Dicas para vida tranquila de padre

Nunca critique ninguém, nunca fale a verdade abertamente, não denuncie as injustiças (especialmente do governo), não defenda a radicalidade evangélica nem se meta em polêmicas sobre a doutrina da Igreja.
Fique sempre do lado dos ricos, especialmente nunca negue um pedido particular, uma exceção para quem ajuda financeiramente a Igreja. Deixe as pessoas fazerem o que elas acharem mais bonitinho na liturgia, dê chance pra todos mostrarem os seus dons e talentos usando o microfone da Igreja pra isso.
Celebre a missa bem rapidinho, não reclame de nada do altar, nada mesmo! Não reclame da roupa curta das meninas ou das bermudas dos homens ou do modo de vestir seja lá de quem. Não exija que as pessoas sejam pontuais na missa, afinal, elas têm mais o que fazer! Deixe as pessoas comungarem da forma que acharem que devem.
Sorria sempre, como os políticos, nunca demonstre a verdade sobre os seus sentimentos. Não receba ninguém, absolutamente ninguém em casa, só em grupos e com todas as portas abertas e só durante a parte mais luminosa do dia.
Uma dica muito, muito importante: deixe os leigos fazerem o que quiserem com o dinheiro da Igreja, não exija prestação de contas.
Deixe que as festas dos padroeiros sejam um momento de arrecadação, custe o que custar. Não impeça venda de bebidas alcoólicas, shows mundanos, seja lá o que for.
Faça o catecismo bem rapidinho e deixe as crianças se fantasiarem de princesas e pajens para tirar fotos na primeira comunhão. Aliás, em todos os momentos litúrgicos de festa, deixe que os fotógrafos façam o que quiserem, subam no altar, se for necessário, subam literalmente na mesa do altar, contanto que a foto fique bonita no casamento, crisma, primeira eucaristia, batizado, etc.
Celebre nas casas para a comodidade do povo, especialmente dos ricos. Não faça curso de batismo e aceite qualquer um ser batizado, com qualquer padrinho. Diga para as pessoas juntas, amasiadas, que elas podem comungar, mas diga em segredo pra que ninguém saiba.
Não exija engajamento dos jovens. Crisme qualquer um que queira, afinal, é problema deles…
Enfim, seja um padre bem bonzinho, que se esforça ao máximo, ao extremo mesmo, para agradar a todo mundo. Pronto: você terá uma vida quase 100% tranquila e uma eternidade bem quentinha nas profundezas do inferno!

Anúncios

A messe é grande

Queridos amigos…

Em primeiro lugar quero dizer que estou feliz. Na verdade, eu sou feliz: como cristão e como sacerdote. Mas confesso que, como milhões de brasileiros estou feliz porque finalmente a campanha política acabou…!!!

Sei que o que vou escrever aqui é meio fora de contexto, hoje é dia de finados… mas achei legal. Ao abrir a liturgia para rezar as vésperas, reencontrei esse texto de São Gregório Magno – grande Papa do século VI – que repasso um trecho pra vocês:

A messe é grande, são poucos os operários. Rogai, pois, ao Senhor da messe que envie operários a seu campos (Mt 9,37-38). Para grande messe, poucos operários, coisa que não sem imensa tristeza podemos repetir; pois embora haja quem escute as palavras boas, falta quem as diga. Eis que o mundo está cheio de sacerdotes, todavia, raramente se vê um operário na messe de Deus; por que, aceitamos, sim, o ofício sacerdotal, mas não cumprimos o dever do ofício.

Mas pensai, irmãos caríssimos, pensai no que foi dito: Rogai ao Senhor da messe que envie operários a seu campo. Pedi vós por nós, para que possamos fazer coisas dignas de vós; que a língua não se entorpeça por não querer exortar; tendo recebido o encargo de pregar, não vá nosso silêncio condenar-nos diante do justo juiz.

E daí se sou Católico?

Sou Católico, amo o Papa, qualquer um que seja, atualmente, amo o Papa Bento XVI. Amo a Virgem Maria, Mãe de Deus e nossa.

