seu pai natural, que se pode e se deve, sim, experimentar esse AMOR olhando para o PAI.

Nele, encontramos todo afeto, amor, carinho, compreensão. Nele a segurança, o apoio, a força. Ele não nos abandona, não nos rejeita, mas nos assume como filhos. Ele nos educa e nos leva a crescer com a força e a doçura do seu braço. Ele nos tira o medo, e nos faz compreender que não estamos sozinhos, que ninguém vai nos atacar, nos roubar, nos destruir por completo, pois ele está ao nosso lado à nosso favor.

Nele, nós encontramos o verdadeiro rosto do PAI. Nele aprendemos a ser pai. Nós como filhos, devemos olhar para os nossos pais e ver esse maravilhoso dom escondido. Não podemos exigir deles mais do que eles podem ou puderam nos dar. Eles são imperfeitos, como nós o somos. Nós temos sede do perfeito, temos ânsia por aquilo que sacia plenamente as nossas expectativas e só em Deus encontramos aquilo que buscamos.

Aos pais que geraram pelo sangue ou que geraram e geram pelo espírito – os pais espirituais, dentre eles, nós padres – apelo para que contemplemos a nossa fonte, o nosso modelo, aquele Único que merece essa dignidade infinita de ouvir alguém nesse mundo pronunciar dirigida a nós essa palavra divina: PAI.

Filhos, perdoem-nos a nossa fraqueza… ajudem-nos a sermos menos indignos desse nome.

Pais, parabéns! Vocês não são perfeitos… mas nós te amamos.

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Pai mais que Senhor

Esse texto é belíssimo, vale a pena conferir!

Dos Sermões de São Pedro Crisólogo, bispo

(Sermo 108: PL 52,499-500)

(Séc. V)

Sê tu sacrifício e sacerdote de Deus

Pela misericórdia de Deus, eu vos exorto, irmãos (Rm 12,1). Paulo exorta, ou melhor, é Deus que por intermédio de Paulo nos exorta, pois deseja ser mais amado que temido. Deus exorta-nos, porque quer ser mais Pai do que Senhor. Deus exorta-nos, pela sua misericórdia, para não ter de nos castigar com o seu rigor.

Ouve como o Senhor exorta: Vede, vede em mim o vosso corpo, os vossos membros, o vosso coração, os vossos ossos, o vosso sangue. E se temeis o que é de Deus, por que não amais o que também é vosso? Se fugis do Senhor, por que não recorreis ao Pai?

Talvez vos perturbe a enormidade de meus sofrimentos causados por vós. Não tenhais medo. Esta cruz não me feriu a mim, mas feriu a morte. Estes cravos não me provocam dor, mas cravam mais profundamente em mim o amor por vós. Estas chagas não me fazem soltar gemidos, mas vos introduzem ainda mais intimamente em meu coração. O meu corpo, ao ser estirado na cruz, não aumenta o meu sofrimento, mas dilata os espaços do coração para vos acolher. Meu sangue não é uma perda para mim, mas é o preço do vosso resgate.

Vinde, pois, convertei-vos e pelo menos assim experimentareis a bondade do Pai, que paga os males com o bem, as injúrias com amor, tão grandes chagas com tamanha caridade.

Ouçamos, porém, a insistência do Apóstolo: Eu vos exorto a vos oferecerdes em sacrifício vivo (Rm 12,1). Pedindo deste modo, o Apóstolo ergueu todos os seres humanos à dignidade sacerdotal: a vos oferecerdes em sacrifício vivo.

Ó inaudito mistério do sacerdócio cristão, em que o ser humano é para si mesmo vítima e sacerdote! O ser humano não precisa ir buscar fora de si a vítima que deve oferecer a Deus; traz consigo e em si o que irá sacrificar a Deus. Permanecem intactos tanto a vítima como o sacerdote; a vítima é imolada mas continua viva, e o sacerdote que oferece o sacrifício não pode matar a vítima.

Admirável sacrifício em que o corpo é oferecido sem imolação e o sangue sem derramamento! Pela misericórdia de Deus eu vos exorto a vos oferecerdes em sacrifício vivo.
Irmãos, este sacrifício é imagem do sacrifício de Cristo que, para dar a vida ao mundo, imolou o seu corpo, permanecendo vivo; na verdade, ele fez de seu corpo um sacrifício vivo, porque tendo morrido, continua vivo. Num sacrifício como este, a morte teve a sua parte, mas a vítima permanece; a vítima vive, enquanto a morte é castigada. Por isso, os mártires nascem com a morte, no fim da vida é que começam a vivê-la; com a sua imolação revivem e brilham agora nos céus os que na terra eram tidos como mortos.


Pela misericórdia de Deus, eu vos exorto, irmãos, a vos oferecerdes em sacrifício vivo, santo. É o que também cantava o Profeta: Tu não quiseste nem vítima nem oferenda, mas formaste-me um corpo (cf. Sl 39,7; Hb 10,5).

Ó homem, sê tu sacrifício e sacerdote de Deus; não percas aquilo que te foi dado pelo poder do Senhor. Reveste-te com a túnica da santidade, cinge-te com o cíngulo da castidade; seja Cristo o véu de proteção da tua cabeça; que a cruz permaneça em tua fronte como defesa. Grava em teu peito o sinal da divina ciência; eleva continuamente a tua oração como perfume de incenso; empunha a espada do Espírito; faze de teu coração um altar. E assim, com toda confiança, oferece teu corpo como vítima a Deus.

Deus não quer a morte, mas a fé; ele não tem sede do teu sangue, mas do teu sacrifício; não se aplaca com a morte violenta, mas com a vontade generosa.