A messe é grande

Queridos amigos…

Em primeiro lugar quero dizer que estou feliz. Na verdade, eu sou feliz: como cristão e como sacerdote. Mas confesso que, como milhões de brasileiros estou feliz porque finalmente a campanha política acabou…!!!

Sei que o que vou escrever aqui é meio fora de contexto, hoje é dia de finados… mas achei legal. Ao abrir a liturgia para rezar as vésperas, reencontrei esse texto de São Gregório Magno – grande Papa do século VI – que repasso um trecho pra vocês:

A messe é grande, são poucos os operários. Rogai, pois, ao Senhor da messe que envie operários a seu campos (Mt 9,37-38). Para grande messe, poucos operários, coisa que não sem imensa tristeza podemos repetir; pois embora haja quem escute as palavras boas, falta quem as diga. Eis que o mundo está cheio de sacerdotes, todavia, raramente se vê um operário na messe de Deus; por que, aceitamos, sim, o ofício sacerdotal, mas não cumprimos o dever do ofício.

Mas pensai, irmãos caríssimos, pensai no que foi dito: Rogai ao Senhor da messe que envie operários a seu campo. Pedi vós por nós, para que possamos fazer coisas dignas de vós; que a língua não se entorpeça por não querer exortar; tendo recebido o encargo de pregar, não vá nosso silêncio condenar-nos diante do justo juiz.

São Mateus

Das Homilias de São Beda Venerável, presbítero (Séc. VIII)

Jesus viu-o, compadeceu-se dele e o chamou

Jesus viu um homem chamado Mateus, assentado à banca de impostos, e disse-lhe: Segue-me (Mt 9,9). Viu-o não tanto com os olhos corporais quanto com a vista da íntima compaixão. Viu o publicano, dele se compadeceu e o escolheu. Disse-lhe então: Segue-me. Segue, quis dizer, imita; segue, quis dizer, não tanto pelo andar dos pés, quanto pela realização dos atos. Pois quem diz que permanece em Cristo, deve andar como ele andou (1Jo 2,6).

E levantando-se, o seguiu (Mt 9,9). Não é de admirar que o publicano, ao primeiro chamado do Senhor, tenha abandonado os lucros terrenos de que cuidava e, desprezando a opulência, aderisse aos seguidores daquele que via não possuir riqueza alguma. Pois o próprio Senhor que o chamara exteriormente com a palavra, interiormente lhe ensinou por instinto invisível a segui-lo, infundindo em seu espírito a luz da graça espiritual. Com esta compreenderia que quem o afastava dos tesouros temporais podia dar-lhe nos céus os tesouros incorruptíveis.

E aconteceu que, estando ele em casa, muitos publicanos e pecadores vieram e puseram-se à mesa com Jesus e seus discípulos (Mt 9,10). A conversão de um publicano deu a muitos publicanos e pecadores o exemplo da penitência e do perdão. Belo e verdadeiro prenúncio! Aquele que seria apóstolo e doutor dos povos, logo no primeiro encontro arrasta após si para a salvação um grupo de pecadores. Assim inicia o ofício de evangelizar desde os primeiros começos de sua fé aquele que viria a realizar este ofício plenamente com o merecido progresso das virtudes. Contudo se quisermos indagar pelo sentido mais profundo deste acontecimento nós o entenderemos: a Mateus foi muito mais grato o banquete na casa do seu coração, preparado pela fé e pelo amor do que o banquete terreno que ele ofereceu ao Senhor. Atesta-o aquele mesmo que diz: Eis que estou à porta e bato; se alguém ouvir minha voz e abrir a porta, entrarei e cearei com ele e ele comigo (Ap 3,20).

Ouvindo a sua voz, abrimos a porta para recebê-lo, ao aceitarmos de bom grado suas advertências secretas ou evidentes e nos pormos a realizar aquilo que compreendemos como o nosso dever. Ele entra para que ceemos, ele conosco e nós com ele, porque, pela graça de seu amor, habita nos corações dos eleitos para alimentá-los sempre com a luz de sua presença. Possam assim os eleitos cada vez mais progredir no desejo do alto, e ele mesmo se alimente com os desejos deles como com pratos deliciosos.

