Pregação de Sexta-feira Santa do padre Raniero Cantalamessa

CIDADE DO VATICANO, sexta-feira, 2 de abril de 2010 (ZENIT.org).- Apresentamos a seguir a pregação que o padre Raniero Cantalamessa dirigiu nesta Sexta-feira Santa, na celebração da Paixão do Senhor presidida pelo Papa, na Basílica de São Pedro.* * *

P. Raniero Cantalamessa, ofmcap

“TEMOS UM GRANDE SUMO SACERDOTE”

Pregação da Sexta-Feira Santa 2010 na Basílica de S. Pedro

“Temos um grande Sumo Sacerdote que atravessou os céus, Jesus, o Filho de Deus”: assim se inicia o trecho da Carta aos Hebreus que ouvimos na segunda leitura. No ano sacerdotal, a liturgia da Sexta-feira Santa nos convida a percorrer a origem histórica do sacerdócio cristão.

Esta é a fonte de ambas realizações do sacerdócio: aquela ministerial, dos bispos e presbíteros, e aquela universal, de todos os fiéis. Também esta, de fato, está fundamentada no sacrifício de Cristo que, como diz o Apocalipse, “nos ama, que nos lavou de nossos pecados no seu sangue e que fez de nós um reino de sacerdotes para Deus e seu Pai” (Ap 1, 5-6).

É de vital importância, portanto, compreender a natureza do sacrifício e do sacerdócio de Cristo, pois é neles que sacerdotes e leigos, embora de maneiras diferentes, devem se inspirar e buscar viver suas exigências.

A Carta aos Hebreus explica no que consiste a novidade e o caráter único do sacerdócio de Cristo, não apenas com relação ao sacerdócio da antiga aliança, mas também, como nos ensina a história das religiões, com relação a toda instituição sacerdotal, inclusive fora da Bíblia. “Cristo, sumo sacerdote dos bens vindouros […] adentrou de uma vez por todas no santuário, não com o sangue de carneiros ou novilhos, mas com seu próprio sangue”. Desse modo, adquiriu para nós a redenção eterna. “Pois se o sangue de carneiros e de touros e a cinza de uma vaca, com que se aspergem os impuros, santificam e purificam pelo menos os corpos, quanto mais o sangue de Cristo, que pelo Espírito eterno se ofereceu como vítima sem mácula a Deus, purificará a nossa consciência das obras mortas para o serviço do Deus vivo!” (Hb 9, 11-14).

Qualquer outro sacerdote oferece algo externo a si, mas Cristo ofereceu a si próprio; qualquer outro sacerdote oferece vítimas, mas Cristo ofereceu a si mesmo como vítima! Santo Agostinho sintetizou em uma fórmula bem conhecida este novo gênero de sacerdócio, no qual sacerdote e vítima são uma coisa só: “Ideo sacerdos, quia sacrificium”: “sacerdote porque vítima” [1].

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Em 1972, um célebre pensador francês lançava a tese segundo a qual “a violência é o coração e a alma secreta do sagrado” [2]. De fato, na origem e no centro de qualquer religião está o sacrifício, e o sacrifício encerra morte e destruição. O jornal “Le Monde” saudava esta afirmação, dizendo que fazia daquele ano “um ano a ser assinalado com um asterisco nos anais da humanidade”. No entanto, já anteriormente a esta data, este estudioso se aproximara do cristianismo, e na Páscoa de 1959, havia tornado pública sua “conversão”, declarando-se crente e voltando à Igreja.

Isto o permitiu, em seus estudos subsequentes, não se deter na análise do mecanismo da violência, mas expor os meios de superá-la. Infelizmente, muitos continuam a citar René Girard apenas como aquele que denunciou a ligação entre o sagrado e a violência, mas não mencionam o Girard que evidenciou, no mistério pascal de Cristo, a ruptura total e definitiva desta ligação. Para ele, Jesus desmascara e desfaz o mecanismo de bode expiatório que sacraliza a violência, ao fazer-se ele próprio, inocente, vítima de toda a violência [3]. O processo no qual estaria a gênese da religião, segundo Freud, é assim derrubado.

Em Cristo, é Deus quem se faz vítima, e não a vítima (para Freud, o pai primordial) que, ao ser sacrificada, é sucessivamente elevada à dignidade divina (o Pai dos céus). Já não é o homem que oferece sacrifícios a Deus, mas é Deus quem se “sacrifica” pelo homem, entregando à morte seu Filho unigênito (cf. Jo 3,16). Assim, o sacrifício não mais se destina a “aplacar” a divindade, mas a aplacar o homem, fazendo-o renunciar a sua hostilidade nas relações com Deus e com o próximo.