Sou Católico, acredito, aceito e abraço os dogmas de fé. Creio na Eucaristia, o Corpo e o Sangue de Cristo dado a nós em comunhão. Creio nos Sacramentos, no perdão dos pecados dados pelo sacerdote através da absolvição, na indissolubilidade do matrimônio cristão realizado validamente; creio na salvação dada no batismo e no céu, na vida eterna dada para quem viveu na fé em Jesus, nosso Deus. Sim, Deus, porque Jesus Cristo, o Filho único de Maria, é Deus, o mesmo Deus onipotente que com o Pai e o Espírito Santo criou o Universo! Sim, teria mil e um motivos para justificar a minha fé, baseado em palavras das Escrituras, na Tradição, em conceitos teológicos difundidos e aprofundados nos 2000 anos de existência da Igreja que Jesus deixou sobre a rocha, PEDRO, prometendo que as portas do inferno não prevaleceriam contra ela, o que acontece até hoje. Sim, teria muitos argumentos, mas não vou justificar nada aqui. Não preciso, não quero.

Sou Católico, tenho imagens em casa e nas igrejas em que trabalho e freqüento. Poderia simplesmente dizer que não adoro imagens, que isso é ridículo e que a proibição que fala a Bíblia é contra a adoração de imagens de deuses, o que nem de longe é o nosso caso. Poderia fazer aqui páginas de defesa contra os iconoclastas… mas, não vou fazer. Rezo a Ave Maria, muitas vezes, e sei muitas orações decoradas. Uso um livro sagrado que se chama Bíblia e que foi definido sagrado por nossos pastores, os Bispos dos primeiros séculos, que foi dividida em capítulos e versículos por um dos nossos monges na Idade Média… e por aí vai.

Por falar nisso, bispos de verdade, só nós temos, porque só eles são os legítimos sucessores dos Apóstolos, como o Papa é o legítimo sucessor de Pedro. Aliás, infalível quando propõe uma matéria de fé ou moral para ser crida e vivida como verdade por todos os fiéis. Essa infalibilidade é um dogma, e eu acredito piamente. A nossa hierarquia é composta por Bispos, padres e diáconos e somente os homens podem fazer parte dela, como foi desde a escolha de Cristo no início da Igreja e será a até o fim do mundo.

Como sacerdote Católico, vivo com alegria o celibato por amor ao Reino de Deus, doação total de vida, antecipação na Terra do estado definitivo de todos os remidos no Céu. Acredito e defendo a CASTIDADE como valor fundamental para todos, crianças, jovens, adultos, casados ou não. A castidade nos faz verdadeiramente felizes!

Ah, uma outra coisa muito importante: sou Católico, Apostólico, Romano, pois a sede da Igreja está em Roma onde morreu mártir o nosso primeiro Papa, São Pedro. E, como Católico, fiel ao Evangelho, sou contra o aborto, eutanásia e casamento homossexual! Para mim, são três aberrações escandalosas, fruto terrível do pecado que grassa no coração dos homens e da sociedade. Sou contra a manipulação da vida: bebê de proveta, inseminação artificial, modificação genética, manipulação de embriões humanos, congelamento de óvulos e coisas macabramente semelhantes. Como Católico, acredito nos 10 mandamentos da Lei de Deus, imutável, e que devemos fazer o bem e evitar o mal, como manda a nossa consciência retamente orientada.

Como Católico, acredito também nos santos, nossos irmãos que nos precederam no Céu e que intercedem por nós aqui na terra. Acredito em milagres e nas aparições da Virgem Maria mandada por Deus para nos alertar do perigo do nosso pecado e nos dar mensagens de esperança.

Acredito que a Virgem Mãe de Deus, Maria Santíssima, foi assunta ao Céu em corpo e alma, por privilégio especial, antecipando a gloriosa ressurreição dos mortos que acontecerá nos último dia, quando Jesus voltar para julgar os vivos e os mortos! Que dia glorioso será! Mas ninguém sabe quando, só Deus.