A juventude do Papa

CIDADE DO VATICANO, sexta-feira, 3 de setembro de 2010 (ZENIT.org) – A guerra e as dificuldades, as próprias dúvidas e o encontro com Jesus são algumas das vivências pessoais que o Papa Bento XVI revive na Mensagem para a Jornada Mundial da Juventude (Madri, 2011), divulgada hoje pela Santa Sé.

Nela, o Papa percorre os anos da sua vocação e propõe sua própria experiência aos jovens, pois as aspirações de um jovem “são as mesmas em todas as épocas” e podem ser resumidas no “desejo de uma vida maior”, que não acabe em “mediocridade”.

Os jovens, “como em toda época, também em nossos dias”, sentem o “profundo desejo de que as relações interpessoais sejam vividas na verdade e na solidariedade”.

“Muitos manifestam a aspiração de construir relações autênticas de amizade, de conhecer o verdadeiro amor, de fundar uma família unida, de adquirir uma estabilidade pessoal e uma segurança real, que possam garantir um futuro sereno e feliz.”

No entanto – afirma o Papa, recordando sua própria juventude -, “vejo que, na verdade, a estabilidade e a segurança não são as questões que mais ocupam a mente dos jovens”.

“Sim, a questão do lugar de trabalho – e, com isso, a de ter o porvir garantido – é um problema grande e urgente, mas ao mesmo tempo a juventude continua sendo a idade na qual se busca uma vida maior.”

O Papa recorda sua juventude, que transcorreu entre a 2ª Guerra Mundial e o imediato período pós-guerra.

“Ao pensar nos meus anos de então, simplesmente, não queríamos perder-nos na mediocridade da vida aburguesada. Queríamos o que era grande, novo. Queríamos encontrar a vida em si, em sua imensidade e beleza.”

Certamente, reconhece, “isso dependia também da nossa situação. Durante a ditadura nacional-socialista e a guerra, estivemos, por assim dizer, ‘presos’ pelo poder dominante. Por isso, queríamos sair, para entrar na abundância das possibilidades de ser homem”.

Contudo, afirma, “este impulso de ir além do habitual está em cada geração. Desejar algo mais que a cotidianidade regular de um emprego seguro e sentir o desejo do que é realmente grande faz parte do ser jovem”.

“Será que se trata somente de um sonho vazio, que se desvanece quando a pessoa se torna adulta? – pergunta-se. Não. O homem, na verdade, foi criado para o que é grande, para o infinito. Qualquer outra coisa é insuficiente.”

Citando um dos seus pensadores favoritos, afirma: “Santo Agostinho tinha razão: nosso coração está inquieto enquanto não descansa em Deus. O desejo da vida maior é um sinal de que Ele nos criou, de que carregamos o seu selo”.

Dúvidas

A juventude, reconhece o Papa em sua mensagem, é também “uma fase fundamental que pode turbar o ânimo, às vezes durante muito tempo. Pensamos em qual será nosso emprego, como serão as relações sociais, que afetos é preciso desenvolver…”.

Bento XVI volta novamente aos seus anos juvenis e compartilha com os jovens suas próprias vacilações e dúvidas.

“De certa forma, em pouco tempo tomei consciência de que o Senhor me queria como sacerdote. Mas depois da guerra, quando eu me dirigia a esta meta no seminário e na universidade, tive de reconquistar esta certeza”, explica.

“Eu tive de me fazer esta pergunta: realmente é este o meu caminho? É verdadeiramente a vontade do Senhor para mim? Serei capaz de permanecer fiel e estar totalmente à disposição d’Ele, ao seu serviço?”

A decisão do sacerdócio não foi fácil: “Uma decisão assim também causa sofrimento. Não pode ser de outra forma. Mas depois tive a certeza: assim está bem! Sim, o Senhor me quer, e por isso me dará também a força. Escutando-O, estando com Ele, chego a ser eu mesmo. Não importa a realização dos meus próprios desejos, mas a sua vontade. Assim, a vida se torna autêntica”.

