Firmeza na virtude

Como um bloco pesado, que role por uma encosta, torna-se difícil reter o coração que se deixe mover do lugar dos esforços decididos, por causa de um prazer.

(Marcos, o Eremita. Monge da Palestina, séc. V)

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Nunca mais pecar

Sempre fiquei intrigado, desde que fiz o catecismo para a primeira comunhão, com essa expressão do ato de contrição tradicional: “prometo nunca mais pecar”. Para quem não lembra, ou não usa o ato de contrição que se ensina às crianças, aí vai: Senhor, eu me arrependo de todo o coração por vos ter ofendido, porque sois tão bom e amável, prometo, com a vossa graça, nunca mais pecar. Meu Jesus, misericórdia.

Algumas versões, até mesmo omitem o aposto “com a vossa graça” ou a frase “porque sois tão bom e amável”.

Variantes à parte, o fato é que nunca mais pecar, com ou sem a graça de Deus, nunca me pareceu promessa que se faça! Às vezes eu prometo coisas simples, muito simples e, infelizmente, não cumpro. Imagina prometer uma coisa tão grande, na verdade, imensa, incrivelmente grande como não pecar mais! Parece-me, desde minha infância, um disparate. Como vocês podem ver, eu sempre fui muito inteligente…

Quando questionei minha catequista sobre esse assunto, ela me deu a resposta tradicional: nós prometemos nunca mais pecar, com a graça de Deus.

É verdade, com a graça de Deus, tudo, tudo mesmo, é possível! Precisamos acreditar nisso e não rezar da boca pra fora: Deus pode tudo! Inclusive fazer de mim, de cada um de nós, um santo.

Mas, mesmo assim, ainda ficava com a pulga atrás da orelha. Se é verdade que, com a graça de Deus, tudo é possível, é também verdade que a minha fraqueza atrapalha grandemente a graça de Deus. A liberdade é um dom maravilhoso e terrível ao mesmo tempo. Deus é capaz, mas eu posso dizer não à graça. Portanto, o problema da promessa quase impossível continua. Como posso prometer a Deus uma coisa tão grande?

Aqui devem entrar em ação as três virtudes mais importantes: a fé, a esperança e a caridade.

A fé no poder de Deus, em sua graça; a esperança de que um dia isso se realizará; e o amor (caridade) para que nos disponhamos a isso.

Sim, devemos rezar de todo coração para que nunca mais caiamos no mesmo pecado.

Mas eu descobri uma coisa que é uma bomba! Acho que a gente não pensa nisso e, no fundo, no fundo, é a real razão pela qual rejeitamos essa oração-promessa. Quer saber? Está preparado?

Nós não queremos prometer a Deus, nem mesmo com a ajuda da graça, nunca mais pecar porque simplesmente NÃO QUEREMOS NUNCA MAIS PECAR! Isso mesmo. Por mais absurdo que seja. Talvez não em relação a todos os pecados e, quase sempre, não conscientemente, deliberadamente, mas é a verdade. Guardamos uma “esperança maldita” de voltarmos a pecar! Não queremos ser imediatamente santos. Guardamos o secreto desejo de “cair” na próxima oportunidade, afinal, somos fracos… não existe isso de “nunca mais pecar”! – é o que pensamos inconscientemente.

Sei que pode parecer um absurdo o que eu estou dizendo. Talvez você diga: não, não é verdade, eu quero ser santo. Bom, você quer? Quer mesmo? Então porque não dá um basta?! Porque simplesmente não para e corta o mal pela raiz? Por que você não foge de todas as ocasiões? E se a confissão que você está fazendo agora fosse a última da vida? Se por muitos e muitos anos você não pudesse encontrar um sacerdote?

Claro que a coisa não é simples, que temos que reconhecer a nossa fraqueza e que podemos cair em pecado. Isso é verdade. A gente só não pode é usar a “desculpa” da fraqueza pra não nos decidirmos verdadeiramente.

Talvez, alguns pecados já foram eliminados da nossa lista sem que nos demos conta, só porque, para esses, valeu a oração nunca mais pecar. Por exemplo: talvez você não cole mais na prova, não escute mais músicas satânicas, não diga mais palavrões, não roube mais, não use drogas… etc. Que bom! Então vamos nos decidir pelos outros com a mesma força de vontade, o mesmo empenho, a mesma penitência, o mesmo amor, a mesma fé.