E daí? Essa é minha fé, a nossa fé Católica. Ninguém é obrigado a segui-la, a acreditar. Mas ninguém tem o direito de nos impedir de crer. Nenhuma sociedade, governo ou instituição tem o direito de nos obrigar a aceitar os seus valores se forem contrários à nossa fé Católica. Ninguém também tem o direito de pretender ser Católico e não crer, não viver tudo isso que falei acima e as outras coisas que não falei, mas que fazem parte da nossa fé. Ou se é Católico ou não se é, não existe meio termo.

Somos Católicos e nos orgulhamos disso. Não temos que nos esconder, nos desculpar para a sociedade, ter medo das críticas ou das pedradas. Nos 2000 anos de nossa história, críticas foi o de menos… já fomos queimados vivos, decapitados, crucificados até de cabeça pra baixo. Nossos irmãos já foram enforcados, esquartejados, flechados, cuspidos, torturados com requintes de crueldade. Já tiveram seus membros arrancados, já foram escalpelados vivos (arrancado a pele, pra quem não sabe…). Igrejas destruídas, sacramentos profanados… e a lista poderia ser quase interminável. No passado e no presente. A única perseguição, ameaça que realmente nos faz tremer, é quando a fumaça de satanás entra na própria Igreja através do pecado, da frieza da fé, da indiferença, do relativismo, da imoralidade. Isso acontece também porque somos pecadores. Mas nada disso, absolutamente nada, em todos esses séculos nos fez ou nos fará retroceder ou ceder, jamais. Muito pelo contrário, a nossa fé se fortalece com as perseguições, e é justamente nesses momentos de crise que abundam o testemunho dos santos e santa de todas as classes, raças, idades… Graças a Deus!

Bom, uma última coisinha: é muito bom ser Católico, é muito bom pertencer à Igreja fundada por Jesus Cristo, com todos os seus dogmas e tradições; com sua liturgia, com sua riqueza incomparável. Se você, como eu, é Católico, se orgulhe disso! Se você não é e quiser nos conhecer, será sempre bem-vindo, mas não será obrigado a sê-lo, como nós não deixaremos de professar a nossa fé por nada nesse mundo, pois ela é a nossa felicidade e salvação eterna.

Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo, e sua Mãe Maria Santíssima!

A mais bela profissão

Do Catecismo de São João Maria Vianney, presbítero

(Catéchisme sur la prière: A. Monnin, Esprit du Curé d’Ars, Paris 1899, pp. 87-89)

(Séc. XIX)

A mais bela profissão do homem é rezar e amar

Prestai atenção, meus filhinhos: o tesouro do cristão não está na terra, mas nos céus. Por isso, o nosso pensamento deve estar voltado para onde está o nosso tesouro. Esta é a mais bela profissão do homem: rezar e amar. Se rezais e amais, eis aí a felicidade do homem sobre a terra.

A oração nada mais é do que a união com Deus. Quando alguém tem o coração puro e unido a Deus, sente em si mesmo uma suavidade e doçura que inebria, e uma luz maravilhosa que o envolve. Nesta íntima união, Deus e a alma são como dois pedaços de cera, fundidos num só, de tal modo que ninguém pode mais separar. Como é bela esta união de Deus com sua pequenina criatura! É uma felicidade impossível de se compreender.

Nós nos havíamos tornado indignos de rezar. Deus, porém, na sua bondade, permitiu-nos falar com ele. Nossa oração é o incenso que mais lhe agrada.

Meus filhinhos, o vosso coração é por demais pequeno, mas a oração o dilata e torna capaz de amar a Deus. A oração faz saborear antecipadamente a felicidade do céu; é como o mel que se derrama sobre a alma e faz com que tudo nos seja doce. Na oração bem feita, os sofrimentos desaparecem, como a neve que se derrete sob os raios do sol.

