A messe é grande

Queridos amigos…

Em primeiro lugar quero dizer que estou feliz. Na verdade, eu sou feliz: como cristão e como sacerdote. Mas confesso que, como milhões de brasileiros estou feliz porque finalmente a campanha política acabou…!!!

Sei que o que vou escrever aqui é meio fora de contexto, hoje é dia de finados… mas achei legal. Ao abrir a liturgia para rezar as vésperas, reencontrei esse texto de São Gregório Magno – grande Papa do século VI – que repasso um trecho pra vocês:

A messe é grande, são poucos os operários. Rogai, pois, ao Senhor da messe que envie operários a seu campos (Mt 9,37-38). Para grande messe, poucos operários, coisa que não sem imensa tristeza podemos repetir; pois embora haja quem escute as palavras boas, falta quem as diga. Eis que o mundo está cheio de sacerdotes, todavia, raramente se vê um operário na messe de Deus; por que, aceitamos, sim, o ofício sacerdotal, mas não cumprimos o dever do ofício.

Mas pensai, irmãos caríssimos, pensai no que foi dito: Rogai ao Senhor da messe que envie operários a seu campo. Pedi vós por nós, para que possamos fazer coisas dignas de vós; que a língua não se entorpeça por não querer exortar; tendo recebido o encargo de pregar, não vá nosso silêncio condenar-nos diante do justo juiz.

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A juventude do Papa

CIDADE DO VATICANO, sexta-feira, 3 de setembro de 2010 (ZENIT.org) – A guerra e as dificuldades, as próprias dúvidas e o encontro com Jesus são algumas das vivências pessoais que o Papa Bento XVI revive na Mensagem para a Jornada Mundial da Juventude (Madri, 2011), divulgada hoje pela Santa Sé.

Nela, o Papa percorre os anos da sua vocação e propõe sua própria experiência aos jovens, pois as aspirações de um jovem “são as mesmas em todas as épocas” e podem ser resumidas no “desejo de uma vida maior”, que não acabe em “mediocridade”.

Os jovens, “como em toda época, também em nossos dias”, sentem o “profundo desejo de que as relações interpessoais sejam vividas na verdade e na solidariedade”.

“Muitos manifestam a aspiração de construir relações autênticas de amizade, de conhecer o verdadeiro amor, de fundar uma família unida, de adquirir uma estabilidade pessoal e uma segurança real, que possam garantir um futuro sereno e feliz.”

No entanto – afirma o Papa, recordando sua própria juventude -, “vejo que, na verdade, a estabilidade e a segurança não são as questões que mais ocupam a mente dos jovens”.

“Sim, a questão do lugar de trabalho – e, com isso, a de ter o porvir garantido – é um problema grande e urgente, mas ao mesmo tempo a juventude continua sendo a idade na qual se busca uma vida maior.”

O Papa recorda sua juventude, que transcorreu entre a 2ª Guerra Mundial e o imediato período pós-guerra.

“Ao pensar nos meus anos de então, simplesmente, não queríamos perder-nos na mediocridade da vida aburguesada. Queríamos o que era grande, novo. Queríamos encontrar a vida em si, em sua imensidade e beleza.”

Certamente, reconhece, “isso dependia também da nossa situação. Durante a ditadura nacional-socialista e a guerra, estivemos, por assim dizer, ‘presos’ pelo poder dominante. Por isso, queríamos sair, para entrar na abundância das possibilidades de ser homem”.

Contudo, afirma, “este impulso de ir além do habitual está em cada geração. Desejar algo mais que a cotidianidade regular de um emprego seguro e sentir o desejo do que é realmente grande faz parte do ser jovem”.

“Será que se trata somente de um sonho vazio, que se desvanece quando a pessoa se torna adulta? – pergunta-se. Não. O homem, na verdade, foi criado para o que é grande, para o infinito. Qualquer outra coisa é insuficiente.”

Citando um dos seus pensadores favoritos, afirma: “Santo Agostinho tinha razão: nosso coração está inquieto enquanto não descansa em Deus. O desejo da vida maior é um sinal de que Ele nos criou, de que carregamos o seu selo”.