Que a cada confissão você vá com essa confiança e convicção: eu quero que essa seja a última vez na minha vida que eu confesse esse pecado. E que, após a absolvição do sacerdote você vá rezar com essa esperança. Isso pode parecer uma neurose e, de fato, corre o risco de se tornar, se você não for humilde. A humildade faz com que reconheçamos as quedas, nos levantemos pela misericórdia e nos decidamos a lutar novamente, sem tréguas, sem moleza!

A graça de Deus é onipotente! Deus pode fazer de mim e de você um santo! Nós queremos?

A tentação-mosca

Um padre da Igreja (teólogo dos primeiros séculos cristão) dizia que o demônio é como um cão que late mas não morde, pois está amarrado. Ele só morderá quem dele se aproximar. É uma comparação muito simples mas, ao meu ver, muito profunda e verdadeira. O demônio pode fazer muito barulho, tentar nos distrair, nos fazer medo, etc., mas não pode nos tocar a não ser que demos trela para ele.

cachorro-latindo massa

Na história do pecado original, na tentação dos nossos primeiros pais, há uma coisa muito interessante:

“A serpente (…) disse à mulher:

– Então Deus vos disse para não comerdes de nenhuma árvore do jardim?

A mulher respondeu à serpente:

– Não! Nós podemos comer de todas as árvores do jardim…” (Gn 3,1-2a)

Eu já disse anteriormente que não sou estudioso da Bíblia, só coloco às vezes as minhas impressões, aquilo que acredito que Deus coloca no meu coração. Nesse caso, eu parei de escrever os versículos porque creio que foi exatamente aí que começou o pecado: “A mulher respondeu à serpente”. Esse é o nosso problema, às vezes damos muita trela para o demônio, para aquilo que ele nos sugere. Damos “ouvidos”, respondemos às suas provocações, nos aproximamos do cão amarrado.

Damos ouvidos quando ficamos tristes por vermos pecados e fraquezas em nós. Ora, é justamente esse o objetivo dele: nos desanimar, nos entristecer! Quanto falta o louvor nos nossos corações e começa a tristeza e a melancolia, começamos a “responder à serpente”. Damos ouvidos quando queremos “testar as nossas forças”, mesmo sabendo da nossa fraqueza, nos expomos à tentação. Nós não “nos garantimos”! Quem nos garante é a graça de Deus! Não devemos nos expor ao diabo (Ef 4,27), pois ele “rodeia como um leão a rugir, procurando a quem devorar”! (I Pe 5,8).

leão rugindo

Eu tinha um confessor e diretor espiritual quando eu estava no início da minha caminhada no seminário que nos aconselhava a louvarmos a Deus até mesmo pelo pecado. Não porque o pecado seja uma coisa boa, mas porque deveríamos destruir o tentador com a sua própria arma. Sei que isso é muito difícil, mas o segredo está em não esmorecer o louvor. Não é que devemos agradecer a Deus pelo ódio que sentimos por alguém, por exemplo, mas agradecer a Deus que nos perdoa, que ama aquela pessoa, que nos dá paciência… etc.; você pode não agradecer a Deus porque pecou contra a castidade, mas porque você é filho de Deus, porque Deus criou o seu corpo e o corpo das outras pessoas de maneira tão bela… devemos usar a criatividade e não dar trela para o inimigo.

Bom, eu também gosto de dizer que o demônio, as tentações são como moscas. Elas perturbam, tiram a paciência do cidadão, mas elas são apenas… moscas! Nada mais! Simplesmente moscas. Se olharmos para uma mosca com uma potente lente de aumento, talvez o seu aspecto terrível até nos amedronte. Às vezes um problema, uma tentação, um pecado é visto com essa lente. A coisa é realmente feia, mas uma mosca, convenhamos, não mata! A mesma coisa que falei lá no “pinico de passarinho”: você pode não conseguir evitar que as moscas lhe encham o saco, mas daí a comê-las ou brincar com elas… é outra coisa!


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Um artista conhecido apenas como Flychelangelo está ganhando fama usando moscas mortas em suas composições. A ideia é simples: os insetos servem como modelos em uma tela branca. O restante do cenário é composto por uma caneta criativa e bem humorada.

Legal né? 😉