Outro benefício que nos é dado pela oração: o tempo passa tão depressa e com tanta satisfação para o homem, que nem se percebe sua duração. Escutai: certa vez, quando eu era pároco em Bresse, tive que percorrer grandes distâncias para substituir quase todos os meus colegas que estavam doentes; nessas intermináveis caminhadas, rezava ao bom Senhor e – podeis crer! – o tempo não me parecia longo.

Há pessoas que mergulham profundamente na oração, como peixes na água, porque estão inteiramente entregues a Deus. Não há divisões em seus corações. Ó como eu amo estas almas generosas! São Francisco de Assis e Santa Clara viam nosso Senhor e conversavam com ele do mesmo modo como nós conversamos uns com os outros.

Nós, ao invés, quantas vezes entramos na Igreja sem saber o que iremos pedir. E, no entanto, sempre que vamos ter com alguém, sabemos perfeitamente o motivo por que vamos. Há até mesmo pessoas que parecem falar com Deus deste modo: “Só tenho duas palavras para vos dizer e logo ficar livre de vós…”. Muitas vezes penso nisto: quando vamos adorar a Deus, podemos alcançar tudo o que desejamos, se o pedirmos com fé viva e coração puro.

Ser padre hoje

RIO DE JANEIRO, quinta-feira, 5 de agosto de 2010 (ZENIT.org) – “Neste mundo confuso e até preconceituoso com a figura do Bom Pastor, que deve ser todo ministro do altar”, o que é o ser presbítero hoje?

É a pergunta que propõe o arcebispo do Rio de Janeiro, Dom Orani João Tempesta, em artigo enviado a ZENIT nessa quarta-feira.

“Como deve agir o padre, hoje, na cena deste mundo em grande transformação?”, questiona ainda o prelado.

O presbítero – afirma Dom Orani –, “antes de tudo, é o homem da Palavra de Deus, o homem do sacramento, o homem do ‘mistério da fé’”.

Os padres “têm o dever primário de proclamar o Evangelho de Deus a todos os homens”, explica, citando a Presbyterorum Ordinis. Mas nesta proclamação “está o dever também de levar cada homem e cada mulher deste mundo a um encontro pessoal com Jesus”.

Dom Orani considera que hoje, mais do que antes, “devemos nos empenhar para que cada pessoa possa fazer esta experiência do encontro com Deus, o devemos fazer com uma renovada esperança, mesmo nas adversidades de um mundo extremamente secularizado, liberal, ateísta e até cético”.

“As pessoas devem perceber no sacerdote ‘Aquele’ a quem ele está a serviço: o que chamamos na teologia da configuração com Cristo.”

“Nesta dimensão, encerra-se a sua vital presença na celebração eucarística, ápice da vida espiritual da Igreja, em que o sacerdote age na pessoa de Cristo. Em suma, o Sacerdote deve ser um homem em contato com Deus, e que nos leva a fazer esta mesma experiência de santidade.”

“A mais sublime missão do sacerdote hoje – afirma o arcebispo – é, sem dúvida, ser um Cristo agora, pois ‘Jesus Cristo é o mesmo ontem, hoje e sempre’”.

Porém – prossegue Dom Orani –, o padre “deve avançar com o tempo, com a história, mas não deve ter uma atenção superficial sobre tal ‘modernidade’. É chamado a ser crítico e também vigilante com a realidade que se lhe apresenta”.

“O grande salto qualitativo na vida de qualquer padre seria uma autêntica renovação, que é possível e necessária, e ao mesmo tempo uma grande afeição a uma plena e radical fidelidade à Palavra de Deus e à tradição da Igreja, aos quais ele serve no seu ministério. A sua primeira e fundamental vocação é a da santidade, juntamente com a de toda a Igreja”, afirma o arcebispo.

Dom Orani assinala que o sacerdote “é chamado a ser capaz de se entreter com cada pessoa, acreditando que o outro vale à pena; a ser uma pessoa mística e que, ao mesmo tempo, se interessa pelas coisas do mundo, pela vida do homem, nas suas angústias e alegrias, para que elas se tornem algo sagrado e agradável ao Senhor”.