Cristo não veio portando o sangue de outros, mas seu próprio sangue. Não pôs seus próprios pecados sobre os ombros de outros – fossem homens ou animais; ao contrário, sustentou os pecados dos outros sobre seus próprios ombros: “Carregou os nossos pecados em seu corpo sobre o madeiro” (1 Pe 2, 24).

É possível, então, continuar a falar em sacrifício ao referir-se à morte de Cristo, e portanto à Missa? Durante muito tempo, o estudioso citado rejeitou esta ideia, considerando-a por demais associada ao conceito de violência; mas, posteriormente, passou a aceitar a possibilidade de um novo gênero de sacrifício em Cristo, vendo nessa mudança de significado “o fato central da história religiosa da humanidade”.

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Visto sob essa ótica, o sacrifício de Cristo contém uma mensagem formidável para o mundo de hoje. Grita para o mundo que a violência é um resíduo arcaico, uma regressão a estágios primitivos e superados da história humana e, em se tratando de crentes, um retardamento censurável e escandaloso frente à tomada de consciência do salto de qualidade operado por Cristo.

Lembra-nos também que a violência está derrotada. Em quase todos os mitos antigos, a vítima é a derrotada e o carrasco, o vencedor. Jesus alterou o sentido da vitória. Inaugurou um novo gênero de vitória, que não consiste em fazer vítimas, mas sim em fazer-se vítima. “Victor quia victima!”, vencedor porque vítima, assim Agostinho define o Jesus da cruz [4].

O valor moderno da defesa das vítimas, dos fracos e da vida ameaçada tem origem no terreno do cristianismo, sendo um fruto tardio da revolução operada por Cristo. Dispomos de uma contra-prova.

Somente ao abandonar a visão cristã (como fez Nietzsche) para retomar a pagã, é que se perde esta conquista e volta-se a exaltar “o forte, o poderoso, até sua expressão mais sublime, o super-homem”, definindo-se a moral cristã como “uma moral de escravos”, fruto do ressentimento impotente contra os fortes.

Lamentavalmente, porém, a mesma cultura moderna que condena a violência a favorece e exalta, paralelamente. Rasgamos as vestes diante de alguns acontecimentos sanguinários, mas não nos damos conta de que se prepara o terreno para que estes ocorram justamente com aquilo que é anunciado nas páginas dos jornais ou nos programas de televisão.

O gosto com o qual se fala da violência e a sanha de ser o primeiro e mais cru ao descrevê-la nada mais fazem que promovê-la. O resultado não é uma catarse do mal, mas sim um incitamento a este. É inquietante que a violência e o sangue tenham se tornado alguns dos ingredientes de maior apelo nos filmes e nos vídeo-games, e que sejamos tão atraídos por eles a ponto de nos parecer divertido contemplá-los.

O mesmo estudioso que já mencionamos evidenciou a matriz na qual se dá o mecanismo da violência: o mimetismo, aquela inclinação humana inata de considerar desejáveis as coisas desejadas pelos outros, e que leva a repetir aquilo que vemos outros fazerem. A psicologia do “rebanho” é justo aquela que conduz à escolha do “bode expiatório”, para encontrar, na luta contra um inimigo comum – em geral, o elemento mais frágil, o diferente – uma coesão, ainda que momentânea e artificial.

Temos exemplos desta dinâmica na violência recorrente nos estádios de futebol, no bullying nas escolas e em certas manifestações públicas que deixam um rastro de destruição por onde passam. Uma geração de jovens que teve o raríssimo privilégio de não ter conhecido uma verdadeira guerra e de não terem sido jamais convocados às armas, diverte-se (por que se trata de uma brincadeira, ainda que estúpida e eventualmente trágica) inventando pequenas guerras, impelidos pelos mesmos instintos que moviam as hordas primordiais.

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Mas há uma violência ainda mais grave e disseminada do que esta dos jovens nos estádios e nas ruas. Não me refiro àquela violência dirigida às crianças, com a qual estão manchados até mesmo elementos do clero; sobre essa violência já se fala suficientemente em outros âmbitos. Falo da violência contra a mulher. Esta é uma ocasião apropriada para levar as pessoas e instituições que lutam contra essa violência à compreensão de que Cristo é seu melhor aliado.