Dúvidas

A juventude, reconhece o Papa em sua mensagem, é também “uma fase fundamental que pode turbar o ânimo, às vezes durante muito tempo. Pensamos em qual será nosso emprego, como serão as relações sociais, que afetos é preciso desenvolver…”.

Bento XVI volta novamente aos seus anos juvenis e compartilha com os jovens suas próprias vacilações e dúvidas.

“De certa forma, em pouco tempo tomei consciência de que o Senhor me queria como sacerdote. Mas depois da guerra, quando eu me dirigia a esta meta no seminário e na universidade, tive de reconquistar esta certeza”, explica.

“Eu tive de me fazer esta pergunta: realmente é este o meu caminho? É verdadeiramente a vontade do Senhor para mim? Serei capaz de permanecer fiel e estar totalmente à disposição d’Ele, ao seu serviço?”

A decisão do sacerdócio não foi fácil: “Uma decisão assim também causa sofrimento. Não pode ser de outra forma. Mas depois tive a certeza: assim está bem! Sim, o Senhor me quer, e por isso me dará também a força. Escutando-O, estando com Ele, chego a ser eu mesmo. Não importa a realização dos meus próprios desejos, mas a sua vontade. Assim, a vida se torna autêntica”.

Encontro com Jesus

Outro dos “tesouros” da sua juventude que o Papa quis compartilhar foi o dom do encontro pessoal com Jesus, uma “pérola preciosa” que, de alguma forma, ele quis transmitir com seus livros sobre Jesus de Nazaré – cujo segundo volume será publicado na próxima Semana Santa.

“Para muitos, é difícil o acesso a Jesus. Muitas das imagens que circulam de Jesus – e que se fazem passar por científicas – diminuem sua grandeza e a singularidade da sua pessoa”, afirma o Papa.

Por isso, “ao longo dos meus anos de estudo e meditação, fui amadurecendo a ideia de transmitir em um livro algo do meu encontro pessoal com Jesus, para ajudar de alguma forma a ver, ouvir e tocar o Senhor, em quem Deus veio ao nosso encontro para dar-se a conhecer”, acrescenta.

“O encontro com o Filho de Deus proporciona um dinamismo novo a toda a existência. Quando começamos a ter uma relação pessoal com Ele, Cristo nos revela nossa identidade e, com sua amizade, a vida cresce e se realiza em plenitude”, afirma o Papa aos jovens.

“Queridos jovens, aprendei a ‘ver’, a ‘encontrar’ Jesus na Eucaristia, na qual Ele está presente e perto até entregar-se como alimento para o nosso caminho; no sacramento da Penitência, no qual o Senhor manifesta sua misericórdia, oferecendo-nos sempre seu perdão. Reconhecei e servi Jesus também nos pobres e doentes, nos irmãos que estão em dificuldade e precisam de ajuda”, conclui.

Pregação de Sexta-feira Santa do padre Raniero Cantalamessa

CIDADE DO VATICANO, sexta-feira, 2 de abril de 2010 (ZENIT.org).- Apresentamos a seguir a pregação que o padre Raniero Cantalamessa dirigiu nesta Sexta-feira Santa, na celebração da Paixão do Senhor presidida pelo Papa, na Basílica de São Pedro.* * *

P. Raniero Cantalamessa, ofmcap

“TEMOS UM GRANDE SUMO SACERDOTE”

Pregação da Sexta-Feira Santa 2010 na Basílica de S. Pedro

“Temos um grande Sumo Sacerdote que atravessou os céus, Jesus, o Filho de Deus”: assim se inicia o trecho da Carta aos Hebreus que ouvimos na segunda leitura. No ano sacerdotal, a liturgia da Sexta-feira Santa nos convida a percorrer a origem histórica do sacerdócio cristão.

Esta é a fonte de ambas realizações do sacerdócio: aquela ministerial, dos bispos e presbíteros, e aquela universal, de todos os fiéis. Também esta, de fato, está fundamentada no sacrifício de Cristo que, como diz o Apocalipse, “nos ama, que nos lavou de nossos pecados no seu sangue e que fez de nós um reino de sacerdotes para Deus e seu Pai” (Ap 1, 5-6).