“O sacerdote é também aquele que procura uma nova linguagem para se comunicar com o mundo de hoje, principalmente neste mundo da multimídia.”

De acordo com o arcebispo do Rio de Janeiro, o sacerdócio ministerial “é entrega, é imolação, é doar-se integralmente, é cruz. Tomar a cruz significa comprometer-se para derrotar o pecado que impede o caminho rumo a Deus, acolher cotidianamente a vontade do Senhor, aumentar a fé, sobretudo diante dos problemas, das dificuldades, do sofrimento”.

Aniversário de casamento

A esposa sempre lembra.

O esposo… tem que lembrar! Depende de quantos anos faz, depende do casal, mas, dizem os casados, que a mulher é sempre mais interessada nesse assunto.

Existem datas muito importantes na nossa vida. A mais importante de todas, a gente goste ou não (mas normalmente todo mundo gosta) é o dia da vida! O dia em que vimos a luz desse mundo (ou a fluorescente do hospital, tanto faz) pela primeira vez.

Esse dia é muito bom. Revela que estamos ficando mais velhos, mas isso não importa. O que importa é que, como dizem os baianos, é o dia da nossa estréia!

Mas, voltemos para outras datas. Para nós cristãos, existe um dia que nunca, jamais deveríamos esquecer, mas a nossa cultura não preservou como de suma importância: o nosso batismo! Sim, nesse dia, nascemos para Deus! Outro dia de imensa importância para qualquer cristão é o dia da sua crisma e da sua primeira comunhão. Sinto dizer que, infelizmente, eu entro nessa lista dos que não sabem as datas desses gloriosos dias em minha vida. Mas minto, eu sei o dia de minha crisma. Eu tinha 15 anos e foi no dia de Santa Teresa d’Ávila, portanto, deu pra lembrar e saber até mesmo quantos anos faz.

Contudo, fica sempre marcada na vida do cristão (ou não) uma data muito importante, porque ele esperou anos a fio por essa data, porque ela é embebida com amor humano, porque a partir dela a sua vida não é mais a mesma: o casamento! Infelizmente, nem todos casamentos vão bem, e isso é muito triste. Mas não é disso que estou falando. Estou falando da comemoração que nada mais é que reviver de algum modo aquele dia “mais feliz da sua vida” e que você faz questão de partilhar com quem interessa, no caso dos esposos, um com o outro e talvez com os amigos e filhos.

Não quero ser melancólico, não. Estou já acostumado. Mas de ontem pra hoje me veio o desejo de escrever esse texto. Talvez para preencher o meu blog que há muito não vê um texto de minha autoria, talvez para me lamentar mesmo, para… sei lá. Não me julguem mal, por favor.

Eu sou casado. Com a Santa Igreja. Esse ano foi especial. Ano sacerdotal onde nós pudemos aprofundar o imenso e imerecido dom do sacerdócio à sua Igreja. Bom, você já se tocou a essa altura do que eu estou falando. Dia 29 de junho eu fiz “aniversário de casamento”. Antes de ontem completei 8 anos de padre. Para mim, oito anos de grande felicidade. Se eu não fosse padre… bom, esse “se” não existe! Não é concebível. Como padre, sinto-me esposo da Igreja e, no Amor, gero filhos para Deus. Esses filhos me chamam de padre (= pai) e eu os chamo pelo nome, mas, quem me conhece sabe que a maioria dos que eu considero de fato, mesmo, chamo de filho ou filha e muitos deles me chamam de pai.

Pois é galera, sabe quem lembrou de mim no último dia 29? Minha mãe. Tinha que ser a mãe mesmo! Mas deixa eu esclarecer uma coisa: minha mãe é fissurada em datas. Ela é capaz de lembrar o aniversário da empregada da casa da minha avó há 40 anos atrás e do carteiro que entregava correspondência quando ela era criança, ou da vizinha da cunhada do dono da padaria. Mas, como se não bastasse, a providência fez com que eu fosse ordenado padre quatro anos antes do dia em que nascia, nada mais nada menos, que meu primeiro sobrinho, ou seja, o primeiro neto de minha mãe. Será que ela iria lembrar?