Trata-se de uma violência que se torna ainda mais grave quando cometida no abrigo e na intimidade do lar, frequentemente justificada com base em preconceitos pseudo-religiosos e culturais. As vítimas encontram-se desesperadamente sós e indefesas. Somente hoje, graças ao apoio das muitas associações e instituições, é que algumas mulheres encontram forças para denunciar seus agressores.

Muito dessa violência tem um fundo sexual. É o macho que acredita demonstrar sua virilidade ao submeter a mulher, sem se dar conta de que, desse modo, evidencia tão simplesmente sua insegurança e sua covardia. Também na relação com a mulher que erra, que contraste há entre o agir de Cristo e aquele que ainda verificamos em certos ambientes! O fanatismo invoca o apedrejamento; Cristo responde, àqueles que lhe haviam apresentado a adúltera: “Quem de vós não tiver pecado, que atire a primeira pedra” (Jo 8, 7). O adultério é um pecado que se comete sempre a dois, mas para o qual apenas um tem sido sempre (em algumas partes do mundo, ainda hoje) punido.

A violência contra a mulher torna-se ainda mais odiosa ao refugiar-se justamente no ambiente onde deveria reinar o respeito recíproco e o amor – na relação marido e mulher. É verdade que a violência não advém sempre de uma das partes, e que se pode ser violento também com a língua e não apenas com as mãos; mas não se pode negar que, na vasta maioria dos casos, a vítima é a mulher.

Há famílias nas quais o homem se julga autorizado a levantar a voz e as mãos para a dona de casa. Esposa e filhos vivem sob a constante ameaça da “ira do papai”. A estes homens talvez valesse dizer: “Caros colegas homens, criando-vos varões, Deus não vos concedeu o direito de bater os punhos contra a mesa por qualquer motivo. A palavra dirigida a Eva após sua culpa “Ele (homem) te dominará” (Gn 3,16), era uma amarga previsão, não uma autorização.

João Paulo II inaugurou a prática de pedir perdão por erros coletivos. Um desses pedidos de perdão, talvez entre os mais justos e necessários, é o perdão que uma metade da humanidade deveria pedir à outra metade, os homens às mulheres. Esse pedido não deve permanecer genérico ou abstrato. Deve levar a gestos concretos de conversão, a palavras de desculpas e de reconciliação no seio da família e da sociedade.

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O trecho da Carta aos Hebreus que ouvimos prossegue dizendo: “Nos dias de sua carne, em alta voz e com lágrimas nos olhos, ofereceu orações e súplicas àquele que poderia salvá-lo da morte”. Jesus conheceu toda a crueza da condição de vítima, o grito sufocado e as lágrimas silenciosas. Na verdade, “não dispomos de um sumo sacerdote que não possa partilhar conosco nossas fraquezas”. Em cada vítima da violência Cristo revive misteriosamente sua experiência terrena. A esse propósito diz ele “foi a mim mesmo que o fizestes” (Mt 25, 40).

Por uma rara coincidência, neste ano nossa Páscoa cai na mesma semana da Páscoa judaica, que é a matriz na qual esta se constituiu. Isso nos estimula a voltar nosso pensamento aos nossos irmãos judeus. Estes sabem por experiência própria o que significa ser vítima da violência coletiva e também estão aptos a reconhecer os sintomas recorrentes. Recebi nestes dias uma carta de um amigo judeu e, com sua permissão, compartilho um trecho convosco. Dizia:

“Tenho acompanhado com desgosto o ataque violento e concêntrico contra a Igreja, o Papa e todos os féis do mundo inteiro. O recurso ao estereótipo, a passagem da responsabilidade pessoal para a coletividade me lembram os aspectos mais vergonhosos do anti-semitismo. Desejo, portanto, expressar à ti pessoalmente, ao Papa e à toda Igreja minha solidariedade de judeu do diálogo e de todos aqueles que no mundo hebraico (e são muitos) compartilham destes sentimentos de fraternidade. A nossa Páscoa e a vossa têm indubitáveis elementos de alteridade, mas ambas vivem na esperança messiânica que seguramente reunirá no amor do Pai comum. Felicidades a ti e a todos os católicos e Boa Páscoa”.