Encontro com Jesus

Outro dos “tesouros” da sua juventude que o Papa quis compartilhar foi o dom do encontro pessoal com Jesus, uma “pérola preciosa” que, de alguma forma, ele quis transmitir com seus livros sobre Jesus de Nazaré – cujo segundo volume será publicado na próxima Semana Santa.

“Para muitos, é difícil o acesso a Jesus. Muitas das imagens que circulam de Jesus – e que se fazem passar por científicas – diminuem sua grandeza e a singularidade da sua pessoa”, afirma o Papa.

Por isso, “ao longo dos meus anos de estudo e meditação, fui amadurecendo a ideia de transmitir em um livro algo do meu encontro pessoal com Jesus, para ajudar de alguma forma a ver, ouvir e tocar o Senhor, em quem Deus veio ao nosso encontro para dar-se a conhecer”, acrescenta.

“O encontro com o Filho de Deus proporciona um dinamismo novo a toda a existência. Quando começamos a ter uma relação pessoal com Ele, Cristo nos revela nossa identidade e, com sua amizade, a vida cresce e se realiza em plenitude”, afirma o Papa aos jovens.

“Queridos jovens, aprendei a ‘ver’, a ‘encontrar’ Jesus na Eucaristia, na qual Ele está presente e perto até entregar-se como alimento para o nosso caminho; no sacramento da Penitência, no qual o Senhor manifesta sua misericórdia, oferecendo-nos sempre seu perdão. Reconhecei e servi Jesus também nos pobres e doentes, nos irmãos que estão em dificuldade e precisam de ajuda”, conclui.

Médico, advogado, professor

Um médico, um advogado, um professor.

Três profissões maravilhosas. Pelo bem que fazem à sociedade, são às vezes equiparadas à uma vocação sobrenatural, um chamado divino.

Imagino um jovem que se decide pela medicina. Cheio de garra, de vontade de fazer o bem aos outros, de curar, de socorrer os mais fracos, de lutar pela justiça nos setores públicos… até sonha em achar a cura de uma doença como o câncer, a AIDS…

Um outro que acabou de fazer, com tantas lutas e sacrifícios, todas as etapas para ser aprovado na OAB, que sonha em defender grandes causas, colocar na cadeia criminoso e sanar grandes injustiças.

Talvez ainda mais lindo e menos reconhecido de todos é aquele que adentra pela área do magistério. O sonho de moldar uma criança e fazê-la cidadã do mundo, construir as mentalidades para uma nova sociedade, ser modelo para os jovens e para as novas gerações um referencial.

Acho que, em diversas áreas, quase todo jovem se identifica aqui nessas palavras acima citadas. Até um vocacionado ao sacerdócio, um jovem padre.

Mas… sim, tem que haver um “porém”, as coisas não continuam exatamente assim como sonhamos na juventude. Muitas vezes as contradições, os desafios, as lutas para realizar os mais lindos sonhos parecem maiores do que nós. Vem, para a maioria dos casos nas três profissões acima, o casamento, a mulher/o marido, os filhos, as contas a pagar, a rotina… Os desejos de conforto, segurança, bem intencionados até. Os sonhos “financeiros”, as decepções com colegas, com as empresas, com o governo que nunca muda…

Então, aquele plantão no hospital com falta de remédios e com uma equipe enfadonha já não é o que se possa dizer “que legal!”; aqueles alunos barulhentos, mimados, com pais que fazem tudo o que eles querem, com diretores que olham mais para o carnê de mensalidades que para o boletim, não é exatamente a “construção de uma sociedade democrática”. Juízes corruptos, colegas gananciosos, leis que nunca se aplicam a quem não pode pagar bem vão torrando até o último grama de paciência e de desejo de dedicação.

Os anos vão passando, e os nossos três heróis já não têm 25 anos, mas sim 39, 45… cabelos brancos, calvície, barriguinha protuberante pela cervejinha do final de semana, filhos adolescentes exigindo as últimas invenções do Jobs ou do Gates ou de quem quer que esteja na moda… e nada mudou! Não, na verdade, mudou sim, mudou a disposição, o alento, a garra, o sonho esvaneceu.