É de vital importância, portanto, compreender a natureza do sacrifício e do sacerdócio de Cristo, pois é neles que sacerdotes e leigos, embora de maneiras diferentes, devem se inspirar e buscar viver suas exigências.

A Carta aos Hebreus explica no que consiste a novidade e o caráter único do sacerdócio de Cristo, não apenas com relação ao sacerdócio da antiga aliança, mas também, como nos ensina a história das religiões, com relação a toda instituição sacerdotal, inclusive fora da Bíblia. “Cristo, sumo sacerdote dos bens vindouros […] adentrou de uma vez por todas no santuário, não com o sangue de carneiros ou novilhos, mas com seu próprio sangue”. Desse modo, adquiriu para nós a redenção eterna. “Pois se o sangue de carneiros e de touros e a cinza de uma vaca, com que se aspergem os impuros, santificam e purificam pelo menos os corpos, quanto mais o sangue de Cristo, que pelo Espírito eterno se ofereceu como vítima sem mácula a Deus, purificará a nossa consciência das obras mortas para o serviço do Deus vivo!” (Hb 9, 11-14).

Qualquer outro sacerdote oferece algo externo a si, mas Cristo ofereceu a si próprio; qualquer outro sacerdote oferece vítimas, mas Cristo ofereceu a si mesmo como vítima! Santo Agostinho sintetizou em uma fórmula bem conhecida este novo gênero de sacerdócio, no qual sacerdote e vítima são uma coisa só: “Ideo sacerdos, quia sacrificium”: “sacerdote porque vítima” [1].

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Em 1972, um célebre pensador francês lançava a tese segundo a qual “a violência é o coração e a alma secreta do sagrado” [2]. De fato, na origem e no centro de qualquer religião está o sacrifício, e o sacrifício encerra morte e destruição. O jornal “Le Monde” saudava esta afirmação, dizendo que fazia daquele ano “um ano a ser assinalado com um asterisco nos anais da humanidade”. No entanto, já anteriormente a esta data, este estudioso se aproximara do cristianismo, e na Páscoa de 1959, havia tornado pública sua “conversão”, declarando-se crente e voltando à Igreja.

Isto o permitiu, em seus estudos subsequentes, não se deter na análise do mecanismo da violência, mas expor os meios de superá-la. Infelizmente, muitos continuam a citar René Girard apenas como aquele que denunciou a ligação entre o sagrado e a violência, mas não mencionam o Girard que evidenciou, no mistério pascal de Cristo, a ruptura total e definitiva desta ligação. Para ele, Jesus desmascara e desfaz o mecanismo de bode expiatório que sacraliza a violência, ao fazer-se ele próprio, inocente, vítima de toda a violência [3]. O processo no qual estaria a gênese da religião, segundo Freud, é assim derrubado.

Em Cristo, é Deus quem se faz vítima, e não a vítima (para Freud, o pai primordial) que, ao ser sacrificada, é sucessivamente elevada à dignidade divina (o Pai dos céus). Já não é o homem que oferece sacrifícios a Deus, mas é Deus quem se “sacrifica” pelo homem, entregando à morte seu Filho unigênito (cf. Jo 3,16). Assim, o sacrifício não mais se destina a “aplacar” a divindade, mas a aplacar o homem, fazendo-o renunciar a sua hostilidade nas relações com Deus e com o próximo.

Cristo não veio portando o sangue de outros, mas seu próprio sangue. Não pôs seus próprios pecados sobre os ombros de outros – fossem homens ou animais; ao contrário, sustentou os pecados dos outros sobre seus próprios ombros: “Carregou os nossos pecados em seu corpo sobre o madeiro” (1 Pe 2, 24).

É possível, então, continuar a falar em sacrifício ao referir-se à morte de Cristo, e portanto à Missa? Durante muito tempo, o estudioso citado rejeitou esta ideia, considerando-a por demais associada ao conceito de violência; mas, posteriormente, passou a aceitar a possibilidade de um novo gênero de sacrifício em Cristo, vendo nessa mudança de significado “o fato central da história religiosa da humanidade”.

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Visto sob essa ótica, o sacrifício de Cristo contém uma mensagem formidável para o mundo de hoje. Grita para o mundo que a violência é um resíduo arcaico, uma regressão a estágios primitivos e superados da história humana e, em se tratando de crentes, um retardamento censurável e escandaloso frente à tomada de consciência do salto de qualidade operado por Cristo.