Também nós, católicos, felicitamos os irmãos judeus, desejando-lhes Boa Páscoa. E o fazemos com palavras de seu antigo mestre Gamaliel, inseridas no Seder pascal hebraico e incorporadas na mais antiga liturgia cristã:

“Ele nos conduziu

da escravidão à liberdade,

da tristeza à alegria,

do luto à festa,

das trevas à luz,

da servidão à redenção

Por isso diante dele dizemos: Aleluia” [5]

* * *

[Tradução de Paulo Marcelo Silva]

* * *

Notas originais em italiano:

[1] S. Agostino, Confessioni, 10,43.

[2] Cfr. R. Girard, La violence et le sacré, Grasset, Parigi 1972

[3] M. Kirwan, Discovering Girard, Londra 2004.

[4] S. Agostino, Confessioni, 10,43.

[5] Pesachim, X,5 e Melitone di Sardi, Omelia pasquale,68 (SCh 123, p.98).

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Julgamento Injusto

Ultimamente o Brasil inteiro tem acompanhado um caso que chocou o país. Um casal, um pai e uma madrasta, assassinaram barbaramente uma criancinha de apenas cinco anos de idade.

Interessante notar a comoção e solidariedade nacional diante desse caso que, altamente propagado pela mídia – sempre em busca de fatos sensacionalísticos – alardeou o máximo possível. Multidões acompanharam pela TV, internet, e até mesmo às portas do Fórum, passo a passo, torcendo e rezando para que o casal criminoso fosse condenado com a pena máxima. Não condeno o fato. Eu também acompanhei o processo. Como todo brasileiro, também quis a justiça. Mas porque será que houve tanto interesse nesse caso? Houveram já outros crimes que abalaram o coletivo emocional brasileiro. Mas muitos outros acontecem todos os dias, muitos. Nós sabemos até mesmo pela mídia. Crimes igualmente bárbaros ou até mesmo piores. Claro, esse não tão propagados pela mídia nacional são de pessoas simples, do povo, que não moram em um quinto andar de um apartamento, não chegam de carro na garagem, não têm tela de proteção no quarto da criança. Não tapemos o sol com uma peneira, essa é a verdade, é a realidade, infelizmente.

Mas justamente por termos contado diário com gritantes injustiças e crimes violentíssimos contra a nossa dignidade, que escolhemos um caso, um único caso, que possa para nós servir de desforra, de símbolo. Inconscientemente pensamos: se ao menos nesse caso houver justiça, ficarei mais aliviado diante da injustiça institucionalizada de nossa sociedade. Diante do crime impune de que a saúde de boa qualidade é acessível só a quem tem plano de saúde; o crime gritantemente injusto de que a educação que forma e dá dignidade ao cidadão é privilégio de quem pode pagar a cara máfia das escolas particulares; a injustiça de que as pessoas que têm um pouco de dinheiro (não precisa ser rico) devem estar trancados em prisões domiciliares enquanto os bandidos estão soltos pelas ruas; ruas esburacadas e destruídas enquanto nós que temos o privilégio de ter um carro temos que pagar um imposto absurdo para circular pelas estradas e além disso a grande maioria do povo se esmaga nos transportes públicos igualmente inseguros (até nos terminais se morre atropelado); a lista podia ser muito maior… mas não vou continuar, nós sabemos onde vivemos!

Pois bem, pelo menos nesse caso do casal Nardoni e Jatobá a justiça foi feita. Nos desforramos.

Mas nesse domingo, eu gostaria de falar de outro julgamento. Um julgamento que, ao contrario do caso da menina assassinada pelo pai e pela madrasta, não teve um veredicto segundo a justiça. Um criminoso foi solto e um justo foi condenado. Sim, não só um criminoso declaradamente culpado foi liberado, mas um justo foi condenado à morte! Sem culpa, sem crime. Se você é católico praticante sabe do que eu estou falando. Nesse Domingo, nós católicos celebramos a entrada triunfal do Nosso Senhor e Deus em Jerusalém e sua condenação à morte de cruz. Um espetáculo jamais visto na história da humanidade. Ele, somente ELE era justo. Não há um único justo fora ele. Mas o povo na época preferiu Barrabás. Ficamos chocados na liturgia quando, o mesmo povo que aclama “Hosana ao Filho de Davi, bendito o que vem em nome do Senhor” é o povo que grita: solte-nos Barrabás e crucifique Jesus! Solte-nos um criminoso condenado e mate o Justo! Ficamos indignados, bom, pelo menos deveríamos ficar doloridos pois ele é o nosso amado Senhor, o Filho de Deus. O que gritaríamos se estivéssemos lá, sem saber muito bem o que estava acontecendo e induzidos pela comoção de massa? Não podemos julgar. O fato é que esse é o julgamento e o veredicto mais injusto da história e nunca haverá um outro tão injusto.