Mas, o que pode substituir o sonho? Como colocar algo no lugar da realização de minha juventude? Fácil pensar, na verdade, não se pensa, as coisas acontecem naturalmente. De repente, lá está nosso ex-jovem defendendo um culpado no tribunal só porque ele lhe paga muito bem; passando informações na sala de aula só porque o colégio exige excelência, na verdade, exige que sejam repassados todas as dicas, os “bizus” para o vestibular, não importando minimamente se aquilo forma realmente um cidadão. Lá está nosso doutor preferindo as clínicas ricas, e fazendo todo tipo de jogo de cintura para escapar daquilo que custaria sacrifício para salvar vidas, afinal, sempre foi assim, quem se importa? Mais um, menos um não faz diferença…

Puxa vida, que pessimismo! Sim, caríssimos, graças a Deus que isso não é tão generalizado assim. Talvez você tenha até ficado revoltado em pensar em tantos bons professores, dedicados e doados aos alunos como se fossem filhos; tantos bons advogados que favorecem sempre os pobres e não permitem que as injustiças se perpetuem no nosso tão sofrido Brasil; tantos médicos que se consomem para que outros tenham um atendimento cheio de respeito, mesmo que sejam pobres, sujos, ignorantes… Seria uma injustiça generalizar, não é? Seria muito sério falar mal dessas três profissões por causa de alguns que se corrompem. Seria terrível dizer que os professores de educação física são pedófilos porque há vários casos nessa área, ou que os médicos são uns assassinos porque há alguns sem escrúpulos e por aí vai…

Já perceberam onde eu quero chegar? Obvio. Assim como nessas lindas e maravilhosas “vocações” há quem se perca no caminho, quem abandone seus sonhos, quem não consegue mais olhar para trás e ver de onde tudo isso partiu e que alento o levou a enfrentar tantos sacrifícios para se formar e obter o título tão honroso de médico, professor, advogado… etc., a mesma coisa pode acontecer, e acontece, infelizmente, com o padre.

Ele pode esquecer o seu primeiro chamado, os seus sonhos de seminarista. Pode aposentar o seu breviário (livro de orações) porque, afinal, há muitas reuniões a serem conduzidas. Ele pode deixar mofar os seus livros de espiritualidade, de teologia. Pode empolgar-se (por que não?) com coisas que não deveriam ofuscar a sua mente como o dinheiro, o conforto, as relações sociais favoráveis. Sim, ele, como todo ser humano pode se corromper, como qualquer um, na solidão da paróquia, no perder-se em coisas que realmente não fazem parte dos sonhos de sua juventude.

Quando, para qualquer um, se perde a esperança, se abandona os sonhos, só resta a amargura de entregar-se aos prazeres passageiros. Aí vem à tona aquilo que a graça de Deus, alimentada na oração e no amor, já havia há muito derrotado. Vem à tona os instintos mais baixos, porque afinal, o celibato, a fidelidade, não faz mais sentido. Nada muda, todos são iguais, etc.

É triste. Pode acontecer. Acontece. Mas não é a maioria. E não podemos desistir de lutar, não podemos querem acabar com as maravilhosas carreiras, profissões e funções que tanto bem fazem à sociedade, mesmo que existam advogados, professores, médicos e… padres, que nos envergonhem, podemos e devemos renovar as nossas forças e fincar com mais coragem e empenho a bandeira da justiça, da verdade e do amor ao próximo que defendemos.

Para concluir, vou contar um testemunho pessoal. Quando eu era adolescente, as coisa não eram diferentes. No mundo haviam santos e pecadores, honestos e injustos, trigo e joio, e, como todo jovem, eu começava a perceber isso. Eu tinha um grande amigo de escola que era protestante, ele queria ser pastor e eu queria ser padre, mas éramos muito amigos. Um dia eu disse a ele que, quando mais eu descobria ou via coisas erradas, coisas com as quais eu não concordava, padres que para mim não eram modelo, mais eu queria ser padre. Os maus exemplos alimentaram minha vocação! Sim, eu queria ainda mais ser padre para poder ser diferente daquilo que eu não gostava.

Hoje eu digo para os meus filhos espirituais (são muitíssimos!): quero ser para vocês aquilo que eu gostaria de ter tido quando eu era o que vocês são.

Pensem nisso.

Deus os abençoe.