Nem meu bispo, nenhum paroquiano, nenhum dos jovens ou dos amigos que estiveram comigo no dia de minha ordenação e continuam ao meu lado até hoje, lembraram (esclarecendo, meu bispo estava doente, o secretário esqueceu ou o correio não mandou o cartão a tempo). Na verdade, o pessoal da minha célula “lembrou” porque estava no quadrante! Também um colega de infância que mora em outro estado mandou um recado no Orkut e uma de minhas irmãs mandou um sms. Estão vendo como estou reclamando de barriga cheia?

Mas deixa eu também me acusar, confessar o meu pecado. Junto comigo foi ordenado um amigo. Ele é mais jovem do que eu alguns anos. Eu, óbvio, lembrei dele, mas não me dignei mandar sequer um e-mail, só no outro dia. Ele também não me deu os parabéns, nem respondeu meu e-mail, mas isso não quer dizer nada, não é?

Estava falando com um amigo, um jovem, no MSN ontem e fiz o seguinte comentário: “cara, tu sabia que hoje fazem oito anos que o Brasil é penta-campeão?” Ele me respondeu: “é mesmo?” A pergunta que eu queria mas ao mesmo tempo temia mas que ele não fez: “como é que você sabe?” Porque a resposta seria: “porque no dia em que eu celebrava a primeira missa e erguia pela primeira vez o cálice da salvação, o capitão do time erguia a taça, em 2002”. Eu tive muito medo que o comentário seguinte, terminando o diálogo, fosse: “É mesmo?”…

Queridos amigos, me desculpem de coração. Sei que não estou sendo humilde, sei que isso parece muita arrogância de minha parte, mas estou escrevendo isso porque acho que, no fundo, não é a mim que vocês tinham que dar os parabéns, não é só por mim, embora eu gostaria muitíssimo de ter dividido essa imensa alegria com muitas pessoas, com aquelas para as quais eu fui ordenado padre, mas acredito também que isso deve ser uma questão de conversão de nossa parte. Como eu falei no início, deveríamos também fazer festa, e grande, para o aniversário de Batismo, por exemplo.

Sei que estou correndo o risco de que, daqui a um ano, eu tenha provocado uma festa muito espontânea ou muitos sinceras lembranças de parabéns… Pois tá bom, não vou mais me justificar, se você é meu amigo ou irmão de comunidade e foi às lágrimas com esse texto melodramático, pelo menos reze por mim, aceito orações post-festa!

Abração!!!

Deus abençoe a todos.

Carta de um sacerdote

Segue carta do padre salesiano uruguaio Martín Lasarte, que trabalha em Angola, de 06 de abril e endereçada ao jornal norte-americano The New York Times. Nela expressa seus sentimentos diante da onda midiática despertada pelos abusos sexuais de alguns sacerdotes enquanto surpreende o desinteresse que o trabalho de milhares religiosos suscita nos meios de comunicação.
VALE A PENA CONFERIR!

Eis a carta.

Querido irmão e irmã jornalista: sou um simples sacerdote católico. Sinto-me orgulhoso e feliz com a minha vocação. Há vinte anos vivo em Angola como missionário. Sinto grande dor pelo profundo mal que pessoas, que deveriam ser sinais do amor de Deus, sejam um punhal na vida de inocentes. Não há palavras que justifiquem estes atos. Não há dúvida de que a Igreja só pode estar do lado dos mais frágeis, dos mais indefesos. Portanto, todas as medidas que sejam tomadas para a proteção e prevenção da dignidade das crianças será sempre uma prioridade absoluta.
Vejo em muitos meios de informação, sobretudo em vosso jornal, a ampliação do tema de forma excitante, investigando detalhadamente a vida de algum sacerdote pedófilo. Assim aparece um de uma cidade dos Estados Unidos, da década de 70, outro na Austrália dos anos 80 e assim por diante, outros casos mais recentes…

Certamente, tudo condenável! Algumas matérias jornalísticas são ponderadas e equilibradas, outras exageradas, cheias de preconceitos e até ódio.