Um JUSTO foi condenado e um INJUSTO foi libertado: JESUS foi condenado e… VOCÊ foi libertado! O julgamento mais injusto e cruel da história da humanidade foi feito para liberar da condenação nada mais nada menos que VOCÊ!

Pense nisso… e feliz Páscoa!

Ainda dá

Galera…

Ainda dá tempo!

Sabe aquela sensação que as coisas estão chegando ao fim e você não fez o que deveria ter feito?

Tipo assim, aquela prova de matemática que você “empancou” feito uma mula na segunda questão e, quando faltava 5min você viu que faltavam ainda 6 questões??!!

Pois é… desesperador não?

Estamos, meus queridos, na quinta semana da quaresma… aí você pode ter se tocado que, da sua lista de penitência, você deixou de cumprir com um monte de propósitos. Ou, pior, você não cumpriu com propósito algum… Nesse caso, CALMA, AINDA DÁ TEMPO!

SIM, no último minuto, na última semana, nos últimos dias… Lembra do olhar de Jesus para Pedro depois da negação? Dá tempo, sempre é tempo para o arrependimento, sempre é tempo para recomeçar, sempre! Não pense que você não fez nada e por isso você é como uma massa de coleiformes imerso em uma porção  consideravelmente grande de H2O…!!!

Bom… talvez seja… mas Deus recupera tudo. Vamos esquecer o que ficou pra trás. Renovemos o nosso propósito. Vivamos a Semana Santa, os dias que faltam para a Páscoa, como não vivemos, ou melhor do que vivemos a Quaresma.

Não percamos tempo…  pois ainda dá pra fazer aquela penitencia, aquele sacrifício, aquela renúncia e até mesmo oferecer a Deus como sacrifício a humilhação de não ter conseguido renunciar a pequenas coisas por míseros 40 dias!

Deus abençoe a todos!

Bento XVI: Quaresma, tempo de renovação espiritual

Comentário ao Evangelho do primeiro domingo deste tempo litúrgico

CIDADE DO VATICANO, domingo, 21 de fevereiro de 2010 (ZENIT.org).- Apresentamos a intervenção de Bento XVI durante a oração mariana do Angelus no primeiro domingo da Quaresma.

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Caros irmãos e irmãs!

Quarta-feira passada, com o rito penitencial das Cinzas, demos início à Quaresma, tempo de renovação espiritual que nos prepara para a celebração anual da Páscoa. Mas o que significa entrar no itinerário quaresmal? Isso nos ilustra o Evangelho deste primeiro domingo, com o relato das tentações de Jesus no deserto.

Narra o Evangelista São Lucas que Jesus, após ter recebido o batismo de João, “pleno do Espírito Santo, distanciou-se do Jordão, e era guiado pelo Espírito Santo no deserto, por quarenta dias, tentado pelo demônio” (Lc 4,1-2).

É evidente a insistência sobre o fato de que as tentações não foram um acidente de percurso, mas a consequência da escolha de Jesus de seguir na missão confiada pelo Pai, de viver até o fim sua realidade de Filho amado, que confia totalmente Nele. Cristo veio ao mundo para liberatar-nos do pecado e do ambíguo fascínio de conceber nossa vida prescindindo a Deus. Ele o fez não com aclamações altissonantes, mas lutando em primeira pessoa contra o Tentador, até a cruz. Este exemplo vale para todos: melhora-se o mundo começando por si mesmo, mudando, com a graça de Deus, aquilo que não está bem na própria vida.

Das três tentações de Satanás a Jesus, a primeira tem origem na fome, isto é, na necessidade material: “Se és Filho de Deus, diga a esta pedra que se torne pão”. Mas Jesus responde com a Sagrada Escritura: “Nem só de pão vive o homem” (Lc 4,3-4; cfr Dt 8,3). Em seguida, o diabo mostra a Jesus todos os reinos da terra e diz: tudo será teu, se, prostrando-te diante de mim, me adorares. É a sedução pelo poder, e Jesus desmascara esta investida dizendo: “Ao Senhor, teu Deus, adorarás, e apenas a Ele renderás culto” (cfr Lc 4,5-8; Dt 6,13). Não adoração ao poder, mas somente a Deus, à verdade e ao amor. Finalmente, o Tentador propõe a Jesus que faça um milagre espetacular: que se atire do alto das muralhas do Templo e se faça salvar pelos anjos, e assim todos acreditarão nele. Mas Jesus responde que a Deus não se coloca jamais à prova (cfr Dt 6,16). Não podemos “fazer um experimento” no qual Deus deve responder e mostrar-se Deus: devemos crer Nele! Não devemos fazer de Deus “material” de “nosso experimento”!