Lembra-nos também que a violência está derrotada. Em quase todos os mitos antigos, a vítima é a derrotada e o carrasco, o vencedor. Jesus alterou o sentido da vitória. Inaugurou um novo gênero de vitória, que não consiste em fazer vítimas, mas sim em fazer-se vítima. “Victor quia victima!”, vencedor porque vítima, assim Agostinho define o Jesus da cruz [4].

O valor moderno da defesa das vítimas, dos fracos e da vida ameaçada tem origem no terreno do cristianismo, sendo um fruto tardio da revolução operada por Cristo. Dispomos de uma contra-prova.

Somente ao abandonar a visão cristã (como fez Nietzsche) para retomar a pagã, é que se perde esta conquista e volta-se a exaltar “o forte, o poderoso, até sua expressão mais sublime, o super-homem”, definindo-se a moral cristã como “uma moral de escravos”, fruto do ressentimento impotente contra os fortes.

Lamentavalmente, porém, a mesma cultura moderna que condena a violência a favorece e exalta, paralelamente. Rasgamos as vestes diante de alguns acontecimentos sanguinários, mas não nos damos conta de que se prepara o terreno para que estes ocorram justamente com aquilo que é anunciado nas páginas dos jornais ou nos programas de televisão.

O gosto com o qual se fala da violência e a sanha de ser o primeiro e mais cru ao descrevê-la nada mais fazem que promovê-la. O resultado não é uma catarse do mal, mas sim um incitamento a este. É inquietante que a violência e o sangue tenham se tornado alguns dos ingredientes de maior apelo nos filmes e nos vídeo-games, e que sejamos tão atraídos por eles a ponto de nos parecer divertido contemplá-los.

O mesmo estudioso que já mencionamos evidenciou a matriz na qual se dá o mecanismo da violência: o mimetismo, aquela inclinação humana inata de considerar desejáveis as coisas desejadas pelos outros, e que leva a repetir aquilo que vemos outros fazerem. A psicologia do “rebanho” é justo aquela que conduz à escolha do “bode expiatório”, para encontrar, na luta contra um inimigo comum – em geral, o elemento mais frágil, o diferente – uma coesão, ainda que momentânea e artificial.

Temos exemplos desta dinâmica na violência recorrente nos estádios de futebol, no bullying nas escolas e em certas manifestações públicas que deixam um rastro de destruição por onde passam. Uma geração de jovens que teve o raríssimo privilégio de não ter conhecido uma verdadeira guerra e de não terem sido jamais convocados às armas, diverte-se (por que se trata de uma brincadeira, ainda que estúpida e eventualmente trágica) inventando pequenas guerras, impelidos pelos mesmos instintos que moviam as hordas primordiais.

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Mas há uma violência ainda mais grave e disseminada do que esta dos jovens nos estádios e nas ruas. Não me refiro àquela violência dirigida às crianças, com a qual estão manchados até mesmo elementos do clero; sobre essa violência já se fala suficientemente em outros âmbitos. Falo da violência contra a mulher. Esta é uma ocasião apropriada para levar as pessoas e instituições que lutam contra essa violência à compreensão de que Cristo é seu melhor aliado.

Trata-se de uma violência que se torna ainda mais grave quando cometida no abrigo e na intimidade do lar, frequentemente justificada com base em preconceitos pseudo-religiosos e culturais. As vítimas encontram-se desesperadamente sós e indefesas. Somente hoje, graças ao apoio das muitas associações e instituições, é que algumas mulheres encontram forças para denunciar seus agressores.

Muito dessa violência tem um fundo sexual. É o macho que acredita demonstrar sua virilidade ao submeter a mulher, sem se dar conta de que, desse modo, evidencia tão simplesmente sua insegurança e sua covardia. Também na relação com a mulher que erra, que contraste há entre o agir de Cristo e aquele que ainda verificamos em certos ambientes! O fanatismo invoca o apedrejamento; Cristo responde, àqueles que lhe haviam apresentado a adúltera: “Quem de vós não tiver pecado, que atire a primeira pedra” (Jo 8, 7). O adultério é um pecado que se comete sempre a dois, mas para o qual apenas um tem sido sempre (em algumas partes do mundo, ainda hoje) punido.