É curiosa a pouca notícia e desinteresse por milhares de sacerdotes que consomem a sua vida no serviço de milhões de crianças, de adolescentes e dos mais desfavorecidos pelos quatro cantos do mundo!

Penso que ao vosso meio de informação não interessa que eu precisei transportar, por caminhos minados, em 2002, muitas crianças desnutridas de Cangumbe a Lwena (Angola), pois nem o governo se dispunha a isso e as ONGs não estavam autorizadas; que tive que enterrar dezenas de pequenos mortos entre os deslocados de guerra e os que retornaram; que tenhamos salvo a vida de milhares de pessoas no Moxico com apenas um único posto médico em 90.000 km2, assim como com a distribuição de alimentos e sementes; que tenhamos dado a oportunidade de educação nestes 10 anos e escolas para mais de 110.000 crianças…

Não é do interesse que, com outros sacerdotes, tivemos que socorrer a crise humanitária de cerca de 15.000 pessoas nos aquartelamentos da guerrilha, depois de sua rendição, porque os alimentos do Governo e da ONU não estavam chegando ao seu destino.

Não é notícia que um sacerdote de 75 anos, o padre Roberto, percorra, à noite, a cidade de Luanda curando os meninos de rua, levando-os a uma casa de acolhida, para que se desintoxiquem da gasolina, que alfabetize centenas de presos; que outros sacerdotes, como opadre Stefano, tenham casas de passagem para os menores que sofrem maus tratos e até violências e que procuram um refúgio.

Tampouco que Frei Maiato com seus 80 anos, passe casa por casa confortando os doentes e desesperados.
Não é notícia que mais de 60.000 dos 400.000 sacerdotes e religiosos tenham deixado sua terra natal e sua família para servir os seus irmãos em um leprosário, em hospitais, campos de refugiados, orfanatos para crianças acusadas de feiticeiros ou órfãos de pais que morreram de Aids, em escolas para os mais pobres, em centros de formação profissional, em centros de atenção a soropositivos… ou, sobretudo, em paróquias e missões dando motivações às pessoas para viver e amar.

Não é notícia que meu amigo, o padre Marcos Aurelio, por salvar jovens durante a guerra de Angola, os tenha transportado de Kalulo a Dondo, e ao voltar à sua missão tenha sido metralhado no caminho; que o irmão Francisco, com cinco senhoras catequistas, tenham morrido em um acidente na estrada quando iam prestar ajuda nas áreas rurais mais recônditas; que dezenas de missionários em Angola tenham morrido de uma simples malária por falta de atendimento médico; que outros tenham saltado pelos ares por causa de uma mina, ao visitarem o seu pessoal. No cemitério de Kalulo estão os túmulos dos primeiros sacerdotes que chegaram à região… Nenhum passa dos 40 anos.

Não é notícia acompanhar a vida de um Sacerdote “normal” em seu dia a dia, em suas dificuldades e alegrias consumindo sem barulho a sua vida a favor da comunidade que serve. A verdade é que não procuramos ser notícia, mas simplesmente levar a Boa-Notícia, essa notícia que sem estardalhaço começou na noite da Páscoa. Uma árvore que cai faz mais barulho do que uma floresta que cresce.

Não pretendo fazer uma apologia da Igreja e dos sacerdotes. O sacerdote não é nem um herói nem um neurótico. É um homem simples, que com sua humanidade busca seguir Jesus e servir os seus irmãos. Há misérias, pobrezas e fragilidades como em cada ser humano; e também beleza e bondade como em cada criatura…
Insistir de forma obsessiva e perseguidora em um tema perdendo a visão de conjunto cria verdadeiramente caricaturas ofensivas do sacerdócio católico na qual me sinto ofendido.

Só lhe peço, amigo jornalista, que busque a Verdade, o Bem e a Beleza. Isso o fará nobre em sua profissão.

Em Cristo,

Pe. Martín Lasarte, SDB.