Referindo-se sempre à Sagrada Escritura, Jesus contrapõe aos critérios humanos o único critério autêntico: a obediência, a conformidade com a vontade de Deus, que é o fundamento de nosso ser. Também este é um ensinamento fundamental para nós: se portarmos na mente e no coração a Palavra de Deus, se esta adentra em nossa vida, se tivermos confiança em Deus, podemos refutar todo o tipo de trapaça do Tentador. Ademais, de toda a narrativa emerge claramente a imagem de Cristo como o novo Adão, Filho de Deus humilde e obediente ao Pai, à diferença de Adão e Eva que, no jardim do Éden, cederam às seduções do espírito do mal de serem imortais, sem Deus.

A Quaresma é como um longo “retiro”, durante o qual reentramos em nós mesmos e ouvimos a voz de Deus, para vencer as tentações do Maligno e encontrar a verdade de nosso ser. Um tempo, podemos dizer, de “vigor” espiritual a ser vivido junto a Jesus, não com orgulho ou presunção, mas usando as armas da fé, que são a oração, o ouvir a Palavra de Deus e a penitência. Desse modo poderemos celebrar a Páscoa na verdade, prontos para renovar as promessas de nosso Batismo. Que nos ajude a Virgem Maria para que, guiados pelo Espírito Santo, vivamos com alegria e com fruto este tempo de graça. Que interceda particularmente por mim e por meus colaboradores da Cúria Romana, que nesta tarde iniciarão comigo os Exercícios Espirituais.
[Traduzido por Zenit]

Tempo de conversão

Pessoal, pensei em escrever um texto sobre o dia de hoje, mas nada melhor que as palavras do Papa…

De qualquer forma, durante a quaresma pretendo colocar vários textos de minha autoria. Aguardem.

CIDADE DO VATICANO, quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010 (ZENIT.org).- Apresentamos, a seguir, a catequese dirigida pelo Papa aos grupos de peregrinos do mundo inteiro, reunidos na Sala Paulo VI para a audiência geral.

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Queridos irmãos e irmãs:

Iniciamos hoje, Quarta-Feira de Cinzas, o caminho quaresmal: um caminho que se estende durante quarenta dias e que nos leva à alegria da Páscoa do Senhor. Neste itinerário espiritual, não estamos sozinhos, porque a Igreja nos acompanha e nos sustenta desde o começo com a Palavra de Deus – que engloba um programa de vida espiritual e de compromisso penitencial – e com a graça dos sacramentos.

São as palavras do apóstolo Paulo que nos oferecem uma indicação precisa: “Nós vos exortamos a que não recebais em vão a sua graça. Porque Ele diz: ‘No tempo favorável, eu te ouvi; no dia da salvação, vim em teu auxílio’. Este é o tempo favorável, este é o dia da salvação” (2 Cor 6,1-2). Na verdade, na visão cristã da vida, cada momento é favorável e cada dia deve ser chamado de dia de salvação, mas a liturgia da Igreja refere estas palavras de modo muito particular ao tempo da Quaresma. E que os quarenta dias de preparação da Páscoa sejam um tempo favorável e de graça podemos entender precisamente no convite que o austero rito da imposição das cinzas nos dirige e que se expressa, na liturgia, com duas fórmulas: “Convertei-vos e crede no Evangelho” e “Lembra-te de que és pó e ao pó hás de voltar”.

O primeiro convite é à conversão, palavra que é preciso considerar em sua extraordinária seriedade, descobrindo a surpreendente novidade que engloba. O convite à conversão, de fato, revela e denuncia a fácil superficialidade que caracteriza frequentemente nossa maneira de viver. Converter-se significa mudar de direção no caminho da vida: mas não para um pequeno ajuste, e sim como uma verdadeira e total inversão de rumo. Conversão é ir contra a corrente, onde a “corrente” é o estilo de vida superficial, incoerente e ilusório, que frequentemente nos arrasta, nos domina e nos torna escravos do mal ou pelo menos prisioneiros da mediocridade moral. Com a conversão, no entanto, indica-se a medida alta da vida cristã e nos é confiado o Evangelho vivo e pessoal, que é Cristo Jesus. Sua pessoa é a meta final e o sentido profundo da conversão; Ele é o caminho que estamos chamados a percorrer na vida, deixando-nos iluminar pela sua luz e sustentar pela sua força, que move nossos passos. Dessa forma, a conversão manifesta seu rosto mais esplêndido e fascinante: não é uma simples decisão moral, que retifica nossa conduta de vida, mas uma decisão de fé, que nos envolve inteiramente na comunhão íntima com a pessoa viva e concreta de Jesus.