A violência contra a mulher torna-se ainda mais odiosa ao refugiar-se justamente no ambiente onde deveria reinar o respeito recíproco e o amor – na relação marido e mulher. É verdade que a violência não advém sempre de uma das partes, e que se pode ser violento também com a língua e não apenas com as mãos; mas não se pode negar que, na vasta maioria dos casos, a vítima é a mulher.

Há famílias nas quais o homem se julga autorizado a levantar a voz e as mãos para a dona de casa. Esposa e filhos vivem sob a constante ameaça da “ira do papai”. A estes homens talvez valesse dizer: “Caros colegas homens, criando-vos varões, Deus não vos concedeu o direito de bater os punhos contra a mesa por qualquer motivo. A palavra dirigida a Eva após sua culpa “Ele (homem) te dominará” (Gn 3,16), era uma amarga previsão, não uma autorização.

João Paulo II inaugurou a prática de pedir perdão por erros coletivos. Um desses pedidos de perdão, talvez entre os mais justos e necessários, é o perdão que uma metade da humanidade deveria pedir à outra metade, os homens às mulheres. Esse pedido não deve permanecer genérico ou abstrato. Deve levar a gestos concretos de conversão, a palavras de desculpas e de reconciliação no seio da família e da sociedade.

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O trecho da Carta aos Hebreus que ouvimos prossegue dizendo: “Nos dias de sua carne, em alta voz e com lágrimas nos olhos, ofereceu orações e súplicas àquele que poderia salvá-lo da morte”. Jesus conheceu toda a crueza da condição de vítima, o grito sufocado e as lágrimas silenciosas. Na verdade, “não dispomos de um sumo sacerdote que não possa partilhar conosco nossas fraquezas”. Em cada vítima da violência Cristo revive misteriosamente sua experiência terrena. A esse propósito diz ele “foi a mim mesmo que o fizestes” (Mt 25, 40).

Por uma rara coincidência, neste ano nossa Páscoa cai na mesma semana da Páscoa judaica, que é a matriz na qual esta se constituiu. Isso nos estimula a voltar nosso pensamento aos nossos irmãos judeus. Estes sabem por experiência própria o que significa ser vítima da violência coletiva e também estão aptos a reconhecer os sintomas recorrentes. Recebi nestes dias uma carta de um amigo judeu e, com sua permissão, compartilho um trecho convosco. Dizia:

“Tenho acompanhado com desgosto o ataque violento e concêntrico contra a Igreja, o Papa e todos os féis do mundo inteiro. O recurso ao estereótipo, a passagem da responsabilidade pessoal para a coletividade me lembram os aspectos mais vergonhosos do anti-semitismo. Desejo, portanto, expressar à ti pessoalmente, ao Papa e à toda Igreja minha solidariedade de judeu do diálogo e de todos aqueles que no mundo hebraico (e são muitos) compartilham destes sentimentos de fraternidade. A nossa Páscoa e a vossa têm indubitáveis elementos de alteridade, mas ambas vivem na esperança messiânica que seguramente reunirá no amor do Pai comum. Felicidades a ti e a todos os católicos e Boa Páscoa”.

Também nós, católicos, felicitamos os irmãos judeus, desejando-lhes Boa Páscoa. E o fazemos com palavras de seu antigo mestre Gamaliel, inseridas no Seder pascal hebraico e incorporadas na mais antiga liturgia cristã:

“Ele nos conduziu

da escravidão à liberdade,

da tristeza à alegria,

do luto à festa,

das trevas à luz,

da servidão à redenção

Por isso diante dele dizemos: Aleluia” [5]

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[Tradução de Paulo Marcelo Silva]

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Notas originais em italiano:

[1] S. Agostino, Confessioni, 10,43.

[2] Cfr. R. Girard, La violence et le sacré, Grasset, Parigi 1972

[3] M. Kirwan, Discovering Girard, Londra 2004.

[4] S. Agostino, Confessioni, 10,43.

[5] Pesachim, X,5 e Melitone di Sardi, Omelia pasquale,68 (SCh 123, p.98).