Converter-se e crer no Evangelho não são duas coisas diferentes ou, de alguma forma, somente próximas entre si: elas expressam a mesma realidade. A conversão é o “sim” total de quem entrega sua própria existência ao Evangelho, respondendo livremente a Cristo, quem primeiramente se ofereceu ao homem como caminho, verdade e vida, como Aquele que o liberta e o salva. Precisamente este é o sentido das primeiras palavras com que, segundo o evangelista Marcos, Jesus abre a pregação do “Evangelho de Deus”: “Cumpriu-se o tempo e o Reino de Deus está próximo. Arrependei-vos e crede no Evangelho” (Mc 1,15).

O “convertei-vos e crede no Evangelho” não está somente no início da vida cristã, mas acompanha todos os seus passos, permanece renovando-se e se difunde ramificando-se em todas as suas expressões. Cada dia é momento favorável de graça, porque cada dia nos convida a nos entregarmos a Jesus, a ter confiança n’Ele, a permanecer n’Ele, a compartilhar seu estilo de vida, a aprender d’Ele o amor verdadeiro, a segui-lo no cumprimento cotidiano da vontade do Pai, a única grande lei de vida. Cada dia, ainda quando há muitas dificuldades e fadigas, cansaços e quedas, ainda quando estamos tentados a abandonar o caminho de seguimento de Cristo e de fechar-nos em nós mesmos, em nosso egoísmo, sem percebermos a necessidade que temos de abrir-nos ao amor de Deus em Cristo, para viver a mesma lógica de justiça e de amor. Na recente Mensagem para a Quaresma, eu quis recordar que “é necessário humildade para aceitar que se precisa que um Outro me liberte do ‘meu’, para me dar gratuitamente o ‘seu’. Isto acontece particularmente nos sacramentos da Penitência e da Eucaristia. Graças à ação de Cristo, nós podemos entrar na justiça ‘maior’, que é aquela do amor (cf. Rom 13,8-10), a justiça de quem se sente em todo o caso sempre mais devedor do que credor, porque recebeu mais do que aquilo que poderia esperar”.

O momento favorável e de graça da Quaresma nos mostra o próprio significado espiritual também através da antiga fórmula: “Lembra-te de que és pó e ao pó hás de voltar”, que o sacerdote pronuncia quando impõe sobre a nossa cabeça um pouco de cinzas. Somos assim remetidos aos inícios da história humana, quando o Senhor disse a Adão após a culpa das origens: “Com o suor de teu rosto comerás teu pão até que retornes ao solo, pois dele foste tirado. Pois tu és pó e ao pó hás de voltar” (Gn 3, 19). Aqui, a palavra de Deus nos recorda nossa fragilidade, inclusive nossa morte, que é sua forma extrema, frente ao inato medo do fim; ainda mais no contexto de uma cultura que de tantas formas tende a censurar a realidade e a experiência humana do morrer, a liturgia quaresmal, por um lado, recorda-nos sempre a morte, convidando-nos ao realismo e à sabedoria; mas, por outro lado, ela nos conduz sobretudo a acolher e viver a novidade inesperada de que a fé cristã liberta da realidade da própria morte.

O homem é pó e ao pó voltará, mas é pó precioso aos olhos de Deus, porque Deus criou o homem destinando-o à imortalidade. Assim, a fórmula litúrgica “Lembra-te de que és pó e ao pó hás de voltar” encontra a plenitude do seu significado em referência ao novo Adão, Cristo. Também o Senhor Jesus quis livremente compartilhar com cada homem o destino da fragilidade, em particular através da sua morte na cruz; mas precisamente esta morte, repleta do seu amor pelo Pai e pela humanidade, foi o caminho para a ressurreição gloriosa, através da qual Cristo se converteu em fonte de uma graça dada àqueles que creem n’Ele e se tornam partícipes da mesma vida divina. Esta vida que não terá fim já está presente na fase terrena da nossa existência, mas será levada a cumprimento após a “ressurreição da carne”. O pequeno gesto da imposição das cinzas nos revela a singular riqueza do seu significado: é um convite a percorrer o tempo da Quaresma como um mergulho mais consciente e mais intenso no mistério pascal de Cristo, em sua morte e sua ressurreição, mediante a participação na Eucaristia e na vida de caridade, que nasce da Eucaristia e nela encontra seu cumprimento. Com a imposição das cinzas, renovamos nosso compromisso de seguir Jesus, de deixar-nos transformar pelo seu mistério pascal, para vencer o mal e fazer o bem, para fazer morrer nosso “homem velho”, ligado ao pecado, e fazer nascer o “homem novo”, transformado pela graça de Deus.

Queridos amigos: enquanto nos apressamos para empreender o austero caminho quaresmal, queremos invocar com particular confiança a proteção de Nossa Senhora. Que Ela, a primeira que acreditou em Cristo, seja quem nos acompanhe nestes quarenta dias de intensa oração e de sincera penitência, para chegar a celebrar, purificados e completamente renovados na mente e no espírito, o grande mistério da Páscoa do seu Filho.

[No final da audiência, o Papa cumprimentou os peregrinos em vários idiomas. Em português, disse:]

Queridos irmãos e irmãs:

Hoje tem início o caminho da quaresma que nos conduzirá à alegria da Páscoa do Senhor. Recebendo as cinzas sobre a cabeça, renovamos o nosso compromisso de seguir Jesus, de nos deixarmos transformar pelo seu mistério pascal para vencer o mal e fazer o bem, para morrer para o nosso “homem velho” ligado ao pecado e fazer nascer o “homem novo” transformado pela graça de Deus.

Saúdo com particular afeto o grupo de fiéis do Patriarcado de Lisboa, peregrinos com o seu bem-amado Pastor, Cardeal Dom José Policarpo, em romaria de fé e gratidão pelas sendas do Venerável Servo de Deus Papa João Paulo II, que vos conquistou para Cristo, no Parque Eduardo VII da vossa cidade, há 28 anos. Ver-vos hoje aqui traz à mente aquele seu último pensamento para os jovens: “Andei à vossa procura. Agora viestes ter comigo. Eu vos agradeço”. Queria-vos a todos com Cristo. Que este nosso encontro suscite em vós e em todos peregrinos presentes de língua portuguesa, com suas famílias e comunidades cristãs, uma renovada vitalidade espiritual na fiel e generosa adesão a Cristo e à Igreja. Olhai o futuro com esperança e não vos canseis de trabalhar na vinha do Senhor. Uma santa Quaresma para todos!

[Tradução: Aline Banchieri

©Libreria Editrice Vaticana]

Tá chegando…

Pois é galera,

Estamos de volta. E  na próxima quarta começa um tempo especial, esperado, não é? Tava todo mundo ansioso por ele. Um tempo roxinho de bom… a QUARESMA.

Como todos os anos aquela coisa: qual a penitência que eu vou fazer? Ai meu Deus, 40 dias sem comer chocolates, sem entrar no Orkut… sem olhar o blog do padre Léo… epa! Essa não vale!

Na verdade, muitas coisa podemos falar da Quaresma que, como todos nós sabemos é um tempo de preparação para a maior festa do Cristianismo, a PÁSCOA. Mas é sempre bom lembrar o sentido do nosso “fazer penitência”. Eu acho que já disse aqui que fiz minha dissertação de mestrado em teologia justamente sobre esse tema. Imaginem o quanto eu poderia ferver os miolos de vocês com teorias e bla bla bla… etc etc etc…

Mas eu nem sei fazer isso. Queria só dizer uma coisa simples: as penitências não são castigos, são armas.

Eu nunca usei uma arma, graças a Deus, mas sei que não posso usar uma faca pra afundar um navio (a não ser que eu seja o Magaiver, é o novo!), nem posso apagar um incêndio com querosene.

Como eu sei que muita gente, como eu, está já pensando nas penitências/mortificações que vão prometer a Deus para a Quaresma, aqui vai uma dica: use a arma certa para combater o mal certo.

Como eu já tratei desse assunto no post “cortar o mal pela raiz”, peço que vocês dêem uma olhadinha lá pois vale a pena (e eu não acho que deva escrever tudo de novo… talvez devesse fazer uma penitência, não é?).

https://leonardowagner.wordpress.com/tag/penitencia/page/2/

Deus abençoe a todos!